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O Samba Corre Nessas Veias – Por José Carlos Mattedi

Lajota - Foto: Claudney Pessôa

Lajota: O Samba Corre Nessas Veias

No carnaval deste ano, encontrei-me com Lajota na redação da TV Gazeta. Os anos passam e o carnavalesco continua como "vinho. É um dos principais puxadores de samba enredo do carnaval capixaba.

Publicação em A GAZETA: fevereiro de 1998.


Mais antigo puxador de samba-enredo de Vitória, Lajota, que voltou este ano à avenida para defender o enredo da Pega no Samba, 'O Pão Nosso de Cada Dia', lembra seus 35 anos de carnaval, o aprendizado com os grandes mestres, como Cartola, da Mangueira, e deseja vida longa ao desfile das escolas de samba capixabas

Escola ensina teoria, e não talento. Este, com certeza, é presente dos deuses. E um negrinho do Morro da Gurigica teve essa regalia: um talento natural para a música, coisa rara que não se acha nem se perde. E, apesar do pouco estudo, o menino conseguiu escrever a seu jeito: usou como lápis tamborins, surdos e cavacos. E seguiu o caminho dos mestres com Cartola, o "divino", com quem aprendeu a arte do samba refinado. E assim, compôs alguns dos mais representativos sambas-enredos do carnaval capixaba. Ganhou um apelido: Lajota. Mas, hoje, é mais do que nome. É sinônimo de samba da terra, ele que é considerado um dos maiores sambistas do Espírito Santo, como compositor e intérprete.

Lajota é o mais antigo puxador de samba-enredo do Estado. No último fim de semana, ele defendeu o enredo "O Nosso Pão de Cada Dia", pelo Grêmio Recreativo Pega no Samba, do Bairro Consolação. Diante do público na Jerônimo Monteiro, ele diz que ficou extasiado: "Há cinco anos não tínhamos desfile. Cantei como um rouxinol, embebido de amor ao carnaval". Poeta, sim. Suas palavras são sempre ricas em rimas e versos. Mas que negrinho atrevido é este que fala como os grandes poetas? "Tá no sangue", responde com simplicidade. Seu atrevimento já começou ao nascer. É fruto da Praia do Canto. "As pessoas não acreditam que nasci nesse bairro elitizado. Mas, fazer o quê?...", diz meio que resignado.

Mas logo os deuses trataram de dar uma mão, mais uma vez, depois do talento, deram-lhe um berço onde pudesse se desenvolver. Morro da Gurigica. E poderia existir lugar melhor? "Foi chamado do destino". Sabe aquela história de beber na fonte? Pois é, ali, entre barracos e vielas, Lajota consumiu pura cachaça musical. Conta que, antes do alvorecer, ouvia do seu pequeno quarto o soar dos surdos e tamborins. "O morro respirava samba, e eu dormia em berço esplêndido". Garoto sortudo, não sabia que estava sendo embriagado pela poesia...

PIRRALHO - É filho de gente simples. Sua mãe, doméstica; o pai, pedreiro. Os dois batizaram o pirralho de Carlos Augusto Vieira. Nome de doutor, nunca de sambista. Ainda bem que a molecada da Gurigica logo tratou de arranjar um apelido para aquele bestalho. Mas, por que Lajota? Ele ri muito, e responde: "É por causa da cabeça grande". Dos pais herdou a simplicidade e um jeito cadenciado, que lembra um outro sambista: Martinho da Vila. E tem voz de tenor (outro presente dos deuses?). Quanto a sua iniciação musical, esta "tarefa" coube a avó, uma velha chegada a Folia de Reis. "Com ela tomei consciência de minhas raízes". E foi assim que fincou os pés na música: com os conselhos da avó e ouvindo o ba-ti-cu-bum do morro.

Lajota conta que, nos anos 50, o samba no morro "ainda era menino". E só foi ganhar corpo de homem nos idos de 1963. Apareceu por lá um tal de Anísio do Cavaco, da Beija-Flor de Nilópolis. Sua chegada coincidiu com a criação da Escola de Samba Amigos da Gurigica. Aquele sujeito trouxe na bagagem o cavaco, até então um instrumento renegado dentro da escola de samba. "A chegada de sambistas de fora, como o Anísio, permitiu que valorizássemos nossas raízes e anistiássemos o cavaco. Fez também com que surgissem novos compositores". Entre estes, incluía-se o próprio Lajota. "Aprendi a compor. Como contar uma história num samba-enredo".

Em 1968, veio a virada na sua vida. Trocou a "fonte" da Gurigica indo banhar-se no leito do "divino": o Morro da Mangueira, o morro de Cartola. Mais um puro atrevimento do negrinho... Sua audácia, contudo, foi recompensada: foi um dos poucos capixabas a ter o privilégio de conhecer Cartola. Não, mais do que isso: sentou-se com ele numa mesa de bar, dividindo a mesma bebida e a mesma música (mais uma regalia dos deuses...). "Nesse dia, fiquei impressionado. Cartola pegou no violão, não como um autodidata. Tinha tanta classe que parecia mais um músico erudito", lembra com prazer. Depois, vieram mais alguns encontros, por acaso, com o "divino". Segundo Lajota, Cartola era de pouca conversa, muito calado, "mas que tinha nitidez no que falava e no que cantava".

