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O Rio Doce, O posto de comboios, A aldeia indígena de Piriquiaçu – Por Saint-Hilaire

índio Botocudo

Parti de Linhares, numa canoa, pertencente a João Felipe. O tempo não estava nublado como no dia em que subi o rio, e eu gozava saúde perfeita; o aspecto da região me agradou muito mais. Não há lugar que deixe de receber algum encanto de um céu sereno e as coisas não nos apresentam os mesmos aspectos quando gozamos perfeita saúde e quando estamos fatigados ou sofremos. Ninguém precisa, pois, admirar-se quando ocorre que os viajantes não descrevam sempre os mesmos lugares da mesma maneira. Detivemo-nos ainda um instante na casa de Antônio Martins. Não foi sem real sentimento de pena que me despedi desse homem respeitável. Distante de todas as criaturas, sem vizinhanças, sem sociedade, sob um teto coberto de palha, privado de todas as comodidades da vida, Martins passava dias felizes no seio de sua família. "Eu não trocaria pelos tesouros de meu Rei as consolações que isto me oferece", exclamava ele mostrando-me seu pequeno oratório; e por certo era dizer muito, pois nessa época os brasileiros que viviam afastados das cidades tinham bem majestosa idéia do seu soberano e de suas riquezas.

A solidão embrutece mais ainda o indivíduo já corrompido, disto os sertões do Brasil dão muitos exemplos; entretanto, ela acaba por aprimorar aqueles que já possuem algumas virtudes; na carência de motivos, suas paixões se extinguem; nada tendo a esperar dos homens, elevam seus pensamentos para a fonte de todo o bem e se esforçam por tornar-se suavemente melhores, dia a dia. Nunca pensarei sem saudade no bom Antônio Martins e naquele respeitável colono que me recebeu com tanta hospitalidade nas margens do São Francisco e mostrava tanta resignação em meio a suas desventuras. Antônio Martins, que tinha 60 anos, contou-me que no tempo do seu avô haviam aparecido nas margens do Rio Doce algumas tribos de índios que se haviam mostrado amigas dos portugueses, deixando ao mesmo tempo perceber um ódio implacável aos índios civilizados, que chamavam tupis.

Os Macunis pretenderam atacar estes últimos, mas logo se retiraram por saber que seus inimigos teriam o apoio dos portugueses.

É difícil não ser verdadeiro este fato, pois, onde o bom Martins, que não sabia geografia nem história, iria achar os nomes tupis e macunis? A narrativa deste colono tendia a provar, assim me parece, que a palavra tupi era, como me havia dito o velho índio da Vila de Almeida, uma alcunha injuriosa, imaginada pelas tribos do interior para ridicularizar os índios da costa. A uns tiros de espingarda da casa de Antônio Martins, nas matas virgens, começa um lago que se chama Juparanã, mas que se não deve confundir com o grande lago de Juparanã vizinho de Linhares. Bem diferente deste, o primeiro tem água suja e lodosa, onde proliferam mosquitos.

No tempo das águas, esse lago transborda e vai desaguar no mar, no lugar chamado Barra Seca. Aí há um posto militar e mais longe começa o Arcebispado da Bahia. Não é só a Diocese do Rio de Janeiro que finda em Barra Seca; lá também acaba a jurisdição administrativa do Espírito Santo.

