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O Mestre Alvo – Por Adelpho Monjardim

Desenho de Dom Pedro II, da janela do Convento da Penha, em 1860

Comumente denominado Mestre Álvaro, o imponente maciço eleva-se no município da Serra. Majestoso na selvagem beleza do seu complexo orográfico, com vários picos perfurando as nuvens a quase mil metros, é, a partir do paralelo 20o 10’, rumo sul, o mais importante e setentrional da costa brasileira. Com a neblina a coroar-lhe os cimos é ponto de referencia para os navios que buscam o Porto de Vitória e razão do nome Mestre Alvo.

Em um dos seus contrafortes, à distancia de muitas milhas, é avistada a “Malha Branca”, pela qual se guiam os timoneiros para segura ancoragem no porto.

O controvertido nome suscitou pesquisas, não só de historiadores como de interessados no debate. Teria, em passado remoto, vivido na serra um Mestre Álvaro? Não,  nunca existiu. Mestre de quê? Mestre Escola? De embarcação? Pertencera o maciço a alguém com tal nome? Também não. Mas o fenômeno se explica. As camadas menos cultas pegam as coisas pela rama, tirando conclusões simplistas, concordes com os próprios conhecimentos. O adjetivo alvo, mais requintado, foi interpretado como engano e sendo mestre cargo, profissão, para dar sentido o complemento só poderia ser Álvaro. Raciocínio lógico, em se tratando de mentalidades rudimentares.

Aires de Casal, religioso português, que em 1796 era Capelão da Misericórdia, do Rio de Janeiro, onde permaneceu até a retirada da Família Real, em 1821, é o autor da Corografia Basílica, obra considerada valiosa para consulta documental sobre o Período Joanino e épocas anteriores. Na aludida obra o Mestre Álvaro é citado como vulcão extinto, cuja cratera se transformou em lago.

A lenda correu mundo e por largo tempo considerada verdadeira, embora a serena e harmoniosa beleza do conjunto desmentisse a versão. Densas florestas cobrem as encostas, de quando em quando interrompidas pelo claro de um roçado ou de velhos cafezais. Nada que se assemelhe ao caótico e turbulento cenário de um vulcão, mesmo que extinto. As erupções deixam marcas indeléveis.

Por volta do ano de 1818, Saint-Hilaire, naturalista francês, escalou o maciço, fazendo da ascensão desenvolvida e interessantíssima narrativa. Fala das quedas d’água, de trechos de difícil acesso e de um bambual de taquaruçu em altitude vedada à espécie, o que o deixou surpreso. Chegando ao ponto culminante, largo e extenso platô, extasiou-se com o indescritível panorama. Viu tudo, menos a cratera e a imaginária lagoa.

Já outras pessoas escalaram o Mestre Alvo, entre as quais o Engenhoso Dr. Ruiggi Haga, japonês, e o Dr. Nelson Monjardim Faria Santos, que também não encontraram vestígios da cratera e da suposta lagoa.

Mais uma lenda que se desfaz.

 

Fonte: O Espírito Santo na História, na Lenda e no Folclore, 1983
Autor: Adelpho Poli Monjardim
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2015

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