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Obrigado Antenor – Paulo Maia

Foto da Avenida Capixaba nos anos 1940 com o prédio de A Tribuna à direita

Não se pode falar em jornalismo no Espírito Santo sem prestar homenagem ao homem que foi o responsável pela evolução do setor. Trata-se do velho jornalista Antenor Novaes, falecido em maio de 1969 em um acidente automobilístico na altura de Campos, quando retornava de uma viagem ao Rio de Janeiro. Foi ele quem começou a pagar salários dignos aos profissionais, conforme se poderá ver na história que conto a seguir e que talvez até pareça meio egocêntrica. Mas os detalhes são necessários para que se possa ter uma visão mais real do que era o jornalismo naquele final de década em Vitória.

Foi no princípio de 1969, lá por fevereiro, que fui procurado por Olair Passos, então revisor do jornal A Tribuna, que naquela época funcionava na Rua Aristides Freire, na Capixaba, para que eu cobrisse suas férias. Eu trabalhava no jornal O Debate, que mais tarde virou Jornal da Cidade, e também fazia um bico no escritório de contabilidade de Edson Bourguignon, em Jardim América, onde, aliás, Olair me encontrou.

Estranhei o fato de ele ter-me achado lá. E mais ainda o porquê de me procurar. — Olha, Paulo. Tem um novo diretor lá no jornal e ele disse que só me deixa entrar de férias se eu conseguir um profissional experiente para me substituir. Você sabe. Eu trabalho lá à noite e sozinho.

Então combinamos e no outro dia às 18 horas apareci lá no jornal para me apresentar ao tal diretor. Era ninguém mais nem menos do que o velho jornalista Antenor Novaes. Tinha seus sessenta e poucos anos, muita disposição e um sorriso enorme nos lábios. Após os cumprimentos ele despejou uma chuva de perguntas:

- Quantos anos de profissão o senhor tem? Além de revisão o que mais o senhor sabe fazer em jornal?

— Já fiz de tudo um pouco. Revisão, reportagem  além redação, manjo funcionamento de linotipo, sei fazer título (no componedor), emenda no paquê, prova de página, etc.

— O senhor sabe quantos pontos tem um cícero?

— Claro. Doze pontos. O que mais?

— Nada. Pode começar amanhã. O salário será o mesmo que o Sr. Olair ganha. Está bom?

— Tudo bem.

No outro dia, quando cheguei para trabalhar, Seu Antenor apresentou-me ao Merival Júlio Lopes, um cobra em redação e oficina. Ele era o redator-chefe. Alguns dias depois chegou outro cobra do Rio. Era Vinícius Paulo de Seixas. Quando o período de substituição do Olair terminou, fui receber a grana e me despedir dos colegas que conhecera naquela oportunidade e com quem já começara a aprender coisas novas. E aí veio a surpresa. O velho Antenor perguntou-me quanto eu ganhava para trabalhar no escritório e no O Debate. Ao saber da resposta simplesmente me ofereceu o dobro para ficar em A Tribuna, mas não mais como revisor e, sim, como secretário-gráfico.

Confesso que quase caí duro. Eram oitocentos mil cruzeiros. Não pensei duas vezes. No outro dia procurei Edinho Borguignon, expus-lhe a situação e me mandei. No O Debate ainda fiquei por mais uns quatro ou cinco meses, já que lá só trabalhava aos domingos como repórter de Polícia ou Esporte, dependendo da necessidade.

Para se ter uma idéia da política salarial local, naquele mesmo mês o editor-chefe de A Gazeta ganhava quatrocentos mil cruzeiros e o de O Diário, seiscentos mil. Falar nos salários da cúpula da redação de A Tribuna parecia até mentira. Se o secretário-gráfico ganhava oitocentos mil, imaginem o redator-chefe?

