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O Roubo de 1925 ao Convento da Penha - Por Norbertino Bahiense

Nossa Senhora da Penha

A 4 de outubro de 1925, foi o Convento assaltado e roubado. Mãos criminosas levaram o manto, a coroa e as jóias da imagem de Nossa Senhora da Penha.

A coroa roubada era de incalculável riqueza e foi dada à santa pelo condestável Torquato de Araújo Malta em troca da de prata que veio com a imagem da Europa, coroa esta que se acha hoje no museu particular do Dr. Olinto Aguirre.

O roubo de 1925, a despeito dos esforços da polícia e sob a direção do Delegado Geral Dr. Fernando Rabelo, permaneceu no mais inexplicável mistério, não se descobrindo os seus autores, nem o retorno dos vultosos valores ao Convento.

Para que conseguisse precisar a sua data, estive diversas vezes na polícia procurando o processo, queixa, registros ou qualquer pista onde pudesse me orientar. Nada foi encontrado. Recorri à Biblioteca Estadual e lá também não encontrei a coleção do "Diário da Manhã" do segundo semestre de 1925. apesar de encontrar as demais.

Não desanimei e fui ao próprio Convento da Penha e ao Bispado. Não obtive ainda a data procurada, nem qualquer elemento escrito, apesar do fato se haver registrado há pouco mais de vinte anos.

Perseverei, porém, e, afinal, descobri a data exata do roubo: 4 de outubro de 1925 e mais ainda o noticiário do "Diário da Manhã" que transcrevo a seguir:

Do "Diário da Manhã" de 6-10-1925

"Ladrões sacrílegos roubaram o manto da virgem. Ontem, desde as primeiras horas da manhã, foram esta cidade e a do Espírito Santo (Vila Velha), emocionadas com a notícia de haver sido saqueado o tradicional Convento da Penha.

Primeiramente, as notícias correram vagas e contraditória, porém, segundo os informes colhidos pela nossa reportagem, o sacrílego atentado deve ter ocorrido em a noite de anteontem para ontem, tendo os audaciosos malfeitores aproveitado a circunstância da festa de Nossa Senhora do Rosário, em Vila Velha, para agirem com calma e precisão. Assim arrombaram uma das portas divisórias do Convento, e, penetrando no recinto do Santuário, furtaram o rico manto, coroa e demais jóias oferecidas à Virgem da Penha pela população católica.

Noticiada do ocorrido, a polícia, de acordo com o capelão José Ledwuig, empreendeu as necessárias diligências para a captura dos ladrões".

"Diário da Manhã", de 7-10-1925

"O roubo da Penha — Prosseguem as diligências sobre roubo verificado no Santuário da Penha, já tendo sido ouvidas várias pessoas suspeitas.

O Dr. Delegado Geral não tem poupado esforços, afim de ser levada a efeito a captura dos ladrões sacrílegos".

"Diário da Manhã", de 11-10-1925

"O roubo da Penha — Prosseguem as diligências sobre o audacioso assalto ao Convento da Penha, já tendo sido reveladas as impressões digitais encontradas no local do crime. Foram também reproduzidas e ampliadas no gabinete fotográfico, as fotografias da imagem com a coroa e jóias, outras providências de caráter secreto foram efetivadas com todo empenho, cujos resultados aguarda a polícia, carecendo assim de fundamento a censura feita por um vespertino quanto à eficiência de sua aparelhagem aplicada ao caso corrente.

Sabe-se que toda polícia organizada, em qualquer parte do mundo, tem os seus métodos e processos de atuação, não agindo simplesmente por meras adivinhações, principalmente num meio onde as susceptibilidades são um constante embaraço à sua ação preventiva.

Reduzindo às suas justas proporções a notícia editada sobre o audacioso sacrilégio, a polícia apurou terem sido roubados a coroa, alguns cordões de ouro, dois anéis grandes, um broche e o dinheiro arrecadado do dia 1° do corrente, até a data do delito, tendo escapado à garra dos sacrílegos, um colar de pérolas".

