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O Monstro – Por Adelpho Monjardim

Capa do livro: O Espírito Santo na História, na Lenda e no Folclore, 1983

Há mais ou menos cinqüenta anos, em um dos nossos Municípios sulinos, ocorreu espantoso fato, digno da exaltada imaginação de um Hoffmann.

Abastado fazendeiro, proprietário de muitas terras e pai de duas jovens, enviuvara cedo. Pai desvelado, aquelas duas moças eram todo o seu mundo. Suíço, era homem austero e de rígidos princípios.

Na mesma cidade residia um patrício, moço bem apessoado e galanteador, razão pela qual não gozava de boa fama. Bonitão, o Casanova conseguiu entabular namoro com a filha mais velha do fazendeiro, que surda às recomendações paternas deixou-se enredar pelas lábias do sedutor.

Encorajado pela conquista, sem despertar suspeitas começou a cortejar a mais nova das irmãs. Sibilino, conseguiu penetrar na intimidade das jovens e por fim as infelicitou.

Como sói suceder em tais ocasiões, o sedutor fugiu à responsabilidade, consumando-se a tragédia. O despertar das moças foi terrível. Apaixonadas pelo mesmo homem, tornaram-se inimigas irreconciliáveis. A falta era irreparável.

Homem rico e influente, o pai das moças virou meio mundo a fim de castigar o crápula: que soube se resguardar, fugindo à possibilidade de um desforço pessoal.

Não resistindo à humilhação a irmã mais velha suicidou-se, lançando antes a sua maldição ao perjuro: “Gritando morrerás entre lancinantes dores e, gritando, continuarás pela Eternidade!”.

A mais jovem desapareceu e, segundo consta, entrou para um convento, no Rio de Janeiro. Desgostoso, o pai faleceu pouco depois.

Um ano após a dolorosa ocorrência, por uma tarde de maio, o sedutor, então próspero comerciante, gozando excelente saúde, foi acometido de súbito mal. Dores atrozes se apossaram do seu corpo. Com as mãos contraindo o estômago saiu a gritar pelas ruas. A correr e a gritar como um possesso possuído do demo, com a multidão no seu encalço, caiu por terra. Gritando, gritando sem cessar, foi hospitalizado. Durante a semana que ainda teve de vida gritou sem parar. A maldição descera sobre a sua cabeça. Desde então na cidade e redondezas não cessaram os gritos. Por vezes o penitente se materializava, rogando que suplicassem à vítima o seu perdão. Tarde demais, ela já estava morta.

O Monstro, como ficou conhecido o fenômeno, atormentou por muito tempo a cidade, resistindo aos exorcismos e aos esconjuros. Certa noite, manifestando-se o fenômeno no morro em que se situava a igreja, dentro de um pequeno bosque, o pároco, acolitado por um grupo de fiéis, foi até lá para aclarar o mistério. Empunhando o crucifixo, que reluzia à luz dos archotes, foi ao encontro do desconhecido. Próximos de onde os gritos retumbavam, estes explodiram num único e tenebroso clamor. Súbito golpe de vento apagou as tochas e a escuridão imperou profunda e temerosa. O brado alucinante e sobrenatural, rasgando o espaço, se foi aos poucos diluindo, à proporção que se afastava. A debandada foi geral. O piedoso pároco ainda hoje busca o crucifixo de prata.

Por muito tempo a cidade viveu sob o peso da maldição. Dizem que, lá no Além, a vítima perdoou o algoz, voltando tudo à normalidade.

O fato é verídico. Não é lenda, não é ficção. Longo processo tramitou pelos nossos Tribunais.

 

Fonte: O Espírito Santo na História, na Lenda e no Folclore, 1983
Autor: Adelpho Poli Monjardim
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2015

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