ADEGA - No Rio de Janeiro, ele ficou por um ano. Tempo suficiente para degustações na adega do samba. A partir de seus "bebericos", Lajota trouxe para cá algumas influências. O que, por exemplo? "A maneira de interpretar. Trouxe um samba mais malandrado, que achava bonito. O samba daqui não tinha um suingue legal", diz. Em 1975, com os amigos, formou o Grupo Espírito Samba. “Fomos o primeiro conjunto de samba a tocar um pagode num festival capixaba. Foi em 1982. Quando entramos no palco, nos receberam com frieza. A platéia nunca tinha visto aquilo, mas depois foi receptiva", destaca. O grupo durou dez anos.

Em 1983, venceu novo desafio: gravou o primeiro disco de samba-enredo do ES, da Escola de Samba Novo Império. Ao todo, foram quatro discos gravados. Entre as mais de 50 composições, sua música mais famosa (apesar de pouco conhecida aqui) é o samba “Catimboseiro" - tocou inclusive em algumas rádios do RJ, principalmente no programa de Adelson Alves, na Rádio Globo. "Foi um momento de glória", resume. Mas, apesar do sucesso, sua composição preferida é outra: o samba-enredo "Levante do Queimado", feito em parceria com Nei do Cavaco para a Escola Amigos Gurigica, em 1978.

Outra boa lembrança: quando representou o Estado na semana Capixaba no Rio de Janeiro, em 1986, no Sheraton Hotel "Fomos aclamados pela velha-guarda da Império Serrano", sublinha. Lajota foi casado duas vezes e tem três filhos. Logo após o carnaval do ano passado, ficou viúvo. "Fiquei arriado. Perdi minha parceira e cúmplice", revela. Só ganhou forças com o desfile deste ano, quando cantou na avenida. E qual foi o melhor período do carnaval capixaba? "Foi quando da inauguração do Sambão do Povo, nos anos 80. Ganhamos o nosso templo sagrado", exulta.

TEMPLO - A alegria dura pouco quando lembra que esse templo, 1° em Santo Antônio, está abandonado. “Isso me causa profunda tristeza", diz com os olhos umedecidos. Lajota, então, desconversa observa que atualmente faz e toca samba "mais por lirismo". Depois de ganhar quatro carnavais pela Amigos da Gurigica, dois pela Mocidade da Praia e um pela Unidos de jucutuquara, sendo duas vezes escolhido o melhor intérprete, o sambista prefere o sossego de um botequim. Seu QG agora não é mais a quadra de samba, mas o bardo Mano Gim, em Jucutuquara. "Ali se reúne a nata do samba capixaba", revela.

Atualmente, trabalha como agente fiscal de transporte da PMV. "Nunca deu para viver somente da música". Suas canções preferidas? A Litle Help From my Frendy, de Joe Cooker, e a eterna "As Rosas Não Falam", de Cartola. Aos 50 anos, sendo 35 deles dedicados à música, Lajota parece trilhar o mesmo caminho de alguns expoentes da música capixaba, como Balduino, Maria Cibele, Mestre Flores e o instrumentista Mundico: o esquecimento. Mas, quem sabe, mais uma vez, os deuses não vão dar uma mãozinha...

A voz do poeta

PRECONCEITO: "Nos anos 60, as rodas de samba não eram bem-vistas fora dos quintais da periferia. Não se podia cantar samba na porta de bares e clubes, como se faz hoje em dia. O samba tinha uma conotação marginal. Mas aos poucos fomos eliminando as barreiras. Hoje isso é possível. Na época, existia um grande preconceito da classe elitizada, principalmente em Vitória. Inclusive nos festivais, o samba era discriminado, e nunca era escolhido nem para ir ao palco".

CARTOLA: "Eu beberiquei com ele num boteco, no pé do Morro da Mangueira. Nesse dia, fiquei impressionado. Cartola pegou no violão não como um autodidata. Tinha tanta classe que parecia mais um músico erudito. Cartola era um cara de pouca conversa, muito calado, mas tinha nitidez no que falava e no que cantava. Era um sujeito simples, mas tinha a classe de um músico da Zona Sul, de um Vinícius, de um Tom Jobim".

MESTRE: "As pessoas me respeitam. Consegui isso respeitando as pessoas. E quem está chegando agora no samba, não conhece o bê-a-bá da coisa. Sinto que eles procuram uma convivência para tirar algum conhecimento. O que derruba o bom sambista é o salto alto, como em qualquer outra área. Sempre procuro ensinar o respeito às pessoas, e a ter paciência e humildade para se ter oportunidade".

CARNAVAL: "O carnaval deste ano serviu como uma abertura para o ano seguinte. Devemos ressaltar a atitude dos órgãos envolvidos, que foi uma felicidade. E os seis anos, que o carnaval capixaba ficou parado, serviram também para alijar aquelas pessoas que faziam do samba um meio de vida. Mas carnaval na Jerônimo  Monteiro é impossível, pois não existe segurança nenhuma, além da má acomodação do público. O desfile deve ser realizado no Sambão do Povo. Ali é nossa casa, e falta interesse do poder público em tomar conta daquilo".

 

Nota do site: O autor trabalhou como repórter do Caderno 2, de A Gazeta-ES, no período de 1990 à 1998, quando produziu várias matérias que recontam acontecimentos e registros da História do Espírito Santo. Muitas vezes em parceria do repórter fotográfico Gildo Loyola.


Fonte: Anjos e Diabos do Espírito Santo, 2004
Autor: José Carlos Mattedi
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2016

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Aquele morrinho, localizado em área do Exército, que se avista da Terceira Ponte com a Bandeira Nacional no seu cume, é conhecido por Ucharia

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