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Patrimônios Históricos em abandono – Por Levy Rocha

Monumento à Vasco Fernandes Coutinho, que atualmente se encontra na Praça dos Namorados. Há pouco tempo sua efígie foi roubada.

Digna de louvores a temática do II Simpósio de História, realizado, em Vitória, em outubro de 1974. Mais do que oportuno o destaque ao que vem ocorrendo com o Patrimônio Histórico do Espírito Santo, sujeito ao abandono e à destruição. Foi destacado o desleixo pelos arquivos municipais, incúria que levou à perda a documentação dos municípios de Santa Teresa e Muniz Freire, queimados como papéis imprestáveis, por ordens de autoridades locais, bem como o desaparecimento de grande parte do arquivo da igreja de São Mateus, destruído por incêndio, em 1949.

A desídia - diga-se de passagem - vem de longa data, mas não constitui uma peculiaridade dos capixabas.

Contou-me o diretor do Museu Parreiras, de Niterói, que certa vez, o historiador Alberto Lamego deparou, inesperadamente, dois caminhões que estavam sendo carregados de papéis velhos, destinados à remoção, da Prefeitura Municipal de Campos, para o monturo do lixo, onde seriam incinerados. O historiador fluminense se transtornou. Num inflamado discurso, fez parar o trânsito, na rua, e conseguiu sustar o gesto vandálico, mas ficou prostrado pelo desencanto, chegando a cair doente. Quando ele escolheu a Biblioteca Pública de São Paulo para ser a compradora do seu acervo de história, colecionado em andanças pela Europa, quis estar seguro de que a rica documentação estaria preservada, para o futuro.

Estou, agora, pensando como três painéis de azulejos de quatrocentos anos, da Sé de Olinda, em Pernambuco, escaparam da destruição. O museólogo Simoens da Silva, ao visitar a velha Sé, em 1914, espantou-se com o estado de ruínas, vendo caídas duas paredes mestras da igreja e se estarrecendo com a prática de tiro-ao-alvo, feito por desocupados da cidade que apostavam atingir, com pedradas, os quadros de azulejos barrocos que eram, em grande parte, quebrados e derrubados ao chão. Com permissão do Arcebispo, após muitas horas de paciente trabalho, o Prof. Simoens conseguiu recompor, completos, três quadros, dentre mais de vinte que existiram e foram considerados irremediavelmente perdidos.

Em Goiás Velho, soubemos como desapareceu um grande bloco de pedra, monumento monolítico da natureza, que balançava e se mantinha em equilíbrio, constituindo verdadeiro marco turístico da região: um anônimo boçal, explodiu uma dinamite, na base da pedra, fazendo-a se desprender e rolar serra abaixo.

Em Conceição do Castelo, o saudoso amigo Mário Pizol contou-me que foi achado, na mata, um velho arcabuz, do tempo do Aldeiamento dos Afonsinos, quando os soldados pedestres do Quartel se defrontavam com os índios bravos que procuravam impedir o trânsito da estrada do Rubim. O dono do achado, ao invés de guardar valiosa peça de museu, pôs em prática outra idéia: encheu o cano do trabuco de pólvora socada; amarrou-o num tronco de madeira e lançou fogo ao “estropício”, reduzindo-o a mil pedaços, com a singularidade de não ser atingido pelos estilhaços...

Afinal, valho-me duma noticia alentadora, para fecho dessa crônica. A Casa do Capão do Bispo, ex-sede duma propriedade rural que compreendia toda a freguezia do lnhauma, no Estado do Rio, e estava há mais de trinta anos transformada em cortiço, foi recuperada pelo Patrimônio Histórico da Guanabara, tornando-se a sede do Museu de Arqueologia. Eis um belo exemplo, a ser seguido em nosso Espírito Santo.

 

Fonte: De Vasco Coutinho aos Contemporâneos
Autor: Levy Rocha,1977
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2015

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