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O Último Dia – Por Betty Feliz

Alunas do Ginásio Maria Ortiz nos anos 60, Praça Costa Pereira - Fonte: Gessimar Machado

Contrariando minhas expectativas, amanheceu um céu azul, o sol de dezembro, como uma bola de fogo, prenunciando a tarde quente e úmida que estava por vir. Não era isso que eu havia planejado para a minha despedida do velho casarão das castanheiras. Não deixava de ser curioso... Oito anos depois, estava pronta para enfrentar a despedida sorumbática, infeliz. Afinal, antegozara aquele momento nos últimos dois anos da minha vida escolar, na certeza de que o depois seria melhor, que me aguardava lá fora um mundo de descobertas profissionais. A comportada normalista cumpria, enfim, seu papel de boa moça, libertando-se da disciplina rígida de uma escola tradicional, que nem sequer permitia que suas alunas — no auge do verão — circulassem, fora de seus pesados portões, sem a famigerada jaqueta.

Ensaiei algumas lágrimas, ao sair de casa naquela manhã, mas, por mais que exigisse, o meu lado dramático negou fogo. Engraçado... Chorei algumas vezes, antecipando o momento da partida, escondida nos fundos do palco do grande salão da escola, o mesmo onde, durante os quatro anos ginasiais, me emocionava todas as vezes que dona Cecília Siqueira, no famoso coro orfeônico, nos fazia cantar "Santa Luzia" (...Sul mare lutico...). Como boa descendente de italianos, cultivava o drama, mas não conseguia controlar a veia crítica e bem humorada da família, o otimismo que meu pai, na sua simplicidade serena, me legara.

Deixava a centenária Escola Normal Pedro II com o coração partido. Boas lembranças do Ginásio Maria Ortiz, onde estudei por quatro anos, morrendo de medo da maioria dos professores, contrariando, assim, a tese de que meninas ruivas e sardentas são, por essência, atrevidas, pinga-fogo. Que nada! Era tímida, as colegas se divertiam às minhas custas com piadas e estórias picantes, riam do meu rosto vermelho, debochavam do meu constrangimento. Clarice, Débora, Beth Loureiro... Me sentia ridícula diante da esperteza, da malícia delas. Mas, no curso normal, eu já não era tão normal. Dona Neném, a nossa super-inspetora chefe — de saudosa memória — pôde atestar. Fui mandada para fora de sala umas duas vezes (!) nos dois últimos anos de rebeldia juvenil no casarão. Mamãe nunca soube porque escondi a caderneta, é claro. Ainda me lembro da expressão de dona Neném ao me ver, de pé, desconfiada, na sua sala: "Elizabeth...?" E eu que seria capaz de jurar que, do alto da sua formal e impenetrável autoridade, ela jamais saberia meu nome... Dona Neném sabia de tudo.

A verdade é que eu tinha meus segredos inconfessáveis. Não tinha coragem de revelar, por exemplo, que meu sonho era crescer, ficar adulta o suficiente para usar as meias pretas da professora Bernadette Lyra (ela mesma, a nossa escritora maior). Nunca contei pra ninguém, mas achava que, por termos algo em comum — a professora Bernadette e eu — a pele branca a as teimosas sardas, também comungávamos de uma certa cumplicidade. Eu a considerava inteligente e sexy. Quer mistura mais explosiva do que esta para a cabeça de uma adolescente com pretensões maiores do que a de tornar-se tão somente mais uma professora normalista?

Muito tempo se passou desde então e lá estava eu naquela manhã de dezembro do meu último dia de aula, na minha velha e querida escola de tantas recordações. E não havia lágrimas. A verdade é que lá estávamos, todas nós, Débora, Clarice, Beth, rindo, contando piadas, fazendo planos mirabolantes para o nosso rico futuro. Era o último dia de aula, o céu estava azul, o sol brilhava, o calor era insuportável sob a camisa branca, a gravata e a saia plissada azuis. Jogamos a jaqueta para o alto —aquele era o nosso grito de liberdade. Aquela jaqueta com seus botões que nos distinguiram, nos conferiram ano a ano o grau merecido era, também, uma camisa de força, símbolo da nossa opressão. Passamos batom, penteamos os cabelos, rabiscamos as blusas assinando nossos nomes, dissemos adeus às nossas fantasias e ao velho casarão. Fomos passear a nossa quase inocência na Praça Oito, comer pipoca, tomar sorvete na Lanchonete Sete e copiar, escondido de seu Francisco, alguns modelos do verão nas vitrinas da Doll Sport, que era o must da moda capixaba em 1968.

 

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Voltei ao velho casarão alguns anos depois, como repórter do jornal O Diário. O prédio ameaçava ruir. Não havia mais ninguém lá. Chorei ao voltar à redação.

 

Fonte: Escritos de Vitória, nº 10 – Escolas, 1995
Autor: Betty Feliz
Nascida em Cariacica (ES).
Jornalista e assessora de imprensa

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