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O Zorro e a Odalisca – Por Jovany Sales Rey

Livro do Jovany Sales Rey, 2013

Tem milagre que só dá para contar falseando o nome dos santos, principalmente quando eles ainda estão vivos e vigorosos o bastante para quebrarem suas bengalas na minha cabeça. No entanto, mesmo que tivessem morrido, não me arriscaria a identificá-los, até porque um dos filhos de Sílvio e Eunice (assim os chamarei), é um político capixaba muito conhecido e mais pela fama de brigão do que propriamente por seus raquíticos feitos parlamentares.

Quando aconteceu, não sei precisar. Pela idade atual dos protagonistas estimo que tenha sido em meados dos anos 60. De qualquer forma, é certo que Sílvio e Eunice já tinham pelo menos dois dos seus três filhos, o que devia atrapalhar, mas não impedir que levassem uma vida social agitada para os padrões da época. Assim, como fazia todo ano, foi o carnaval se aproximar, Eunice mandou uma costureira fabricar uma fantasia de Zorro para Sílvio e outra de odalisca para ela, com direito a véu cobrindo o rosto.

Quando chegou o domingo de carnaval, eufórica com o baile do Golfinho (clube que ficava onde hoje é a Câmara Municipal de Vila Velha), Eunice passou o dia se arrumando. Lá pelas oito da noite, porém, as coisas começaram a desandar. Primeiro Jorge Gangorra apareceu para encher o saco. O sujeitinho tinha esse apelido porque era tão chato que onde sentava todo mundo levantava e Eunice tinha pavor de suas brincadeiras idiotas, só o suportando por ser amigo de Sílvio. Depois, como desgraça pouca é bobagem, tia Jandira mandou recado avisando do retorno da enxaqueca. Não poderia tomar conta das crianças, como tinha prometido. O mundo veio abaixo. Sem babá, mixou o baile!

— Epa, isso não! — berrou Jorge Gangorra — Sílvio não pode faltar, ele é a alma da turma, o folião mais animado!

Eunice remeteu-lhe um olhar de raiva concentrada, mas o intrometido continuou botando pilha em Sílvio, que afinal se rendeu:

— É, morzinho, não tem jeito, eu vou, preciso ir. Você fica com as crianças.

Foi falando e tratando de colocar a capa e a máscara de Zorro. Fazer o quê? Com a revolução feminina ainda engatinhando, Eunice suspirou conformada. Acontece que a vida não anda em linha reta. Duas horas depois dos marmanjos saírem, tia Jandira melhorou da enxaqueca e apareceu, fiel ao compromisso assumido. Alegrinha, Eunice meteu-se nos véus de odalisca e correu para o Golfinho ao encontro do maridão, levando um golpe cruel ao dar com seu mascarado negro pulando abraçado a uma sirigaita peituda!

Indo chorar no banheiro, acabou entornando a garrafinha de uísque oferecida por uma amiga solidária. Encorajada pelo álcool, enxugou as lágrimas e destilou uma vingança: “Vou seduzir o Sílvio! Estou mascarada, ele não conhece minha fantasia nem sabe que eu vim. Chego perto, me insinuo, ele vai pensar que sou outra, dou uns amassos nele e aí tiro o véu e escracho o fidamãe!” Plano traçado, retornou ao salão, se encharcou de lança-perfume e atacou o sem vergonha. Para sua surpresa, foi bem mais fácil do que imaginara. Facílimo mesmo. No terceiro beijo, ele a arrastou para fora do clube, enfiando-se com ela num providencial vão de muro. Pega aqui, segura ali, Eunice já ia se revelar, mas uísque, lança-perfume, tesão e vão de muro resultam numa combinação fatal. Ela relaxou (“depois eu brigo”), abriu as pernas e cráu! se entregou à espada do Zorro. O duro foi que, mal acabou o serviço, o cretino caiu fora, deixando-a a se recompor sozinha e desnorteada.

De alguma forma conseguiu voltar para casa. Tomou um banho gelado, botou a camisola e ficou esperando. Já era dia claro quando Sílvio chegou, acabadão, maior cara de ressaca. Eunice caprichou no cinismo:

— E aí, morzão, divertiu muito? Tava bom o baile?

Sílvio atirou-se no sofá, jogando um sapato para cada lado:

— Baile? Que baile? Ah, o baile... Acabei não indo. Jorge Gangorra me levou pra tomar umas biritas na casa dele, eu bebi demais e apaguei. O sacana me largou lá, vestiu minha fantasia, foi pro Golfinho e ainda voltou arrotando vantagem, dizendo que comeu uma vagabunda vestida de odalisca!

Não faço a mínima ideia dos caminhos tortuosos que a história percorreu até cair na boca do povo e chegar aos meus ouvidos. Vai ver Eunice contou para tia Jandira depois que recuperou da falta de ar. E velha, sabe como é, adora uma fofoca.

 

Autor: Jovany Sales Rey
Fonte: Causos de Vila Velha, 2013
Capa: Ricardo Gomes

Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2014 
Venda do Livro: Banca do Alemão, localizada Praça Duque de Caxias (Titanic) - Centro, Vila Velha ES
Contato Alemão: banca.alemao@hotmail.com - Fone: 3239-2545

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