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Os Holandeses na Penha – Por Adelpho Monjardim

Tela: A visão dos holandeses - Autor: Benedito Calixto - Ano: 1927

Edificado nas culminâncias de elevado monte, o Convento da Penha é das mais veneradas relíquias da gente capixaba. Iniciado por Pedro Palácios, leigo franciscano, em 1558, levou mais de século para ser concluído. Natural de Espanha, Pedro Palácios nos veio de Arrábida, em Portugal, trazendo o santo e milagroso painel da Virgem da Peña, da qual era devoto. Pintura de beleza rara, a tela é de pintor desconhecido. Falam em Ticiano, mas não nos parece verdade.

Terminada a Ermida das Palmeiras, orago de São Francisco, Pedro Palácios ali entregou a alma ao Criador, com foros de santidade.

Altaneiro, no vértice da montanha, tendo por plinto a própria rocha, assemelha-se a um castelo medieval, dos tempos heróicos da cavalaria andante. Alvo, muito alvo, situa-se estrategicamente na paisagem capixaba. Sobranceiro domina a região — as planícies vila-velhenses e a montanhosa Vitória. É a Penha o maior monumento católico da América.

Padroeira do Espírito Santo, a Virgem é venerada por todos os capixabas. Santa dos Milagres, protetora dos pescadores, por eles vela do alto do seu mirante. As suas maravilhas, que à saciedade demonstram a intervenção divina nos destinos humanos, estão materializadas na Sala dos Milagres, dependência do próprio Santuário.

Um dos seus milagres tornou-se lenda, motivo de um dos quadros de Calixto, quadro que se encontra exposto no Mosteiro.

Em 1640, João Delchi, corsário da Holanda, com onze naus e outras embarcações menores, apresentou-se na barra de Vitória. De lá avistou a imponente e maciça estrutura do Convento a destacar-se de encontro ao sereno azul do firmamento. Por certo julgou ser um castelo ou palácio de fadas, com que se espicaçou a sua cupidez inata.

Infiltrando-se barra adentro, vingando ilhas e parceis, ancorou a prudente distância. Só então percebeu tratar-se de pacífico e acolhedor mosteiro, abrigo de tranqüilos religiosos. Protestante, não se sentiu obrigado a respeitar santuário católico e mesmo regozijou-se por não encontrar ali potente força. Pela imponência e beleza esperava encontrar ricas alfaias e farto butim. Desde logo percebeu o despreparo militar da região. Fácil e rendosa seria a operação.

Reunidos os auxiliares, todos foram concordes com o ataque. Dois patachos e uma polaca, transportando cerca de oitocentos homens, abicaram o litoral prontos para o assalto.

Os religiosos só se aperceberam do perigo quando já bem próximos ouviram o alarido que fazia a soldadesca e o tilintar das armas. Ajoelhados em torno da imagem da Virgem, contritos, temerosos, os bons franciscanos imploraram a sua proteção  hora extrema.

O ruído das armas e o vozerio da tropa chegavam nítidos aos monges.

Quando tudo parecia perdido, transmutou-se o cenário. De assaltantes passaram os batavos a assaltados e o pânico propagou-se às suas fileiras. O entrechoque das armas e o surdo pisotear de milhares de pés, em fuga, chegaram aos ouvidos dos religiosos, que assomaram às amuradas. Realizara-se o milagre. Em fuga os holandeses abandonavam o campo.

Eis o prodígio: quando os assaltantes se encontravam a menos de um lanço do Convento, como que saindo das nuvens, eles viram marchar ao seu encontro poderoso exército que os varreria como simples palha ao vento.

 

Fonte: O Espírito Santo na História, na Lenda e no Folclore, 1983
Autor: Adelpho Poli Monjardim
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2016

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