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O primeiro a gente nunca esquece – Por José Carlos Corrêa

Sob as ordens de Chiquinho

Quando entrei para O DIÁRIO, em 1965, tudo me pareceu fantástico. Afinal, eu nunca havia entrado num jornal antes. Até então, só havia escrito alguns artigos, aproveitados pelo jornal da minha terra, Aimorés, e na minha escola, o Colégio Estadual. Esses textos eram levados para uma gráfica desconhecida, longe de meus olhos, e muito tempo depois é que o jornal circulava.

Jornal, jornal mesmo, que circulava todo dia e era impresso ali pertinho da gente, o primeiro foi O DIÁRIO.

Tinha 17 anos e estava ali indicado pelo Edgar Cabidelli para substituí-lo como redator da coluna estudantil. No meu deslumbramento de estudante, não percebia como as coisas eram simples. Eram quatro as máquinas de datilografia na pequena redação e três delas estavam quase permanentemente ocupadas. Uma com o Paulo Maia, que era o subsecretário. Outra com o Dalton Martins da Costa, o secretário, que passava as tardes na Câmara Municipal de Vitória se esquivando dos perdigotos lançados na bancada de imprensa pelo aguerrido vereador Marinho Delmaestro, e só mais tarde aparecia para fazer as notícias de lá. A terceira era privativa do Esdras Leonor, o colunista social, que ocupava quase uma página inteira do jornal. Na outra sala, "da diretoria", a porta só se abria no fim da tarde quando chegavam o Plínio Marchini, o Cacau Monjardim e os irmãos Setembrino e Everaldo Pelissari. Eram todos ligados ao governador Chiquinho, proprietário do jornal, e que vivia momentos difíceis pois estava sendo acusado pela Revolução de 64 e por seus adversários políticos de toda sorte de corrupção. Eu fazia o meu Diário Estudantil e achava enormes as oficinas, onde estavam duas linotipos habilmente manejadas pelo Alemão e pelo Bissinga. No alto, os dizeres: "O trabalho afasta o vício, o tédio e a necessidade". A impressora, pequena, me parecia imensa. Na área comercial e administrativa, quem comandava era Fernando Jakes, o Jakaré, e quem tomava conta do dinheiro era o Everaldo Nascimento.

Em frente à tesouraria (nome pomposo para a sala do Everaldo) havia uma escada que dava para um lugar onde, de vez em quando, funcionava uma clicheria. Quando isso acontecia, havia chance de ser feito um clichê novo, pelo menos um por dia, que se juntaria aos antigos que eram repetidos à exaustão. Lembro especialmente de um, do deputado Antônio José Miguel Feu Rosa, hoje desembargador, e que era insistentemente repetido, pois era amigo do governador.

O ponto forte do jornal era a briga política entre Chiquinho e o PSD de Carlos Lindenberg e, por conseqüência, entre O DIÁRIO e A Gazeta. Os editoriais eram quentíssimos e quem os escrevia eram, geralmente, o Plínio, o Everaldo e o Setembrino. A Gazeta era chamada de "a respeitosa da General Osório", numa alusão às casas de tolerância que também funcionavam na mesma rua. A guerra só terminou mesmo quando, vencido, Chiquinho renunciou ao mandato e se retirou da vida política.

A edição era feita de forma artesanal. Eu fazia minha coluna e entregava ao Dalton. Esdras chegava à tarde e fazia a dele. Havia ainda o Enéas Silva, que fazia a página de esportes. No final da tarde, chegava um pacote de notas datilografadas com curtas notícias nacionais e internacionais que o Walter telegrafista mandava entregar. O miolo do jornal era completado com "calhaus", assim chamados aqueles boletins que chegavam pelo correio, geralmente distribuídos por embaixadas e cuja reprodução era livre. Cacau Monjardim escrevia uma coluna de negócios, a Poltrona B. E a primeira página era a última a ser escrita, geralmente pelo Everaldo, Plínio e pelo Cacau. Quase sempre se restringia aos assuntos de interesse do governador. Os clichês eram escolhidos na hora e quem fazia a escolha tinha que sujar as mãos procurando um. Não sei se é verdade, mas corria o folclore de que um dia, sem outra maneira para ilustrar determinada matéria, alguém publicou o clichê do Duque de Caxias, com a seguinte legenda: "Duque de Caxias, que dá o nome à rua onde aconteceu o crime de ontem". Mesmo que não seja verdade, as coisas aconteciam assim mesmo, muito na base da improvisação.

