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O nadador de pedra – Por Maria Stella de Novaes

Guarapari, ano 1950

Muitas são as esculturas naturais que o povo, na fertilidade de sua imaginação, enaltece, no primor das lendas, enquanto os poetas as decantam, em poemas e sonetos.

Neste livro, já nos referimos A Pedra dos Ovos, a O Frade e Freira, A Pedra do Oratório e outras curiosidades rupestres dispersas no Espírito Santo. Trataremos, nestas páginas finais, de um dos atrativos turísticos, situado no rico e famoso Município de Guarapari mundialmente conhecido pelo valor de suas praias belas e saudáveis: O Nadador de Pedra. Destaca-se, num curioso recife, entre a Praia das Conchas e a Pedra Siribeira, onde se construiu um Clube social, e é bem admirado, da Praia Areia Preta.

— Conta-se que, em tempos idos, um jovem e robusto descendente dos goitacás, índios do litoral espírito-santense, ao cair da tarde, certa vez, regressava do seu labor piscatório, quando divisou, ao longe, uma sombra fugidia, — vulto misterioso, semelhança de mulher formosa, errante, sofrida, inquieta...

Logo, Pedro, o herói desta aventura lendária, bateu, mais acelerado, os remos e dirigiu sua piroga para aquele ponto, evitado sempre, em vista dos perigosos recifes, à flor-d'água.

— Seria vertigem da fadiga, após o dia laborioso?

A formosa visão, entretanto, qual Vênus marmórea, translúcida, indiferente ao vaivém das ondas e ao frio da brisa, dirigiu-se às areias negras, certa da solidão, e como disposta a mergulhar-se no azul esmeraldino das águas.

Apaixonado, incontido, já, pulsa mais forte e célere o coração de Pedro. E, na sua mentalidade primitiva, avultam todos os mitos respeitados, temidos e adorados pelos seus pajés — janaína, iara, iupiranga, sereia, mãe-d'água, mara, botos..., com todos os sinônimos e toda a confusão de seus predicados. E o caboclo treme! ... Resoluto, porém, vence as ondas, alcança a praia, contempla a Lua, — sua Jaci, invoca-lhe o poder: — que lhe mande a bênção, para que possa alcançar aquela mulher encantadora, singular, cujos passos, indeléveis na areia, pisavam seu coração apaixonado, cuja visão desaparecia, misteriosa, à distância, mas, se aprofundava em seus olhos deslumbrados!...

E, durante a noite inteira, Pedro insistiu em seguir a mulher misteriosa, na praia, nas rochas, no quebrar-se das ondas na Concha, no Siribeira, nas Virtudes, até que, ao dealbar da aurora, já envolto na sua rede, exausto da luta noturna, ainda parece que sonha. Espera a visão magnífica!... Indiferente a tudo o que o rodeia, não come, não trabalha não dorme, com o olhar perdido no horizonte, como se esperasse a volta do seu repentino Amor. Do Sonho. Da Beleza. Da Ilusão!

Louco?

Assim passa o dia. Mas, ao Ocaso, quando o mar reflete as cores do crepúsculo, Pedro recupera-se da lassidão diurna, entra na sua canoa e, indômito, rema... rema, margeando as praias, esperançoso de encontrar a mulher dos seus sonhos! E dias e luas, o pescador persevera na batida, alheio ao compromisso de amor com a doce cunha, que o estremece, e aguarda a festa nativa dos esponsais; alanceado, agora, porém, com o seu desprezo inexplicável.

E Pedro vê, novamente, o luar projetar-se na amplidão do oceano. Vê Guarapari aquietar-se, ao murmúrio das vagas, na paz noturna e dulçurosa, enquanto cintilam as estréias, reluzem os pirilampos, dormitam os pássaros e o Cruzeiro do Sul atrai-lhe o pensamento para o Infinito. Mas, no prosseguimento de sua busca, já alcançada novamente a rocha Siribeira, o pescador divisa o perfil deslumbrante.

— "Agora? Serás minha. Alcançar-te-ei. Tomar-te-ei nos meus braços!" E joga-se ao mar, na loucura de atingir as Areias Pretas.

— Não, Pedro, sussurra-lhe uma voz. Já, em Meaípe, a sereia deixou o traço Mico das suas manobras feiticeiras".

Qual! O amor é cego, perante a beleza. E ali estava um conjunto deslumbrante de forma e cor; uma figura de Milo, irisada pela projeção do plenilúnio. Jamais seus olhos, — pensou o pescador, — viram nem sua imaginação concebeu tal quadro esplendoroso. Não podia perdê-lo! E Pedro avança. Nada, vertiginoso, fascinado, certo de enlaçar nos seus braços aquela mulher incomparável. Beijá-la. Adorá-la!

Ignorava, porém, a vigilância de Jaci, a Lua, guardiã dos gênios aquáticos, à noite, quando vagueiam, livres dos aglomerados humanos. Querem a plenitude da Natureza. Por isso, numa braçada mais vigorosa e certeira, Pedro recebe um jato luminoso, fatal, que Janaína ordenara à Lua, em castigo à audácia do pescador, louco, dominado pelo prazer da aventura, que, de braço erguido, para o avanço final, se imobilizou, — petrificado. E a pedra lendária recorda aos banhistas e turistas o nadador apaixonado, preso eternamente ao poder de um dardo argentino da Lua — a Rainha da Noite.

(Lenda colhida, em Guarapari.)

 

Fonte: Lendas Capixabas, 1968
Autora: Maria Stella de Novaes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2015

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