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Os Engenheiros e os homens do risco

Igreja de São Francisco, Vitória-ES

Examinado atentamente os técnicos dos séculos dezoito e dezenove, vemos que eles não foram nem piores, nem melhores de que os que perambularam pelas demais unidades do Brasil. A diferença negativa, a favor do Espírito Santo, resulta da pobreza real de sua população e, logicamente, dos governos, que a conduziram. Não há riqueza pública sem economia particular e vice-versa, porque o fenômeno é reversível. A cidade é espelho que reflete o índice de prosperidade regional, dentro de certo limite. As obras públicas e a iniciativa particular estão em função direta com o poder econômico da população. O conforto, porém, é fruto da educação e da cultura.

O Espírito Santo viveu séculos de pobreza e de ignorância primária, somando-se ao descaso da Metrópole, sua vida econômica e social se atrofiou de modo singular. E a herança histórica acumulada foi, portanto, pequena no campo material. Não se pode culpar tanto os sargentos e os homens do risco. Aqueles, destacados, em comissão, pelos governos, vinham com fins determinados: fortificar os pontos prováveis de desembarque dos estrangeiros inimigos. Não vinham acudir às necessidades urbanas. Nicolau Abreu, que se demorou de 1731 a 36, na construção dos fortins da Vila, ajudou a reconstruir a Matriz. Não soube dar-lhe proporção. José Caldas, passa por ter feito a planta de 1761 de Vitória, quando veio inspecionar-lhe as fortificações.

Os conventos são obras feitas pelos religiosos, que obedeciam aos tipos padrões de suas ordens. O frontão da igreja de S. Francisco foi ornado ou concluído em 1784 com ajuda do bolsinho de D. Maria I. É obra de frade. Em 1928, o padre Leandro Del Uomo obteve, do bispo D. Benedito, o velho convento para instalar o Asilo Cristo-Rei. Meteu-se com mau arquiteto e péssimo construtor a transformá-lo em arquitetura clássica. Foi um horror. O que ali se demoliu e se acrescentou é simplesmente criminoso. Naquelas vetustas paredes repousavam restos mortais de frades ilustres, de personagens históricos, inclusive de Vasco Fernandes Filho. Completou-se o ato de barbárie contra a tradição da cidade, destruindo-lhe os monumentos de sua fundação. Já nada mais lembra aquele ambiente seiscentista do povoamento da ilha. Misericórdia, Colégio e Santiago com suas torres vigilantes, tudo foi abaixo num falso sentimento de “descolonizar” a cidade minúscula, mas heroica. É preciso amar o passado, no que ele encerra de exemplo, de testemunho e ensinamento. Renan, o ímpio, disse: “O verdadeiro homem do presente é aquele que tem o culto do passado”. Do passado, vêm ensinamentos indispensáveis para se alicerçar o futuro. Guardemos avaramente os monumentos, que sobraram ao ímpeto das picaretas mal sucedidas. O Convento da Penha, altaneiro e miraculoso, as igrejas seculares dos Reis Magos, Guarapari, Araçatiba e Anchieta, testemunhas da fé cristã pregada pelos filhos místicos de Loiola. Reverenciemos a Capela de Santa Luzia, imagem viva da pobreza primitiva da “Vila Nova”. Defendamos a igreja do Rosário em Vila Velha na simplicidade de suas paredes nuas. Ali, oraram os Coutinhos, os Menezes, os Azevedos e D. Luiza Grimaldi. Ali, pedia-se a Deus proteção contra os goitacazes flecheiros. Respeitemos as igrejas do Rosário e São Gonçalo Garcia, construídas pelas irmandades dos escravos devotos, a suplicarem misericórdia ao céu pelos padecimentos, que sofriam por terem nascido negros.

 

Fonte: Biografia de uma ilha, 1965
Autor: Luiz Serafim Derenzi
Compilação: Walter de Aguiar Filho, setembro/2012 



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