Lembro que todos do jornal riam muito de casos acontecidos pouco tempo antes, quando era redator o Carlos Alberto Castelani Nunes, o Boião. O Boião cobria a parte policial e, como nada de importante acontecia na cidade, ele era mestre em criar notícias. Ele, por exemplo, saía à noite jogando pedras nos telhados das casas e no dia seguinte sapecava a manchete: "Desocupado perturba sono dos moradores". Era atribuída ao Boião, também, uma grande cascata sobre "o Fantasma da Manteigueira" - uma suposta aparição que assombrava uma construção antiga, existente em Paul, que tinha a forma de uma manteigueira.

Esdras Leonor, na sua coluna, fazia a cobertura dos eventos sociais.

Colocava sempre uma interminável lista de presenças nas festas. E abria a sua coluna com uma espécie de crônica falando dissimuladamente de seus amores. Durante longo tempo, por exemplo, proclamou seu amor por Capitu, personagem de Machado de Assis. Todos diziam que, na verdade, Capitu era alguém que morava perto do jornal, para quem Esdras dedicava demorados olhares. Como coluna social era a coqueluche do momento, havia outra, do Ronaldo Nascimento, só para os jovens. Um belo dia, por proposta do Dalton, O DIÁRIO resolveu me contratar como repórter. Sem carteira assinada, é bom lembrar. Ganhava um pouco do jornal e um pouco da Câmara de Vila Velha, indicado pelo jornal para compor o Comitê de Imprensa. Repórter único e solitário, cobria o que aparecesse. Mas a falta de estrutura era tanta que cada vez mais fui sendo absorvido no trabalho da redação até virar secretário ao lado do Dalton.

A estrutura era das mais precárias. O pagamento estava sempre atrasado, as carteiras de trabalho não eram assinadas, faltava material, um horror. Perspectivas de melhoria não existiam. O dinheiro que entrava, ninguém via. Aliás, porque não tive minha carteira assinada mesmo após três anos, deixei O DIÁRIO por A Gazeta em 1968.

Mesmo assim, o jornal teve alguns lances de pioneirismo para a época. Como secretário de redação, por exemplo, consegui convencer a direção a autorizar um concurso para seleção de repórteres. Publicamos um anúncio, aplicamos os testes, e contratamos alguns focas, entre os quais Rubinho Gomes e Antonio Alaerte. Fizemos circular com regularidade um segundo caderno e o Caderno Imobiliário, este último uma invenção do Edgard dos Anjos quando ele assumiu a direção comercial ao lado do Jacaré. Marien Calixte passou também uma temporada por lá, escrevendo a coluna Pedra 90 e sucedendo ao Esdras na direção. Os focas que lá deixei, quando me transferi para A Gazeta, foram os mesmos que sustentaram, por um bom tempo, uma ampla cobertura dos crimes do Esquadrão da Morte que fez O DIÁRIO viver, talvez, a melhor fase da sua existência. Foi quando, após a renúncia do governador, o jornal procurou se estruturar em bases mais empresariais, tentativa que se frustou alguns anos depois.

nA Gazeta, só pude acompanhar a trajetória de O DIÁRIO de longe. Depois de 1973, formado em engenharia, me afastei também dA Gazeta, para onde só retornei em 1985. Aí, então, O DIÁRIO era só uma lembrança saudosa guardada com carinho num ponto qualquer do meu coração.

 

Fonte: ESCRITOS DE VITÓRIA — Bares, Botequins etc... – Volume 8 – Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES.
Prefeito Municipal - Paulo Hartung
Secretário Municipal de Cultura, Esporte e Turismo - Jorge Alencar
Coordenadora do Projeto – Miriam Santos Cardoso
Conselho Editorial – Joca Simonetti, Pedro J. Nunes, Sérgio Blank
Assessoria Técnica – Biblioteca Municipal de Vitória
Revisão – Reinaldo Santos Neves, Enyldo Carvalinho Filho
Capa – Wagner Veiga, acervo do artista
Editoração Eletrônica - Edson Maltez Heringer
Impressão - Gráfica e ITA
Autor do texto: José Carlos Corrêa
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2018

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