Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

O nadador de pedra – Por Maria Stella de Novaes

Guarapari, ano 1950

Muitas são as esculturas naturais que o povo, na fertilidade de sua imaginação, enaltece, no primor das lendas, enquanto os poetas as decantam, em poemas e sonetos.

Neste livro, já nos referimos A Pedra dos Ovos, a O Frade e Freira, A Pedra do Oratório e outras curiosidades rupestres dispersas no Espírito Santo. Trataremos, nestas páginas finais, de um dos atrativos turísticos, situado no rico e famoso Município de Guarapari mundialmente conhecido pelo valor de suas praias belas e saudáveis: O Nadador de Pedra. Destaca-se, num curioso recife, entre a Praia das Conchas e a Pedra Siribeira, onde se construiu um Clube social, e é bem admirado, da Praia Areia Preta.

— Conta-se que, em tempos idos, um jovem e robusto descendente dos goitacás, índios do litoral espírito-santense, ao cair da tarde, certa vez, regressava do seu labor piscatório, quando divisou, ao longe, uma sombra fugidia, — vulto misterioso, semelhança de mulher formosa, errante, sofrida, inquieta...

Logo, Pedro, o herói desta aventura lendária, bateu, mais acelerado, os remos e dirigiu sua piroga para aquele ponto, evitado sempre, em vista dos perigosos recifes, à flor-d'água.

— Seria vertigem da fadiga, após o dia laborioso?

A formosa visão, entretanto, qual Vênus marmórea, translúcida, indiferente ao vaivém das ondas e ao frio da brisa, dirigiu-se às areias negras, certa da solidão, e como disposta a mergulhar-se no azul esmeraldino das águas.

Apaixonado, incontido, já, pulsa mais forte e célere o coração de Pedro. E, na sua mentalidade primitiva, avultam todos os mitos respeitados, temidos e adorados pelos seus pajés — janaína, iara, iupiranga, sereia, mãe-d'água, mara, botos..., com todos os sinônimos e toda a confusão de seus predicados. E o caboclo treme! ... Resoluto, porém, vence as ondas, alcança a praia, contempla a Lua, — sua Jaci, invoca-lhe o poder: — que lhe mande a bênção, para que possa alcançar aquela mulher encantadora, singular, cujos passos, indeléveis na areia, pisavam seu coração apaixonado, cuja visão desaparecia, misteriosa, à distância, mas, se aprofundava em seus olhos deslumbrados!...

E, durante a noite inteira, Pedro insistiu em seguir a mulher misteriosa, na praia, nas rochas, no quebrar-se das ondas na Concha, no Siribeira, nas Virtudes, até que, ao dealbar da aurora, já envolto na sua rede, exausto da luta noturna, ainda parece que sonha. Espera a visão magnífica!... Indiferente a tudo o que o rodeia, não come, não trabalha não dorme, com o olhar perdido no horizonte, como se esperasse a volta do seu repentino Amor. Do Sonho. Da Beleza. Da Ilusão!

Louco?

Assim passa o dia. Mas, ao Ocaso, quando o mar reflete as cores do crepúsculo, Pedro recupera-se da lassidão diurna, entra na sua canoa e, indômito, rema... rema, margeando as praias, esperançoso de encontrar a mulher dos seus sonhos! E dias e luas, o pescador persevera na batida, alheio ao compromisso de amor com a doce cunha, que o estremece, e aguarda a festa nativa dos esponsais; alanceado, agora, porém, com o seu desprezo inexplicável.

E Pedro vê, novamente, o luar projetar-se na amplidão do oceano. Vê Guarapari aquietar-se, ao murmúrio das vagas, na paz noturna e dulçurosa, enquanto cintilam as estréias, reluzem os pirilampos, dormitam os pássaros e o Cruzeiro do Sul atrai-lhe o pensamento para o Infinito. Mas, no prosseguimento de sua busca, já alcançada novamente a rocha Siribeira, o pescador divisa o perfil deslumbrante.

— "Agora? Serás minha. Alcançar-te-ei. Tomar-te-ei nos meus braços!" E joga-se ao mar, na loucura de atingir as Areias Pretas.

— Não, Pedro, sussurra-lhe uma voz. Já, em Meaípe, a sereia deixou o traço Mico das suas manobras feiticeiras".

Qual! O amor é cego, perante a beleza. E ali estava um conjunto deslumbrante de forma e cor; uma figura de Milo, irisada pela projeção do plenilúnio. Jamais seus olhos, — pensou o pescador, — viram nem sua imaginação concebeu tal quadro esplendoroso. Não podia perdê-lo! E Pedro avança. Nada, vertiginoso, fascinado, certo de enlaçar nos seus braços aquela mulher incomparável. Beijá-la. Adorá-la!

Ignorava, porém, a vigilância de Jaci, a Lua, guardiã dos gênios aquáticos, à noite, quando vagueiam, livres dos aglomerados humanos. Querem a plenitude da Natureza. Por isso, numa braçada mais vigorosa e certeira, Pedro recebe um jato luminoso, fatal, que Janaína ordenara à Lua, em castigo à audácia do pescador, louco, dominado pelo prazer da aventura, que, de braço erguido, para o avanço final, se imobilizou, — petrificado. E a pedra lendária recorda aos banhistas e turistas o nadador apaixonado, preso eternamente ao poder de um dardo argentino da Lua — a Rainha da Noite.

(Lenda colhida, em Guarapari.)

 

Fonte: Lendas Capixabas, 1968
Autora: Maria Stella de Novaes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2015

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Festejos de Vila Velha - Por Edward Alcântara

Lembro da “Lapinha” de origem pernambucana, aqui introduzida nos fins do século XIX pelo Desembargador Antonio Ferreira Coelho, grande incentivador dos festejos canela verde de então

Ver Artigo
São Benedito do Divino e de Reis – Por Seu Dedê

Atualmente, em Vila Velha, Leonardo Santos (Mestre Naio) e a Mônica Dantas, conseguiram restabelecer os festejos de São Benedito

Ver Artigo
Festas Juninas – Por Seu Dedê

Vila Velha comemorava as festas de Santo Antônio, São João e São Pedro, respectivamente nos dias 13, 24 e 29 de junho

Ver Artigo
A Festa Do Divino – Por Areobaldo Lellis Horta

Foi na povoação de Jacarandá, município de Viana, hoje Jabaeté, que vi pela primeira vez uma bandeira do Divino Espírito Santo

Ver Artigo
Os Santos Populares – Por Aerobaldo Lellis Horta

Santo Antônio, São João e São Pedro foram sempre considerados santos populares

Ver Artigo