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Os Vieira da Cunha – Por Levy Rocha

Página do Jornal O Martello,

Ao escrever a monografia "Os Vieira da Cunha e o jornal O Martello", procurei me cingir aos três intelectuais redatores e ao pequeno jornal, tão interessante e tão raro, que era feito na fazenda Prosperidade, então pertencente ao município de Cachoeiro de Itapemirim.

É fora de dúvidas que a família Vieira da Cunha merece a atenção dos nossos historiadores, como colonizadora do município do Castelo. No próprio jornal O Martello, ficou registrado que três anos após o 1° fazendeiro do Castelo, Capitão (da Guarda Nacional) Pedro Dias do Prado, se estabelecer na fazenda Duas Barras, o Major (da mesma Guarda) Antonio Vieira Machado da Cunha se fixava, em 1848, na fazenda do Centro, no vale do rio Caxixe.

O nome dos Vieira da Cunha, no Castelo, está intimamente ligado às grandes e velhas fazendas com amplas casas solarengas, senzalas, paióis, armazéns, engenhos ou maquinarias para o trabalho do beneficiamento do café. Lembremos algumas: Prata; Fim-do-Mundo; Pensamento; Desengano; Três Montes ou Trás dos Montes; Conquista; Nogueira e Povoação, da qual se desmembraram outras propriedades: Limoeiro; Macuco; Alpes e Pirineus, também pertencentes a membros da família.

O Marechal do Exército, Tristão de Alencar Araripe, falecido, deixou um trabalho mimeografado, sem data e infelizmente de pouca divulgação, no qual ao tratar da colonização do município do Castelo e suas riquezas minerais, nos fornece alguns traços genealógicos dos Vieira da Cunha.

Mas, voltemos à nossa despretensiosa monografia: são tão nebulosas as informações, tão raros os registros, que no decorrer desses 68 anos do lançamento do 1º número do jornalzinho manuscrito O Martello, é difícil encontrar, hoje em dia, uma pessoa que o teve pelas mãos; que saiba desembaralhar as personalidades dos três poetas, seus redatores e que esclareça a localização da fazenda Prosperidade; essa "tranqüila Atenas Campestre", conforme lembrou Atílio Vivacqua ou escreveu Andrade Muricy, no livro "Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro".

Não fosse o rigor da consciência de pesquisa e eu teria caído no equívoco de Herman Lima, o qual ao biografar o nosso grande caricaturista V. da Cunha, situou a fazenda Prosperidade no "trecho encachoeirado e rumoso" do Itapemirim. Gil Gonçalves se apressou em me socorrer na dúvida, mas o livro já estava pronto: "a referida fazenda fica no distrito de Vargem Alta; é atravessada pelo rio Fruteiras, que forma a cachoeira Alta e é afluente do rio Castelo, o qual, por sua vez, desemboca no Itapemirim."

E vejam como é difícil escrever sobre o passado e coisas importantes que outros escribas deixaram sem registro: Do poeta Carlos Drummond de Andrade recebo a carta (4-11-69) cujos dizeres transcrevo, pois acima da vaidade que me toca, vem o interesse da informação. Assim começa o missivista: "Os jornais manuscritos sempre me seduziram, e as caricaturas também. Por isto, foi com satisfação que recebi seu trabalho: Os Vieira da Cunha e o jornal O Martelo, contendo interessantíssima documentação sobre um dos mais curiosos mini-jornais ilustrados que já se fizeram no interior. Acresce uma circunstância: trabalhei ao lado de Vieira da Cunha, por algum tempo, no porão da Biblioteca Nacional, onde funcionava a seção da Enciclopédia Brasileira, do Instituto Nacional do Livro, e tinha simpatia por ele. Por sinal que, em sua discrição, jamais me revelou os dotes de caricaturista excelentes, que eu admirava através de leitura de velhas revistas cariocas, sem entretanto ligar o nome à pessoa ... "Por mero acaso — prossegue o poeta Carlos Drummond de Andrade — "estou em condições de fornecer ao distinto confrade um esclarecimento sobre a fotografia reproduzida na pág. 15 do seu livro. O grupo não foi tirado em Cachoeiro de Itapemirim, e sim no Rio de Janeiro. Percorrendo, há dias, a coleção da revista "Selecta", pertencente a um amigo meu, lá encontrei aquela foto, e mais duas, feitas na mesma ocasião, todas estampadas no número de 10 de maio de 1919, com a seguinte legenda: "A vida carioca — Correia Dias, o nosso prezado companheiro de trabalho e Vieira da Cunha ofereceram, na sua residência encantadora da Rua da Matriz, um chá à família do prof. Dr. Belisário Vieira da Cunha, no dia do seu aniversário. Como as nossas fotografias deixam ver, as mãos da fada de Correia Dias, aliadas ao bom gosto de Vieira da Cunha, criaram um ambiente de delícias para aquela reunião de intimidade". E o poeta que tanto me honrou com a sua atenção, assim finaliza a carta: "Muito lhe agradeço a boa lembrança de enviar-me o seu valioso trabalho, e mando-lhe, cordialmente, o meu abraço."

Embora o texto da minha autoria fosse propositadamente encurtado para não prejudicar a reprodução fac-similada do farto e rico material que me passou pelas mãos (sem ficar) e estava necessitando de uma urgente divulgação, sei e reconheço que as falhas da revisão foram muitas. O historiador capixaba, Norbertino Bahiense, radicado em Belo Horizonte, com interesse de amigo escreveu-nos, relacionando o que poderia constituir uma errata do livro. Mas, preferindo confiar na inteligência dos leitores, afirmamos, mais uma vez, que a exumação de parte do tesouro foi feita sem medir os sacrifícios e ficamos por aí.

 

Fonte: De Vasco Coutinho aos Contemporâneos
Autor: Levy Rocha,1977
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2015

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