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Os 12 Mandamentos do Engenheiro Civil - Por Jorge Majestade

Por ironia do destino, Jorginho veio a falecer pouco antes do lançamento de seu livro

(...) O tempo naquela estrada sem volta, passou até chegar minha vez de entrar nos “enta”. Imaginara uma entrada no mínimo glamourosas, num grande centro, rodeado de amigos, num jantar regado a frutos do mar, vinho, champanhe e, quem sabe, até um baile saudoso com a orquestra Tabajara.
A realidade foi outra, diametralmente oposta, talvez por picardia do destino, só pra mostrar quem manda.
Na noite anterior, fui tomado de crescente ansiedade, que me remexia as estranhas a cada segundo do relógio em direção á meia-noite. Amanheceria com 40 anos de idade. Confesso não haver pensado no fato, até então.
A partir da entrados nos “enta”, tudo pode acontecer no quesito saúde. Antes, nem chumbo derretido fazia mal. Depois até a brisa tímida vira pneumonia. Começam as preocupações com a morte. O medo é decorrente do desconhecimento, afinal ninguém voltou para contar o que se passa do outro lado (acredito que a morte seja vida em outra dimensão).
O dia foi normal, como quase todos os outros – muito trabalho e muito calor. Ninguém me cumprimentou ou telefonou, e quem lembrou não consegui falar (Bedega). O almoço foi bife, já que o “trecho” me fez detestar frango, a outra opção. Por sorte, veio um mesclado de maminha de alcatra com fraldinha - menos mal, podia ter sido pior.
A noite demorava em passar, talvez pelo medo do pesadelo da véspera: de novo eu não me formara e acabara preso por estelionato. Talvez pelo meu inconformismo com os fatos e pela insistência do calor vulcânico e impiedoso.
Em Miracema, só existe uma única estação, o verão e duas temperaturas no ano, superquente e fervendo.
Acabara de salpicar água pelo piso após o segundo banho da noite (sem me enxugar), numa nova tentativa de dormir, enquanto o Marcelo rangia os dentes (bruxismo) e o Vilceu roncava – como, não sei.
Deitado num piso duro, mas fresco, tentava enxergar uma aranha felpuda, daquelas que parecem uma pantufa, que eu vira de dia, sem conseguir matar. Vai que ela se desprende do telhado e cai em mim! O que eu teria feito no passado para penitência de tamanha magnitude? Seria pedra na cruz?
Considerando uma expectativa de vida de 80 anos, ao amanhecer eu teria mais passado que futuro. Foi quando me lembrei, para consolo de uma historinha sobre engenheiro:
“Conta a lenda que, quando Deus liberou o conhecimento de como fazer obras para os homens, determinou que esse saber ficasse restrito a um pequeno selecionado grupo. O tal grupo, denominado Engenheiros, logo se arvorou em cúpula de semideuses, o que irritou profundamente o Criador, levando-o a adicionar os seguintes mandamentos a cada componente da pequena agremiação:
1. Não terás vida familiar ou sentimental;
2. Não verás teus filhos crescerem;
3. Não terás feriados, fins de semana ou nenhum outro tipo de folga;
4. Terás gastrite, se tiveres sorte; se fores como os demais, terás úlcera;
5. A pressa será teu único amigo e tua principal alimentação será o lanche, com sorte um “China in Box”;
6. Teus cabelos ficarão brancos antes do tempo, isso se te sobrarem cabelos.
7. Tua sanidade mental será posta em cheque diariamente e serás considerado insano após cinco anos de trabalho;
8. Dormir será considerado período de folga, logo, não dormirás;
9. Caso insistas, terás sonhos com cronogramas, fluxogramas, startups e, não raro, resolverás problemas nesse período;
10. Trabalho será o teu assunto predileto e único, afinal tu divides as pessoas em dois tipos: as que entendem de obras e as que não entendem.
11. Exibirás olheiras como troféus de guerra;
12. E o pior... Inexplicavelmente gostarás de tudo isso!”

Mais calmo, inexplicavelmente, dormir. A noite foi longa e desconfortável ao extremo. Assim foi minha entrada nos “enta”, em 27 de junho de 1989... Inesquecível!  (alguma duvida?).

Fonte: Minha Vida em Obras, agosto/2013
Autor: Jorge Chaves
Compilação: Walter de Aguiar Filho/ 26 de agosto de 2013

  

Nota do Site 1

PREZADOS COLEGAS
 
LOGO EM SEGUIDA AO AVISO DE LANÇAMENTO DO LIVRO DO PROFESSOR JORGE CHAVES, “MINHA VIDA EM OBRAS”, E A PEDIDO DO SEU GENRO GUSTAVO, CUMPRE-NOS O DOLOROSO DEVER DE AVISAR A TODOS DO SEU FALECIMENTO, OCORRIDO NESTE DOMINGO, 25/08/2013. O SEPULTAMENTO SERÁ NO PARQUE DA PAZ, ÀS 12 HORAS, AMANHÃ, DIA 26/08/2013.
 
ABRAÇOS A TODOS, DO ANÍBAL DE PAULA FERREIRA

 

Nota do Site 2

Caro Anibal,

Recebemos, com tristeza, a notícia do falecimento do nosso professor Jorge Chaves, com quem aprendemos muitos aspectos importantes da matemática, que fortificou um dos alicerces fundamentais de nossa formação e de nossas carreiras.

Ironia do destino que o triste acontecimento se desse ainda a poucos dias do lançamento de seu livro "Minha Vida em Obras", que o eternizará para aqueles que não o conheceram e para nós ficará como uma saudosa memória de nossa juventude.

Por favor transmita à família de nosso estimado mestre, nossos votos de pesar e de conforto.

Um forte abraço,

Michel Fabianski Campos

 

  

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