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Ossada Humana - Reportagem do Jornal O Diário, 1912

Reportagem do Jornal O Diário, 1912 - Biblioteca Nacional Digital

Já há dias noticiamos os nossos leitores o fúnebre encontro de uma perna humana que aparecera boiando junto à Ilha do Boi.

Sobre o fato, o “Diário” deu minuciosas informações, envidando para isso o sumo esforço de uma reportagem bem feita e criteriosa.

A policia local fez as pesquisas que julgou conveniente, agindo sempre com o máximo corretismo, abrindo inquérito para desvendar o mistério.

Iam as cousas neste pé quando, ontem, o digno delegado da capital Sr. Tenente Antonio Lino de Souza Matta, recebeu um ofício do delegado de polícia da vizinha cidade do Espírito Santo, comunicando-lhe que havia dado á costa na Praia de Piratininga uma ossada humana.

Ato continuo, a ativa autoridade pensou em partir para o local onde se dera tão lúgubre aparecimento, afim de tomar as providências que o caso exigia, fretando a lancha “Alcides” e nela tomando assento, acompanhado do escrivão capitão Alfredo Cavalcante, do agente de polícia Belmiro Santos e do Sr. Ismenio Santos.

Por uma extrema gentileza da parte do Sr. Delegado, “O Diário” foi convidado para fazer parte da “canoa policial”, destacando para isso o repórter Vasconcellos Rosa.

A uma hora da tarde a “Alcides” zarpou com destino a Piratininga.

Ao se aproximar a lancha da Ilha da Fumaça, uma multidão de covos tovelinhava pelos ares, descendo uns e subindo outros, pousando ora sobre o solo, ora sobre as árvores.

Um pavor imenso apoderou-se de todos. Íamos ver o espetáculo horroroso de um corpo humano espicaçado, carnes putrefatas revolvidas por aduncas garras e esfaimados bicos.

A lancha fez proa para a ilha e foi, podemos dizer, uma agradável decepção o verificarmos que a nuvem de urubus fazia seu repasto numa rez que ali morrera.

Retornamos a “Alcides” que em poucos minutos parava em Vila Velha para receber o delegado de polícia Sr. Capitão Cleto Rodrigues.

Prosseguindo a viagem, já o mar se mostrava bem picado, jogando a lancha com veemência sobre o salso elemento numa dança macabra.

Afim, depois de alguns momentos de bordejos obrigados, avistamos a praia onde devíamos desembarcar.

Entretanto, as ondas cada vez mais encapeladas não permitiam que a lancha se aproximasse da terra.

Colunas d’água recurvavam o abrupto dorso, e a “Alcides”, cavalgando o gigante iracundo, por vezes parecia despenhar-se para os recôncavos que a seus lados se entreabriram num sorvedouro infrene, na voragem indomável de ondas que bramiam de revolta e espumavam de cólera.

Era o belo horrível, que faz vibrarem intensas as fibras mais íntimas do coração do homem, que reconhece nessas horas sua pequenez ante a força dos elementos que se revoltam contra o seu predomínio.

Na incerteza de podermos desembarcar, estivemos por bastante tempo, até que uma pequena canoa veio ao nosso encontro.

Pensamos em passar para a frágil embarcação.

A empresa era arriscada, não resta dúvida, mas o cumprimento do dever, principalmente o de humanidade, impelia-nos a uma resolução definitiva.

Com grande dificuldade saltaram para a canoa, o delegado tenente Antonio Lino, o escrivão Cavalcante, o repórter do “O Diário” e o Marinheiro Manoel Agenor, que logo pegou do remo.

Descrever os prodígios de equilíbrio porque passaram os que iam no frágil batel seria impossível.

Para saltarmos na praia a luta foi medonha: ondas sobre ondas que lúgubres regougavam soturnas canções, tétricas indexas de harmonias que pungiam o peito e lanceavam a alma e a canoa, num vai e vem constante, beijava a área alvacenta e recuava para o mar largo...

E ao longe, enquanto o oceano tremendo revolvia o insolvável mistério de seu seio, rolavam outras ondas sobre longínquas praias, repetindo o eco o sombrio agouro desse lamento sem fim.

A custo, alguns bem molhados, conseguimos enfim saltar na praia.

Alguns passos para o interior e uma tristonha cruz plantada no sopé da escarpa que dá acesso ao Morro do Moreno demonstrava que ali fora enterrado o fúnebre achado, segundo já o comunicara o delegado de Vila Velha.

Então, o Sr. Tenente Antonio Lino e o agente Belmiro começaram a fazer escavações e a alguns metros encontraram um balaio contendo uma ossada humana, faltando, entretanto, uma tíbia.

Juntos, estavam também uma calça de casimira azul, um borzeguim amarelo e um pé de meia de fio de Escócias.

Esse fato era uma prova irrefragável de que a perna humana encontrada na Ilha do Boi, há dias, pertencia aquela ossada.

O estranho achado foi transportado para bordo da lancha, tendo-se feito o embarque com as mesmas peripécias que o desembarque.

Todos a bordo novamente, a “Alcides” aproou para Vila Velha.

Ali os excursionistas fizeram uma pequena parada, sendo recebidos gentilmente em casa do digno cavalheiro Sr. Major Joaquim Vieira da Cunha Mascarenhas, que, com sua exma família, os cativavam com inúmeras atenções.

Depois de alguns momentos, tomamos caminho desta capital onde chegamos a tardinha, sendo a ossada transportada para o necrotério público afim de ser examinada pelo Dr. Arlindo    Sudré, médico legista da policia.

No necrotério compareceram então diversas pessoas que foram unânimes em afirmar que a calça, o borzeguim e a meia ali depositados, pertenciam, de fato, a malogrado ex-praça do exército, de nome Sebastião, que há dias morrera afogado na Bahia desta capital.

Estavam, pois, confirmadas as previsões do “Diário”, que sobre o caso vem fazendo a mais perfeita reportagem.

É digna dos mais justos encômios a maneira altamente sabia porque tem andado a nossa polícia nessa intrincada questão.

A ela, pois, nossos parabéns pelo feliz êxito de suas criteriosas diligências.

 

Fonte: Jornal O Diário, Ano VII nº 169 – Vitória, domingo, 23 de junho de 1912
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2016

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