Durante todo o tempo em que descemos o rio, Firmiano teve febre e logo que cheguei ao Posto de Regência soube que Manuel da Costa havia sofrido dois ou três acessos dessa doença. No dia seguinte, o botocudo passou muito pior e esteve continuamente prostrado. Minha posição tornava-se embaraçosa. Prégent havia perdido irremediavelmente a saúde. O pedestre Luís, que me servia de guia, era corajoso e prestativo, mas, depois de ter adoecido, experimentou sucessivas recaídas; enfim, os únicos indivíduos de minha expedição, que desfrutaram de boa saúde durante toda a minha viagem estavam agora piores que os outros dois. É claro que eu não podia afastar-me do Rio Doce e, sob as mesmas influências que minha gente, corria os mesmos riscos de ser, como eles, atingido pela febre. Por outro lado, minhas provisões estavam quase esgotadas e eu não tinha meio algum de renová-las, pois que eram necessários, pelo menos, três dias para fazer a viagem a Linhares e os soldados do posto não podiam estar continuamente a meu dispor. Essas pobres criaturas eram tão boas que teriam de bom grado partilhado tudo que possuíssem, mas também lhes faltava quase o necessário. Sua fisionomia amarelada e anêmica atestava a insalubridade do local que habitavam e talvez, mais ainda, a insuficiência de sua alimentação habitual. Viviam, efetivamente, apenas, de farinha de mandioca, que iam buscar na casa de Antônio Martins, além do produto muito casual da caça e da pesca, principalmente de lagarto, tatus e ovos de tartaruga. Vi-me forçado a reduzir nossa ração de feijão e toucinho e, aproveitando a boa vontade dos pedestres do posto, comecei a ter parte com eles nos fracos resultados de sua caça. No primeiro dia mataram um desses grandes tatus que na região se chamam tatuaçu, (Dasypus gigas Cuv.). Mas foi-nos impossível suportar a carne, por causa do cheiro almiscarado extremamente forte que a impregnava. Durante dois dias tive apenas uma ração insignificante de feijão e um pouco de verdadeiro tatu, embora com sabor detestável; em seguida fui mais feliz, pois comi um pedaço de cotia que os pedestres haviam apanhado no mundéu e cuja carne me pareceu semelhante à dos nossos coelhos. Resolvi fazer com que cada um dos meus doentes tomasse um vomitório. Imediatamente a febre deixou Manuel da Costa; mas Firmiano não teve a mesma felicidade. Como, entretanto, ele ainda tivesse força para manter-se a cavalo, tomei a decisão de abandonar a embocadura do Rio Doce para voltar à Vila da Vitória, esperando que melhor água e mudança de ares produziriam em meus doentes um efeito mais salutar do que todos os remédios. Mas foi absolutamente impossível percorrermos em um só dia a longa distância que separa o Rio Doce do posto do Riacho. Tomei, assim, a resolução de ir dormir no quartel de Comboios (posto de condução), situado na mata, a certa distância do mar. Depois de ter percorrido três léguas de uma praia abandonada, que já descrevi, cheguei a um grande cruzeiro, perto do qual começa o caminho que vai a Comboio. A trilha é tão pouco freqüentada que foi mister, em certo lugar, empregar o machado para abrir uma passagem. Afinal, depois de haver marchado meia-légua na floresta, chegamos a Comboio. Aí apenas vi uma choupana, situada à margem esquerda de um córrego de medíocre largura, que serpeia, agradavelmente, entre duas margens lodosas, orladas de matas virgens. O Rio dos Comboios, como se chama esse córrego, nasce a pouca distância do posto e se lança acima da povoação dos Campos do Riacho. O único caminho que segue diretamente da praia ao quartel é o que percorri; mas, atravessando o córrego, encontra-se outro, que leva à povoação de que há pouco falei. Todavia, esse posto é distante de todas as habitações e os botocudos nunca aparecem nas suas proximidades; sua utilidade é apenas para os viajantes que não fazem em uma só etapa o caminho de Riacho a Regência, e apenas tem a serviço dois homens; um era um negro livre e o outro um mulato, casados cada qual com uma indígena. Essa boa gente, que vivia separada do mundo, recebeu-me muito bem e prestou-me inúmeros favores.

Eis a história do quartel de Comboios:

Há cerca de cinqüenta anos (escrito em 1818) um homem perseguido pela justiça foi estabelecer-se nas margens do Rio Doce, no local onde fica hoje o Quartel de Regência, e ali fez uma plantação bem considerável. Esse homem havia imaginado transportar em carro de boi, até ao Rio dos Comboios, as mercadorias que queria vender, para de lá embarcá-las em canoas e fazê-las descer, em seguida, até a povoação de Riacho. No lugar onde se descarregavam os carros, construiu uma cabana, a que deu o nome de Comboio, o que indica bastante sua utilidade; e aí é hoje o quartel. Esse mesmo homem, logo que chegou ao Rio Doce, foi acolhido amigavelmente pelos botocudos e durante muito tempo viveu amistosamente com eles. Contudo, um dos chefes indígenas enamorou-se da filha do português e pediu-a em casamento ao pai. Este adiou a solução, mas como o índio renovasse suas importunações sem cessar, o branco imaginou, para desembaraçar-se dele e dos homens de sua tribo, presenteá-los com bugigangas infetadas de vírus variólico. Muitos botocudos foram vítimas dessa horrenda perfídia; os outros, suspeitando da verdade, destruíram a casa do branco e uma capela que dela dependia; e depois dessa época os portugueses do Rio Doce têm sempre estado em guerra com os selvagens. A cabana de Comboios foi abandonada; mas, logo em seguida, sob o Governador Pontes, instalaram-se diversos postos para proteção dos caminhos e das casas expostas aos ataques dos botocudos; dessa cabana fez-se uma pequena caserna.

