Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Os carnavais de antigamente - Rubem Braga (1958)

Carnaval - Foto: Walter de Aguiar Filho, fevereiro,2012

Para responder, há tempos, a uma enquete de jornal, fiz um esforço para apurar as minhas primeiras lembranças carnavalescas. Vi-me a mim mesmo e a meu irmão, muito pequenos mas de calças compridas, uma faixa vermelha na cintura, com bigodes e costeletas pintados a rolha queimada... De pouco mais me lembro, mas creio que éramos nada menos que mexicanos. Também tenho uma vaga noção de que cheguei a apache, mas não estou muito seguro.

O que me encantava, e até hoje me seduz no carnaval, era a transfiguração das pessoas. As pessoas grandes, que eu via todo dia em Cachoeiro, sérias, em seus trajes vulgares, de repente viravam piratas, cowboys, esqueletos, cossacos, índios, sultões, mosqueteiros, palhaços, almirantes. De um certo ponto de vista, parece que eu "acreditava" um pouco nas fantasias, isto é, passava a associar aquelas pessoas às fantasias que tinham usado no carnaval, como se essas fantasias fossem a sua verdade secreta. O disfarce era uma revelação, eis o que eu sentia inconscientemente.

* * *

O cheiro dos lança-perfumes, os confetes, as serpentinas, a música, tudo era transfiguração. Para o adolescente tímido, as mocinhas deixavam de ser intocáveis, ao mesmo tempo que ficavam muito mais maravilhosas - ciganas, piratas de coxas nuas, odaliscas, bailarinas, pierretes.

Só no carnaval eu tinha coragem de dançar; ele é a grande festa dos tímidos. Moças que passavam por mim na rua apenas murmurando um "bom dia", com um rápido olhar - que milagre! - no carnaval sorriam, cantavam para mim, olhos nos olhos, se deliciavam com o jato do meu lança-perfume, deixava que eu enchesse seus cabelos de confetes, que as prendesse eternamente com voltas de serpentina - e havia momentos de quase êxtase no tumulto das danças.

* * *

Havia uma instituição espantosa para nossa cidade pudica: era, digamos assim, o carro das mulheres. Naturalmente um grande carro aberto cheio de mulheres fantasiadas, a jogar serpentinas, empunhando bisnagas de cem gramas, pintadíssimas, alegríssimas, passeando escandalosamente no meio da gente e dos carros familiares, entre blocos de mocinhas. E todo ano havia um rapazinho que se embriagava e saía no carro das mulheres. Ia ali abraçado a duas gordas, empunhando uma garrafa de cerveja, enfrentando a censura das famílias, mostrando que já era homem, que era farrista, que era um perdido.

O moço de família que tinha a coragem suprema de fazer essa exibição me parecia um herói do vício. Moças recusavam-se a dançar com ele na noite seguinte, no baile dos Caçadores; era, durante algum tempo, um intocável, um imundo. Mas os homens mais velhos comentavam aquilo sorrindo, com simpatia: rapaziadas...

Fevereiro, 1958

 

Fonte: Crônicas do Espírito Santo, 1984
Autor: Rubem Braga
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2012
Obs.: Este livro foi doado à Casa da Memória de Vila Velha em abril de 1985 por Jonas Reis

Variedades

Dondom

Dondom

Quando as casas da Rua General Osório tinham seus quintais amplos, atingindo o mar, conforme anúncio inserto em A Província do Espírito Santo. (Sim, porque o mar entrava, pela Rua da Vala.) Foi a 25 de novembro de 1887...

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Presidente Castello Branco na Assembleia Legislativa do ES (1964)

Adalberto Simão Nader, discursa: "o honroso título de “Cidadão Espírito-Santense” que vos foi concedido, por iniciativa do nobre deputado Setembrino Pelissari, nos oferece a oportunidade 

Ver Artigo
Em busca de uma resposta - Partido Comunista e as outras esquerdas

O partido acreditava em seu Comitê Central; este, em Luís Carlos Prestes; o Cavaleiro da Esperança confiava em Jango. No final das contas, todos ficaram a reboque de João Goulart

Ver Artigo
Emendas constitucionais no sistema jurídico brasileiro - Por Eurico Rezende

Art. 107. É vedado ao juiz, sob pena de perda do cargo judiciário

Ver Artigo
Partido Comunista Brasileiro e as outras esquerdas

A única solução era salvar o verdadeiro partido comunista. Assim surgiu a cisão que criou o PCdoB. Em fevereiro de 1962

Ver Artigo
O ICM na Constituição Federal de 1967 – Por Eurico Rezende

Do produto da arrecadação do imposto 80% constituirão receita dos Estados e 20% dos Municípios

Ver Artigo