"Diário da Manhã", de 12-10-1925

"Cartas Cariocas — Sacrilégio — Foi com assombro e revolta que recebi a notícia do sacrílego roubo praticado no Convento da Penha, lugar sagrado que não deteve a audácia desse assalto inominável. Li-o no "Diário" que o relatou sem pormenores, e fiquei indeciso, não podendo crer que tal crime se consumara. Mas, notícias posteriores me levaram à evidência. Imagino o pesar e a indignação do povo de minha terra pela indignação e pesar que sinto. Sou, porém, de opinião que o ladrão infame não é nem pode ser espírito-santense, porque não é possível que nascesse no Espírito Santo o desalmado que levou a cabo tamanha torpeza. Resta-me o consolo dessa convicção íntima. Dir-se-ia que estava pressentindo esse sacrilégio, quando, há meses, lancei a idéia de transformar o Convento num Museu, sem lhe tirar o culto católico, confiando-o à guarda e aos carinhos da Igreja. Mas esse meu alvitre foi maior. porque seria irremediável, ainda não se verificar, mas poderia acontecer um dia: é a devastação do templo e dos intrusos, danificando aquelas pedras veneráveis, aquelas relíquias da arquitetura colonial, bem assim a floresta que envolve o mosteiro, como numa...... da natureza.

E para evitar um atentado é mister, desde já, uma providência que ponha a salvo esse tesouro, patrimônio de nossa terra, a maior riqueza de nossas almas. As jóias e o manto roubados pelo diabólico ladrão serão de novo colocadas na imagem querida, que, mesmo sem esses atavios. tem o ......... do céu, porque Nossa Senhora possui um manto verde — a floresta que a envolve numa carícia perene, e os brilhantes, que são as ........e isso nenhum ladrão roubará.

Tenho pena de não ser rico, pois a minha maior alegria seria ataviá-la ainda mais do que antes do roubo cometido. Tenho apenas as jóias do meu coração para lhas ofertai — as lágrimas que derramei ao sabê-la vítima de tal monstruoso agravo, e essas singelas palavras, que são escritas em sua intenção. A bondade divina de N. S. da Penha é tão maternalmente grande e incomparável que não fulminou o ladrão sem alma, o vilão que se aproveitou dessa demência celeste, para despojá-la ............"

"Diário da Manhã", de 22-10-1925

"O roubo da Penha — Será o "chauffeur" Luís Ferreira o autor do audacioso assalto? As diligências da Polícia de Niterói. Ao que sabemos, a polícia de Niterói prendeu Luís Ferreira Lima, suspeito de ser o autor do sacrílega assalto em a noite de 4 do corrente ao Convento da Penha. No interrogatório a que foi submetido no Corpo de Segurança daquela cidade, Ferreira Lima caiu em diversas contradições; e, declarando antes ter chegado ali a 12 do corrente e viajado em companhia de Osório de tal. A polícia fluminense pediu à deste Estado informações sobre Ferreira Lima, o qual, segundo apurou a nossa reportagem, trabalha nessa cidade como "chauffeur". Pelo noturno de hoje segue para Niterói, levando os informes solicitados, o Sr. Florício Paulo dos Santos, agente do Corpo de Segurança".

Como se manifestou "O Globo", do Rio de Janeiro, de 12-10-1925:

"Enternecida, consternada, a população de Vila Velha, no Estado do Espírito Santo, recebeu a notícia torturante — os ladrões, após estudo acurado, conseguiram, noite alta, penetrar no Convento da Penha, onde praticaram avultado roubo, que os otimistas estimam em mais de 500:000$, isso sem falar no valor estimativo e histórico das jóias que carregaram, em grande número, além de importante soma em dinheiro.

A segurança com que agiram os salteadores dá a impressão de que eram perfeitos conhecedores dos hábitos com que os religiosos daquele retiro espiritual praticam as cerimônias litúrgicas. Essa observação era indispensável para a perfeita segurança da arriscada empresa a que se teriam de entregar quando a ambicionada oportunidade se lhes deparasse. O momento desejado surgiu, afinal, com as festividades religiosas que no corrente mês são celebradas em louvor da sua padroeira. E de como se houveram os meliantes, narramo-lo linhas abaixo.

A festa de domingo atrasado

Como aconteceu nos demais pontos do país, onde se venera N. S. da Penha, domingo atrasado a pacata Vila Velha do Estado do Norte esteve em reboliço, acordando sob o repique de sinos, anunciador da festa que se ia celebrar na lapa fronteira, a cavaleiro da vila.

E, desde cedo, a romagem começou, alegre, para o outeiro onde se demora o Convento.