As florestas que a cercam, pouco freqüentadas pelos caçadores, eram muito fartas em caça. Prégent, que fora caçar, voltou pouco tempo depois com um pecari, um grande lagarto e muitas aves, entre as quais um galináceo bom para comer.

Na viagem de Regência a Comboios, Firmiano, apesar de montado, tinha dormido sempre. Chegou ainda muito doente, mas, para a noite, a febre declinou e ele ficou completamente bom.

Chegando a Aldeia Velha, fiquei ali um dia para visitar a Aldeia de Piriquiaçu. O Capitão Manuel Francisco Guimarães, de quem já falei, deu-me uma canoa e dois índios para a conduzirem. Esperamos a maré cheia e eram onze horas quando embarquei. Antes de partir, meus índios me pediram algum dinheiro para beber e fui muito generoso, pois, ao embarcarmos, um deles se achava de tal modo embriagado que era incapaz de suster o remo. Felizmente eu havia trazido meu camarada Luís; sem ele teria passado os maiores embaraços. Como disse, a ribeira de Aldeia Velha pode ter na sua foz a mesma largura, talvez, que o Sena na Ponte Nova. Até a Aldeia de Piriquiaçu, e talvez mais longe, a maré se faz sentir e, nesse trecho, as águas do rio são salgadas como as do oceano. Até a foz, a margem sul, muito alta, apresenta um anfiteatro de árvores que se diferenciam entre si pelo tamanho e folhagem. Do lado norte, ao contrário, o terreno é baixo, coberto de mangues, bem como de outras árvores amigas dos alagados vizinhos do oceano. Perto de um quarto de légua da Aldeia Velha, passei diante da confluência do córrego que vem do sul e continuei a viagem pelo outro braço. Pouco acima desse lugar e até a Aldeia de Piriquiaçu, as duas margens do córrego são igualmente planas e também inundadas por ocasião das marés, e cobrem-se de manguezais extensos e outras árvores de pauis salgados. Nos locais em que essa vegetação deixa entre si espaços a descoberto, os índios têm o costume de fazer armadilhas com folhas de palmeiras, onde o peixe entra quando a maré sobe, para apanhá-lo sem trabalho ao descer as águas.

Atrás dos manguezais o terreno se alteia sensivelmente. Continuando minha viagem, ouvi a distância barulho de tambor e logo encontramos uma canoa cheia de índios, rebocando outra que se inaugurava. Por ocasião desse acontecimento, celebrava-se uma festa. No centro da canoa nova havia-se erguido uma cruz, mas só estavam ali duas pessoas. A outra canoa, ao contrário, estava cheia de índios, homens e mulheres que, apinhados, gritavam e cantavam, acompanhados por uma flauta e um tambor.

Cerca de légua e meia ou duas léguas de Aldeia Velha, chegamos às ostreiras de que já falei; são colinas que se elevam nas duas margens do rio e se compõem quase por inteiro de conchas, apenas misturadas com uma e outra espécie de conchas bivalvas. Estas ostreiras estão abandonadas e qualquer um pode buscar nelas a quantidade de material de que precisar para fazer cal. Outrora, construíram fornos junto das caieiras; mas, como aparecessem botocudos na vizinhança, transportaram-se (1818) as conchas para a Aldeia Velha e ali se faz a cal, que é como já disse, importante ramo de comércio para essa vila.

