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O senhor da terra

Brasão Vasco Coutinho

"A barba, já bastante grisalha, tremula ao vento qual bandeira desfraldada. E ele aperta os olhos para suportar o brilho do sol e conseguir enxergar. À sua frente e por todos os lados, uma paisagem deslumbrante se descortina. O mar de um azul turquesa rola ondas preguiçosas em direção ao litoral de praias brancas. Mais além, as matas escondem seus pudores de virgem sob densa folhagem de um verde estonteante.

Oh, meu Deus, é lindo, murmura.

A embarcação atinge a entrada de uma baía. Ou seria a foz de um rio? Ele não tem certeza.

Vire o leme a estibordo, ordena Vasco ao timoneiro. Vamos rumar para o interior.

Sob o céu muito azul e brilhante, com nuvens que se penduram aqui e ali feito candelabros de algodão, robustas montanhas molham seus pés de granito na água cristalina da baía. Gaivotas revoam a embarcação numa algazarra de festa. Peixes saltam girando acrobaticamente no ar. Tudo é vivo. Tudo é brilhante. Tudo é novo. Tudo é fascinante. Vasco sorri, o coração de menino saltitando dentro do peito. Em seus quarenta e cinco anos, temperados com viagens e aventuras por várias partes da Europa e do Oriente, o capitão não se lembra ter derramado seu olhar sobre paisagens mais belas do que as que agora se abrem à sua frente feito as coxas de uma mulher de sonhos, pronta para receber sua cota de amor e paixão.

É simplesmente lindo, ele murmura.

Está fascinado. Sequer ouve o aviso de que os nativos estão a atirar flechas. O tripulante insiste:

Senhor, peço que se abrigue. Os nativos estão a atirar flechas.

Mas é assim que estes animais recebem a nós, fidalgos da corte do rei de Portugal, protesta Dom Duarte de Lemos.

O nobre havia se juntado à expedição em Ilhéus, onde a Glória atracou pela última vez antes de alcançar o ponto em que agora está. Dom Duarte é um dos muitos nobres que não receberam terras no Brasil. Apresentado a Dom Vasco, bajulou o capitão de tal forma que, por fim, conseguiu seu intento: uma sesmaria. Na verdade, ele nem precisava ter bajulado o capitão para conseguir seu objetivo, pois Vasco acredita que, de quanto mais gente ele disponha para o trabalho de colonização, tanto melhor. Ele teria oferecido a Duarte de Lemos a sesmaria mesmo que este não tivesse se desdobrado em mesuras. Não sabe o capitão que, em pouco tempo, vai ter motivos para se arrepender. Mas este é um detalhe que se desvendará no momento certo. A grande preocupação agora é com os nativos, que continuam a atirar flechas e lanças e pedras.

Senhor, por favor, se abrigue, insiste o tripulante. Ou acabará ferido.

Ora, homem, eu já enfrentei povos muito mais hostis, rebate o capitão após despertar do transe. Flechas e lanças muito mais perigosas eu já peguei com os dentes. Não vai ser uma dessas que vai me atingir. Não depois de eu ter viajado dois meses e meio e cruzado o Atlântico para chegar à minha capitania.

Neste instante, uma flecha passa zunindo rente à cabeça de Vasco e vai cravar a ponta afiada numa parte qualquer do tombadilho.

Mas não aconselho a ninguém ser tão imprudente quanto eu, diz. No timbre da voz, o tom zombeteiro de sempre perante a morte e o perigo. Ao contrário, ele continua, sugiro que senhor, Dom Jorge de Menezes, e também o senhor, Dom Simão de Castelo Branco, sugiro que os senhores se abriguem. Uma dessa flechas pode encontrar pela frente o bucho de um dos senhores e isso só vai nos dar o trabalho de enterrá-los. E quanto ao senhor, Dom Duarte, não se apoquente. Vou dar um jeito nestes nativos agora mesmo. Alguém diga ao artilheiro Crispim que carregue dois dos canhões de bombordo. Vamos espantar esta gentalha barulhenta.

Um dos marujos corre a transmitir a ordem Vasco partiu de Portugal há exatos dois meses e meio, no dia oito de março, com uma tripulação de sessenta homens, entre eles os fidalgos Dom Jorge de Menezes e Dom Simão de Castelo Branco, que cumprem pena de desterro. Mas são os escrivães Antônio Espera e Sebastião Lopes os mais preocupados com a atual situação.