Por ocasião dessas festas, como acontece em toda parte, a imagem de N. S. da Penha, relíquia dos nossos escultores em madeira, do século XVI em diante, passa por um tratamento especial. Os hábitos são substituídos por outros, de gala  os paramentos são trocados; os ornamentos dos dias vulgares cedem lugar às jóias de grande valor, intrínseco e extrínseco, pois que entre elas se contam algumas que datam do Brasil colonial. Os ladrões por certo que estavam em observação e a eles não podia escapar todo aquele esplendor de riqueza que a Santa ostentava no seu nicho fartamente iluminado. Assim, enquanto os fiéis se recolhiam em orações, no templo e outros folgavam no campo, os meliantes concertavam a empreitada sacrílega de despojar da sua fortuna a milagrosa padroeira do Estado. E foi o que fizeram.

Terminada que foi a festa, a população de Vila Velha recolheu-se aos seus lares, já à noitinha, caindo a vila no silêncio habitual dos lugarejos ermos do interior.

O assalto ao Convento — O roubo

A madrugada ia alta e Vila Velha dormia na sua tranqüilidade após todo um dia da mais intensa agitação. Os ladrões, que enquanto os fiéis oravam combinavam o assalto, aproveitando o silêncio da madrugada, resolveram por em prática os seus propósitos.

Assim, pois, subiram ao Convento, e, após arrombar uma das portas do templo, ali penetraram, encaminhando-se logo para o nicho que encerrava a milagrosa padroeira. Sacrílegos, não sentiram eles o menor escrúpulo em despojar das suas jóias a milagrosa Santa. Grosseiros, não experimentaram a menor repugnância em destruir uma obra d'arte. Ladrões, o que eles queriam era o ouro que ali viam, era o dinheiro depositado no Santuário. Nestas condições, quando se encontraram diante da Santa, a sós, agindo no silêncio reinante, não pensaram senão no roubo. E a primeira cousa que arrebataram à Santa deveria ter sido a pesada coroa de ouro, toda guarnecida de pedras preciosas, obra riquíssima . Nas mãos ostentava a Santa riquíssimos anéis de ouro, platina e brilhantes. Por precipitação ou malvadez, ao roubarem os anéis e pulseiras, os ladrões partiram-lhe um dos braços. Os broches de ouro e brilhantes que lhe seguravam o hábito foram igualmente arrebatados. No pescoço da Santa estavam vários colares de ouro português, cada qual do comprimento de três metros, e por um riquíssimo colar de pérolas. Tudo isso os ladrões carregaram.

Mas, como não lhes bastasse ainda, correram eles ao Santuário, onde fizeram mão baixa de todo o dinheiro encontrado e que atingia importante soma. Todo o roubo é do valor de mais de 500:000$000!

Para se fazer uma idéia das jóias que ornamentavam a Santa publicamos uma gravura representando duas jóias, semelhantes a muitas que os ladrões carregaram, mas que não o fizeram por se encontrarem guardadas na gaveta de resistente móvel.

Pela manhã, a surpresa aterradora do sacrilégio

Cedo ainda o encarregado da vigilância da Igreja, que dormira a noite toda num quarto contíguo à sacristia, ergueu-se para fazer a arrumação necessária . Passando-se à sala grande da Igreja ele teve, logo, aos olhos, a visão terrível que o surpreendia e perturbava: o santuário estava arrombado! Correu a ver melhor, quase não acreditando no que vira de longe, confirmando tudo, porém, com a realidade que se lhes expunha aos olhos. E se não foi pouca a sua estupefação, do primeiro choque, maior, alucinante, foi o espanto que o assaltou ao erguer os olhos para a milagrosa padroeira e ao lhe notar a ausência de todas as jóias! Como que desvairado, o homem correu até junto do altar, recuando apavorado, ao descobrir o detalhe aterrador: o braço da Santa estava quebrado! E em poucos minutos a nova dolorosa e entristecedora se espalhava pelo povoado todo, atraindo multidão imensa e contrita, que se prosternava ante a imagem querida..

A polícia local toma conhecimento do fato

O audacioso assalto levado a efeito, tão ousadamente contra o Convento de Vila Velha foi comunicado à delegacia geral de polícia de Vitória, que abriu inquérito, pondo no encalço dos meliantes vários agentes. Entretanto, como delegado geral, Dr. Fernando Rabelo houvesse sido informado de que os ladrões tinham vindo para o Rio, enviou uma circular ao chefe de polícia desta capital, pedindo a prisão dos mesmos, e duas fotografias representando a imagem e duas das suas jóias.

A circular foi enviada ao 4.° delegado auxiliar, que ordenou se tomassem providências a respeito, destacando vários investigadores para agirem sobre o caso."

 

Fonte: O Convento da Penha, um templo histórico, tradicional e famoso 1534 a 1951
Autor: Norbertino Bahiense
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2018

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