Navegando sempre, percebi, para oeste, as montanhas ainda desabitadas de Taquatiba que, sem dúvida, se prendem à grande Cadeia Marítima. No lugar chamado Lameirão, vi a ribeira alargar-se e formar uma espécie de lago. Por fim, às 4 horas mais ou menos, cheguei à Aldeia de Piriquiaçu. Há pelo menos 40 anos (1818), essa vila ainda não existia. Os índios tinham, na verdade, moradas nas margens do córrego, mas eram distanciadas umas das outras. Os botocudos fizeram uma excursão na região e, aproveitando-se do isolamento dos colonos, destruíram muitas plantações e mataram muitos indivíduos. Para evitar a repetição de tamanha desgraça, Bom Jardim, que então era Capitão-mor da Província do Espírito Santo, ordenou que os índios espalhados se reunissem no lugar em que hoje está a Aldeia de Piriquiaçu e ali construíssem casas. Deu-lhes um capitão de sua raça; e como houvessem estado afastados da população de Vila de Almeida e de Aldeia Velha, determinou que deveriam viver como os soldados, atendendo às ordens que lhes fossem dadas; e a Aldeia tomou, então, o nome de Destacamento que até hoje conserva. Destacamento, ou Piriquiaçu, situa-se no alto de uma colina alongada que domina o córrego. Vêem-se na margem oposta outras colinas cobertas de matas. A oeste avistam-se as montanhas de Taquatiba, das quais falei há pouco, e a noroeste as de Aracantiba. Para o norte, acima do aldeamento, encontra-se profundo vale, cujas encostas são cultivadas pelos habitantes de Piriquiaçu. Além da aldeia, para o lado do oeste, apenas existem florestas que servem de abrigo aos botocudos e nas quais os luso-brasileiros não ousam penetrar. As casas de que se compõe Piriquiaçu, ou Destacamento, são em número de sessenta e três. Muito perto umas das outras, cercam uma praça que tem o aspecto de um retângulo. Todas são construídas de paus e barro, não são caiadas e têm uma cobertura de palha que, como a de todas as cabanas deste país é mais alta do que as paredes. Muito mal tratadas, essas casas denunciam indigência e seu interior é também pobre. Não existem outros móveis além de uma rede, um banquinho e uns potes de barro. Os habitantes de Destaca-mento, todos índios civilizados, não mostram, em suas roupas, magnificência maior que em suas casas. Os andrajos que os cobrem são apropriados, mas quase sempre em farrapos. Uma camisa e uma saia constituem toda a vestimenta das mulheres; os homens usam calça e camisa e, quando trabalham, suprimem às vezes esta última. Alguns deles trazem uma veste de lã escura e um boné vermelho. Se os habitantes de Piriquiaçu são tão pobres, é preciso apenas culpar disto a preguiça e o relaxamento natural aos de sua raça. Suas terras, em verdade, são pouco adequadas ao algodão; mas são muito favoráveis à cultura da mandioca; é na vizinhança das suas florestas que exploram as terras; e exportariam sem dificuldade os produtos do solo, porque a entrada do Rio da Aldeia Velha não apresenta qualquer entrave; as embarcações sobem quase até a Aldeia.

A pobreza dos cultivadores de Piriquiaçu não tem sido prejudicial à população do lugar. O chefe dos índios me assegurou mesmo que, desde a fundação da aldeia, o número de habitantes tem aumentado consideravelmente.

Os índios de Piriquiaçu estavam subordinados, como os de Benevente e de Almeida, ao desagradável chamamento de trabalho que lhes fazia mensalmente o Governador da Província; mas, não havendo entre eles nenhum branco, tinham pelo menos a sorte de fugir a uma série de pequenas humilhações. Encontrei neles o jeito de contentamento que é tão natural entre os primitivos a quem o dia de amanhã não preocupa.

Esta pobre gente acusava os subalternos das injustiças de que era vítima e falava sempre do Rei de maneira mais comovente. "O Rei, diziam, quer que todos os homens sejam tratados igualmente; se ele soubesse do que se passa aqui, não o permitiria; mas nós não somos ricos para ir ao Rio de Janeiro e nossas queixas não chegariam até ele."

