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O teatro durante a ditadura

Censura na ditadura - Fonte: Historia brasileira.com

Porque iniciamos a pesquisa em 1972?

No Brasil da década de 1970, muitos artistas e intelectuais acreditavam que a repressão militar, exacerbada pelo Ato Institucional nº 5, de 1968, havia silenciado os setores que se opunham à ditadura. Contudo, como podemos observar, por certas criações artísticas, como a composição de Chico Buarque Apesar de Você, que havia um grito contra a ditadura militar, por exemplo, na frase: “Hoje você é quem manda, falou, tá falado, não tem discussão”. Logo, os artistas não se dobravam à censura.

Os compositores Chico Buarque e Edu Lobo encabeçavam, nos anos 60 e 70, a tendência de produzir musicais e o gosto para usar alegorias como subterfúgios para discutir temas, interditos pelo regime militar, sobre política e injustiças sociais. Nessa linha, estão Roda vida e Calabar. Mais tarde, em 2001, esses dois compositores voltaram com esse gênero, que teve um pouco de sucesso nos anos 80, com Cabaio, numa temporada no SESI, Vila Maria, em São Paulo. Só que, nessa época, a finalidade de seus musicais era combater os da Brodway, dando-lhes uma linguagem brasileira e abandonando os clichês políticos dos anos 60.

No entanto, esse gênero se estendeu para décadas posteriores a 70. Por exemplo, em 1980, no Teatro Cândido Mendes, no Rio de janeiro, foi representado “Happy end”, obra de 1929, de Bertold Brecht e Elisabethe Hauptmann, ambientado em Chicago dos anos 20. Era uma paródia de Romeu e Julieta. Confrontavam gangsters e Grupo de Exército da Salvação e depois se uniam, numa mistura de cinismo, sarcasmo e desesperança. EM setembro de 1981, no teatro FAAP, foi apresentado o musical “Paula”, da americana Gretcher Crujer, dirigido por Paulo Rangel. Em 1983, “Piaf”, com Bibi Ferreira, percorreu várias capitais do Brasil, e, inclusive, foi representada em Vitória, no Teatro Carlos Gomes. EM 1985, “Corsário do Rei” foi representado no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro e critica a vinda dos banqueiros internacionais de hoje. Em São Paulo, em 1998, foi apresentada ao público paulistano, no teatro do Instituto Itaú Cultural, a peça “Memória póstuma de Brás Cubas”, um musical infanto-juvenil, com textos adaptados do romance de Machado de Assis que tem o título da peça.

E Vitória aderiu a esse gênero. Em 1972, em maio, foi apresentada a peça infanto-juvenil “Tribobócity”, no Teatro Estúdio, em uma montagem do Grupo terra, sob a direção de Renato Saudino. É uma paródia dos filmes de faroeste, mas a história ocorre no Rio de Janeiro. Todo o conflito se passa em um saloon da cidade. Um bando de malfeitores descobre uma mina de ouro e tenta impedir que se construa, no local, uma estação. Em julho desse ano, no TCG, foi apresentado “Duvi-de-o-dó”, repertório de músicas capixabas a cariocas. Segundo Chico Lessa, o show “é uma mensagem de passagem”. Em 1980, ainda no TCG, foi representada a peça musical de Tercio Ribeiro Moraes, sob a direção de Robson Silveira, “No reino do Rei reinante”, pelo Grupo Ponto de Partida.

Com relação ao teatro, como sempre acontecia, desde a sua criação na Grécia Antiga, ele vem manifestando a voz popular e, por essa razão, não deixou de apresentar as arbitrariedades dos militares em parte da produção teatral da década de 1970. Assim, apesar de todas as dificuldades impostas pela repressão, como cortes dos censores em obras ou proibições de representações teatrais pelo Departamento de Ordem Política (Dops), os artistas procuravam mostrar as suas insatisfações contra o governo militar. Por essa razão, alguns espetáculos que tinham por objetivo o diálogo crítico com a sociedade foram realizados. Exemplos dessa tendência é a peça Tambores na Noite, de Bertold Brecht, encenada em 1972, sob a direção de Fernando Peixoto, em São Paulo, no Stúdio ao Pedro. Essa obra apresenta a história de Kragler, soldado alemão, que voltava derrotado para casa depois de quatro anos de guerra e se encontrava diante de uma situação conflituosa, pois devia escolher seu destino entre ir para casa com a ex-noiva grávida de outro ou ajudar os revoltosos nos bairros dos jornais (Revolta Spartakista).

Fernando Peixoto concebe a cultura como parte do social, como um diálogo entre arte e sociedade, e aproveita as discussões da Alemanha de 1919, distantes do Brasil de 1972, para refletir, por meio das artes cênicas, conjunturas históricas diferentes e para explorar os respectivos momentos criativos, porém interligados por um tema comum: o comportamento do homem diante de uma situação social e pessoal conflitante, para dialogar criticamente e artisticamente esses dois momentos históricos.

Com a repressão de 1970 a 1981, os grupos constituídos pelo Teatro de Arena e o de Oficina foram dissolvidos, e Fernando Peixoto continuou um trabalho artístico autônomo, sem fugir à sua concepção de arte unida ao social, dirigindo peças como: Dom Juan (1970); Tambores na noite (1972); “A Semana” (1972); Frei Caneca (1972); Frank V (1973); Um grito parado no ar (1973); Calabar, o elogio à tradição (1973); Caminhos de volta (1974); A Torre em Concurso (1974); Arena contra Zumbi (1976); Ponto de Partida (1976); Mortos sem sepultura (1977); Coiteiros (1977); Terror e Miséria do III Reich (1979); Werther (1979) e Calabar, o elogio à traição (1980).

Quando tivemos conhecimento da representação de Tambores da Noite e dos objetivos que fizeram o diretor encená-la, pensamos em investigar os tipos de representações que predominaram nessas três décadas, durante a força da repressão, no diminuir dela e no seu “acabar”, ou, melhor em suas cinzas. Mas, por razões superiores ao propósito, ou melhor, à nossa vontade, foi delimitado o aspecto temporal da pesquisa.

 

Fonte: O Teatro se subjuga ao poder? Ideias esquartejadas sempre renascem. Vitória, ES. 2011
Autora: Ester Abreu Vieira de Oliveira
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2012 

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