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O silêncio das catedrais – Por Suzana Villaça

Catedral de Vitoria antes do restauro finalizado em 2015

Na cidade onde nasci, as raízes da minha busca interior tem sua iniciação pontilhada por sentir a beleza na Vitória do Espírito Santo.

Uma ilha encantada onde os meus sonhos fazem parte da realidade comum a tantos que aqui passaram.

Nestes momentos onde saí viajando pelo mundo da percepção está um lugar especial para o lado místico da minha personalidade alma, a catedral de Vitória.

Onde dei meus primeiros passos pelos caminhos do sem fim. Ali criei pontes na busca metafísica a todas as minhas interrogações. Através das meditações aprendi com minha curiosidade, múltiplas formas de adentrar verdades sensíveis e eternas.

Encontram-se os mistérios dos tempos nestes monumentos universais, as catedrais. Cabe ao que está à procura entrar em sintonia com sua percepção e tentar decifrar toda a alquimia contida nas suas formas, e mergulhar na síntese de suas referências sagradas. Nas torres góticas há uma prece arquitetônicamente simbolizada, basta analisar a subjetiva posição de duas mãos postas. Nitidamente é possível sentir que se aproxima de uma fórmula de projetar-se ao universo, em prece solitária ao encontro das energias superiores, à mente cósmica.

Poderemos também absorver nestas catedrais as mandalas reunindo uma série de símbolos, símbolos estes cabíveis de decifrar com uma série de elementos pertencentes às escolas iniciáticas e de origem ocultista. Tem-se sempre à vista uma sequencia de elementos compondo estas naves como se fizessem prevalecer, além do estilo, uma velada forma de expressão. No seu conjunto de sinais nada acontece ao acaso ou se enquadra numa simples regra arquitetônica. Tudo é movido por uma importante significação, como a de definir a expansão do conhecimento investido na história da humanidade.

As simétricas distâncias e os efeitos sonoros ampliando os sons definem estes templos como acusticamente preparados para ecoar as preces em harmonia com efeitos de luz velada e misteriosa. Somente os atentos aos detalhes sutis atestam, quando em seu interior, a luz externa filtrando ao seu recinto e os sons internos de ressonância ampliada.

Sinalizar cada um destes padrões de templos, ou melhor, as catedrais góticas – cuja maior concentração está na França, Espanha e Inglaterra – permite fazer uma viagem no tempo. O renascentismo empregou a palavra “gótico” (derivada de “goth”), utilizada por humanistas italianos para designar pejorativamente a arte que sucedeu em meados do século XIII à arte romântica. Considerações das linhas escritas com o simbolismo místico ficam à parte da conceituação de arquitetura religiosa. Citaremos aqui a Notre Dame de Paris e as de Chartres, Reims, Amiens, Bourges e Rouen. Assim como lembraremos o esplendoroso Mont Saint- Michel para referendar sua pesquisa e atrair seu interesse para mergulhar nesta busca fascinante.

Muito além de simples construções, as catedrais fazem parte da peregrinação devocional do ser humano ao dar sequência a suas origens. Por isto os estudos aprofundados destas marcas visíveis ou codificadas destas construções os levaram a lições da Atlântida ou aos registros da vida sideral em nosso planeta. Mergulhar no estudo das catedrais é sair em busca de si mesmo, absorvendo as arquetípicas imagens da sua memória ancestral.

Talvez nestes momentos de fechamento de um ciclo milenar deveríamos retomar estes caminhos para fundi-los a nossa imagem contemporânea de senhores de todas as linhas de cultura intelectualmente respeitada. Para entendermos por exemplo, O diário de um mago, que projeta Paulo Coelho no cenário mundial da literatura. Quer queiram ou não, é fato a força da obra em penetração nos países do primeiro mundo, protótipos de perfeição em preferências ligadas à emoção mais racionalizada e menos comprometida com a mística influência do sincretismo brasileiro, por exemplo.

Toda esta viagem, levando em seu poder o labirinto sistematizado no piso da catedral de Chartres, define o caminhar de cada um em sua busca solitária. Para prosseguir em seu encontro solitário no seio das catedrais, onde estão ressoando os passos da multidão que ali abrigou seus mais elevados propósitos como pessoa ou como povo. Originalmente, catedrais construídas para abrigar as influências de cada momento mágico de alguém resumem as reflexões reveladoras de um incontável número de pessoas. Como fazem hoje os que percorrem o caminho de Santiago de Compostella (na Espanha) em intensa busca da essência, o encontro virtual do eu interior na comunhão com o eu posterior.

Aconselharíamos aos interessados em compreender estes símbolos secretos e decifrar mistérios que saiam hoje mesmo em busca de livros que abordem o tema. Muitos segredos dormem neste fascinante reduto de união de beleza artisticamente elaborada e harmonioso conceito arqueologicamente vistoriado pelas mentes abertas.

Cujo princípio é feito pela solidez da fé na vida e no ser humano.

Razão de sentir os princípios de causa e efeito ao admirar a primeira construção gótica de Vitória réplica singela da famosa catedral de Colônia, na Alemanha.

Construídas com finalidades esotéricas e exotéricas, as catedrais detêm a força do Grande Arquiteto do Universo, e somam os elementos vitais da evolução humana rumo ao infinito, onde o maior mistério é o homem. Criado na visão de uma dinâmica silenciosa, como o profundo silêncio hermético das catedrais.

 

Escritos de Vitória – Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES, 1996
Prefeito Municipal: Paulo Hartung
Secretária Municipal de Cultura e Turismo: Jorge Alencar
Conselho Editorial: Álvaro José Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Assessoria Técnica: Biblioteca Municipal de Vitória
Revisão: Reinaldo Santos Neves, Enyldo Caravalinho Filho
Capa: Paulo Bonino
Editoração Eletrônica: Edson Maltez Heringer
Impressão: Gráfica Ita

 

Fonte: Escritos de Vitória, nº 9 Igrejas, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo – PMV, 1995
Texto: Suzana Villaça
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2018

 

Suzana Villaça:

Nascida em Vitória (ES).

Artista plástica e escritora.

Autora de Espelho dos sonhos e Vida, mundo, mulher.

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