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O quilômetro 2 – Por Adelpho Monjardim

Jaqueira

Não faz muito tempo, São Mateus ligava-se a Nova Venécia por estrada de ferro. Pequena e deficitária, silenciosamente desapareceu como surgira.

Entre a gente da ferrovia grande era a animação, contrastando com a realidade das coisas. Um pouco afastada da cidade, a companhia montara as oficinas, as casas para os empregados e o campo de futebol. Ali a rapaziada se divertia, mesmo porque ia à cidade só aos domingos e feriados. Não porque a cidade fosse longe. Havia, porém, um motivo. Nos dias comuns a saída só depois do serviço, quando a volta só poderia ser feita tarde da noite. E quem ousaria, depois das vinte e três horas, passar pela Volta da Jaqueira, no Km 2? Há tempos tombara ali uma composição da estrada, quando muitos pereceram. Desde então a Volta ficou mal-assombrada. As almas das vítimas costumavam ali se reunir num autêntico sabá.

Um dia chegou a São Mateus um jovem pernambucano, da terra de gente valente. Dizia-se bom de bola, centroavante que fora do Náutico. Mal a notícia se espalhou e a rapaziada do clube chamou-o para o seu time.

Homem benévolo e cordial, o superintendente ordenou que o alojassem em uma das casas da companhia, junto ao rio, onde o craque poderia também se exercitar no salutar esporte náutico.

Bom jogador e melhor farrista, o arrojado pernambucano certa tarde, após os treinos, foi à cidade. O que foi fazer não se sabe, mas é certo que esqueceu a hora de voltar. Quando deu fé passava das fatídicas vinte e três horas. Terrível para quem precisava passar pela Volta da Jaqueira. Frio mortal percorreu pela espinha do bravo. Ficar na cidade, impossível. Precisava estar na companhia e o trabalho começava cedo. Depois ficar era dar prova de medo, o que estragaria o seu cartaz, ele que dizia não acreditar em fantasmas e outras frioleiras. De modo algum deslustraria a sua fama de valente.

José, como era conhecido, lembrou-se que para prevenir assombrações era bom atravessar uma arma branca na boca, pois as avantesmas tinham horror ao aço. Por felicidade ele portava a “peixeira” longa de dois palmos, da qual não se desligava nunca.

Embora estrelada, aquela era uma noite escura. O céu parecia mais profundo para as bandas do sul e o vento soprava forte e frio. Ao deixar para trás as últimas casas da Cidade, face a face com o deserto, com a longa e escura estrada que parecia não ter fim, o bravo sentiu o coração desfalecer. Ele cortava extenso trato de cerrada mata. Sacudidas pelo vento as ramas sussurravam lugubremente. Tudo capaz de quebrar o ânimo mais forte. Persignando-se, levantou a gola do paletó, desceu o chapéu sobre os olhos e estugou o passo. Antenas sensíveis, os ouvidos captavam os mínimos ruídos. De quando em quando o pio agoureiro da coruja.

O Km 2 se aproximava e com ele a funesta lembrança da jaqueira. Alagado em suor, sentia que nele se afogava a sua coragem. Finalmente a Volta da Jaqueira, o Km 2! De longe avistava a robusta e copada representante das moráceas, cuja fronde escura parecia absorver todo o negror da noite. Era ali, sob aquelas ramadas, que as almas se reuniam para tentar os vivos. As vítimas do Km 2!

Pegando-se com São Jorge, peixeira atravessada na boca, o pernambucano José, centroavante do Ferro-Carril, estugou o passo e exigiu das gâmbias o máximo, como exigiam as circunstâncias.

Já nas proximidades da jaqueira, cujo tronco não cedia em pujança ao baobá, a coruja soltou brusca e estridente gargalhada. De susto o coração quase que se lhe escapou pela boca. Os dentes apertaram o aço da “peixeira” e o gosto de sangue lhe aflorou à boca. Maldizendo a estúpida e imprudente aventura, ia avançando, quando pavoroso estrondo o imobilizou. Estrondo como se duas composições se tivessem chocado. Logo após gritos de terror e de morte. Ante as dilatadas e assombradas pupilas do bravo, sob a ramagem da jaqueira surgiu branca farândula de espectros, como se ali fora uma assembléia de bruxas. Embuçados em níveas roupagens, frenéticos, agitados, soltavam gritos e gemidos aterrorizantes aos ouvidos humanos.

Ante a súbita revelação que evidenciava o sobrenatural, o centroavante do Ferro-Carril não se pejou da fraqueza natural da matéria contingente, e abalou-se em correria louca como Heitor ao dar as três voltas em torno de Tróia. Varando a noite, conduzido nas asas do medo, mentalmente dizia: Enquanto corro minha mãe tem filho! Espavorido, de tal modo correu que ultrapassou a própria residência. Extenuado fora cair muito além, onde foram encontrá-lo ardendo em febre.

 

Fonte: O Espírito Santo na História, na Lenda e no Folclore, 1983
Autor: Adelpho Poli Monjardim
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2015

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