Onde vamos desembarcar, Dom Vasco, pergunta Lopes.

Perto daquele monte.

Qual deles, indaga Espera.

Aquele lá adiante, aponta Vasco, que vou chamar de João Moreno. Morro do Moreno. Um riacho desemboca ali, o que nos garantirá água fresca e limpa.

O boticário Felipe Guilhem, certamente um dos mais ponderados da tripulação, enruga a testa e as sobrancelhas num esgar de preocupação. Medroso ele não é, mas tampouco afeito a bravatas de qualquer gênero.

O senhor diz que vamos desembarcar ali adiante. Mas será seguro, pergunta. Os nativos estão na margem.
Eles estão por toda parte. Mas em algum local vamos ter que descer, pois não?

Outras flechas passam zunindo e vão se perder em alguma parte do convés. Uma delas acertou o pé de um dos marinheiros. Gritos e palavrões se misturam ao alarido dos nativos e das gaivotas.

O Mendes foi atingido, anuncia uma voz. O Mendes foi atingido.

Eu já ordenei que se abriguem, grita Vasco para a tripulação. Em fúria, sobe para o convés e incita os nativos: Vamos, atirem suas flechas, atirem suas flechas em mim, é a mim que vós quereis, não a eles. Eu que sou o novo senhor dessas terras.

Senhor, o artilheiro Crispim manda avisar que as duas peças estão carregadas e prontas para cuspir fogo.

Pois ordene que sejam disparadas imediatamente.

Pois não, senhor.

Um depois do outro, os canhões expelem seu rugido estrondoso de pólvora e ferro. Atônitos, os nativos se enfiam na mata acreditando que ainhagá (o diabo) em pessoa subira do fundo dos infernos para cuspir sobre eles labaredas de fogo.

Pronto, senhor, informa um dos marujos. Os nativos já se foram. Embrenharam-se na mata feito loucos. Acho que não mais nos incomodarão.

Então, vamos desembarcar, anuncia Vasco. Seu plano é, de imediato, construir uma paliçada fechando o fundo da prainha e uma capela rústica em homenagem a São João.
Aliás, por falar em santo, os senhores sabem que dia é hoje, pergunta Vasco.

Após consultar suas anotações, Castelo Branco diz:

Se não me engano, hoje é domingo, vinte e três de maio.

Exatamente, concorda Vasco. Vinte e três de maio, dia dedicado ao Espírito Santo. E por este motivo, meus senhores, eu vou batizar a minha capitania com o nome de Província do Espírito Santo.

O anúncio é saudado à moda dos aventureiros. Chapéus são atirados para o ar e canecas de rum esbarram-se em ruidosos brindes.

O senhor planeja construir engenhos, pergunta Duarte de Lemos.

Neste primeiro mês acho que nada mais faremos que explorar a região. Mas assim que pudermos, construiremos engenhos sim e plantaremos algumas roças.

O capitão seca os lábios e conclama a tripulação a desembarcar. Foram dois meses e meio de viagem. Já é hora de pousarem novamente em terá firme. E Vasco está tão embevecido com a beleza de suas terras que sequer nota que um complô já se principia entre os homens.

Vocês ouviram, pergunta um deles. O capitão quer plantar algumas roças.

O capitão que me perdoe, diz outro, mas nesta empreitada não conte comigo.

Nem comigo, arrota o terceiro. Neste lugar tem peixe e marisco em fartura. Uma coisa é certa. De fome, ninguém morre.

E sendo assim, pergunta o quarto, para que a gente precisa trabalhar a terra?

Podemos ficar por aqui a desfrutar desse paraíso, diz o quinto com uma boa golada de rum.

Vasco pisa pela primeira vez o rico solo de sua capitania e não vê nele uma terra selvagem e pouco hospitaleira. Todo aventureiro é também um sonhador e os pensamentos de Vasco banham-se em águas futuras, quando sua capitania já é a mais próspera dentre todas as que sua majestade El Rei concedeu aos amigos da corte. Para um aventureiro, a capacidade de ver a vida com os olhos do sonho, muito mais do que uma simples característica, constitui-se uma virtude. Que ele, Vasco, traz consigo desde que nasceu num dia qualquer do ano santo de 1490."

Fonte: Vasco Fernandes Coutinho - Coleção Grandes Nomes do Espírito Santo, Vitória/2005
Coordenador: Antônio de Pádua Gurgel
Autor: Alvarito Mendes Filho

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