Os portugueses, tornando estes desgraçados quase escravos, não lhes davam qualquer compensação. Ninguém pensa em lhes ministrar a menor instrução; não havia entre eles padre nem professor; para se casarem era preciso que fizessem uma viagem de 2 dias e os doentes morriam privados do consolo que a religião concede a seus filhos. Os índios de Piriquiaçu conservam, entretanto, uma tradição confusa das verdades fundamentais do cristianismo; mas a veneração que têm por certos bem aventurados é idêntica à que têm pelo próprio Deus, mesmo acontecendo entre grande número de luso-brasileiros, cuja crença é bem semelhante à dos índios de Piriquiaçu.

No dia seguinte àquele em que visitei a aldeia, devia celebrar-se a festa de Todos os Santos, e todos os habitantes haviam preparado cauim, ou cauaba, bebida inebriante que se faz com raízes de mandioca. Cozinham-se raízes raspadas que depois se reduzem a pasta, misturando-se nesta, certa quantidade de água, e no dia seguinte pode-se beber o cauim. Tais são, pelo menos, os processos que os indígenas ensinavam; mas os portugueses garantem que os indígenas mastigam a raiz, em vez de socá-la; o padre da Vila de Almeida parecia ser um homem verídico e me assegurou que muitas vezes encontrou indígenas sentados em roda de um grande vaso, ocupados em preparar, juntos, o licor favorito, ajudando-se com os dentes.

Seja lá como for, eu quis ver e provar o cauim. Notei-lhe uma cor turva e esbranquiçada do leite desnatado e um gosto de soro, porém bem mais ácido.

Embarquei com a maré alta, para voltar à Aldeia Velha. A noite logo nos surpreendeu, mas o tempo estava tranqüilo, fazia luar e não havia dificuldade em nos conduzir. A água brilhava como a do mar, com luz fosforescente, cada vez que a feriam nossos remos; ouvimos de um lado o estrondo dos tiros de Piriquiaçu, para a festa do dia seguinte e, do outro, os gritos alegres dos índios que continuavam a festejar o lançamento a água de uma canoa nova.

No dia de Todos os Santos cheguei à Vila de Almeida, onde se reunira numeroso bando de índios. Com minhas roupas, despertei novamente sua curiosidade; mas era sobretudo Firmiano quem chamava a atenção.

Cada qual queria ver o tapuio; vinham contemplá-lo como se examinassem um animal feroz que, por fim, tivesse encontrado um amo, depois de muita luta, e não ocultavam mesmo o ódio e o desprezo que nesta região a sua raça inspirava. Aborreceu-me tanta importunação e acabei, sem paciência, pondo-os porta a fora. Os pobres índios são tão humildes e dóceis que nenhum deles se permitiu uma brincadeira ou um murmúrio.

Numerosas crianças indígenas brincavam na Vila de Almeida, com muita diferença das crianças luso-brasileiras, desta e de outras províncias: saltavam e riam, de todo o coração. Notei, ao mesmo tempo, que nos movimentos destes pequenos indígenas havia alguma coisa de brusco que nas crianças de outra raça não se observa.

A festa de Todos os Santos não foi um dia feliz para os índios da vizinhança. Os soldados da companhia de linha tinham vindo buscar 20 homens, que deviam partir no dia seguinte para a Vila de Viana ou S. Agostinho e tomar o lugar dos outros 20 cujo mês de trabalho havia terminado. Os capitães indígenas eram os encarregados de designar as vítimas da penosa tarefa; à medida que chegavam a Almeida, eram trancados na cadeia, por temor de que cedessem à sua natural inconstância e, depois de terem obedecido às ordens de seus superiores, tentassem fugir; o contingente de trabalhadores não devia partir no dia de Todos os Santos e esperava na prisão o instante da partida. Mulheres e crianças em magote se agarravam às janelas da cadeia, mas não pensavam em se afligir. Os prisioneiros e seus amigos riam, cantavam e tinham exclamações de alegria. Sem pensar no futuro, não havia para eles motivo de desolação — estavam juntos ainda!

E em verdade os infelizes requisitados iam deixar mulher e filhos sem recursos e perdiam o momento oportuno para fazer suas plantações, única esperança de suas famílias.

 

Fonte: Viagem ao Espírito Santo e Rio Doce ano 1974
Autor: Auguste de Saint-Hilaire
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2015

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