Naquela época os jornais eram feitos na base da intuição. Diagramação nem pensar. Calculava-se o volume de linhas necessário para fechar uma página e descia-se o material para as oficinas. O que sobrava de uma concluía na outra. Os títulos eram feitos sempre em uma única linha ou em duas parangonadas. Não importava o tamanho. O tituleiro, na oficina, adequava o mesmo de acordo com a colocação da matéria na página. Era comum a matéria começar na primeira página e terminar em outra qualquer do miolo. Em suma, a coisa era feita na marreta. E foi com o Vinicius e o Merival que A Tribuna começou a mudar tudo. O jornal passou a ser diagramado totalmente na redação. A primeira página ficou reservada apenas para as chamadas. Os títulos passaram a ser feitos dentro de medidas pré-estipuladas, com 3x15 para uma coluna, 2x28 para duas, 1x48 para a manchete de oito colunas, etc. Enfim, A Tribuna foi aos poucos virando um jornal de verdade. Como Merival viera do Diário Carioca, então o jornal mais bem diagramado do país, acabou fazendo A Tribuna quase a sua cópia. E ninguém podia negar que o jornal ficou realmente muito bonito e bem arrumado.

Em seguida apareceu na redação outro cobra. Cláudio Bueno Rocha, que chegou a Vitória como comprador de cupons de conta telefônica. E como conhecia Merival, acabou conseguindo um emprego e passou a ser o chefe de reportagem. E foi com ele que A Tribuna deu outro passo. Foi aberta a escolinha e de repente a redação ficou cheia de estagiários. Só para citar alguns: Martha Lelis, José Casado, Ewerton Montenegro Guimarães, Ronald Mansur, Marcelo Rossoni, Mariângela Pellerano, Paulo Bonates, Beth Feliz, Sérgio Egito e mais um monte deles, que hoje estão espalhados aí pela imprensa nacional.

Mas a semente Guimarães, Ronald Mansur, Marcelo Rossoni, Mariângela Pellerano, Paulo Bonates, Beth Feliz, Sérgio Egito e mais um monte deles, que hoje estão espalhados aí pela imprensa nacional.

Mas a semente plantada pelo velho Antenor não iria germinar se não estivesse à frente de O Diário o empresário Edgard dos Anjos, o sucessor do velho na evolução do jornalismo capixaba. Edgard levou, para O Diário, Cláudio e posteriormente Vinicius, quando A Tribuna estava para fechar à espera da construção de sua nova sede, que hoje funciona na avenida Alberto Torres, na Ilha de Santa Maria. Merival preferiu regressar ao Rio. E, com a dupla, Edgard abriu em O Diário a escolinha que funcionava em A Tribuna e procurou seguir, também, a política salarial, mantendo por algum tempo, até o dia do trágico incêndio que abalou as estruturas do jornal, uma potência de trabalho, cuja fama vara o tempo e até a realidade, em alguns casos.

Por isso esta lembrança. Parabéns, Antenor Novaes, onde quer que você esteja. Parabéns, Edgard. Quem sabe se um dia você não volta?

 

Fonte: ESCRITOS DE VITÓRIA — Imprensa – Volume 17 – Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES.
Prefeito Municipal - Paulo Hartung
Secretário Municipal de Cultura e Turismo - Jorge Alencar
Sub-secretário Municipal de Cultura e Turismo - Sidnei Louback Rohr
Diretor do Departamento de Cultura - Rogério Borges de Oliveira
Diretora do Departamento de Turismo - Rosemay Bebber Grigatto
Coordenadora do Projeto - Silvia Helena Selvátici
Chefe da Biblioteca Adelpho Poli Monjardim - Lígia Maria Mello Nagato
Bibliotecárias - Elizete Terezinha Caser Rocha e Lourdes Badke Ferreira
Conselho Editorial - Álvaro José Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Revisão - Reinaldo Santos Neves e Miguel Marvilla
Capa - Amarildo
Editoração Eletrônica - Edson Maltez Heringer
Impressão - Gráfica e Encadernadora Sodré
Autor do texto: Paulo Maia
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2018

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