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Pedra da Cebola - Fábio Luiz de Oliveira Barros

Praia de Camburi - Tela do Artista Plástico Wagner Veiga

A mudança foi quase que radical: o apartamento onde morávamos, na Vila Rubim, não era nosso e, já que tínhamos recebido a resposta do fim das reformas do apartamento que compramos, a transferência era inevitável. O ano era de 1975, iríamos agora para o distante bairro de Jardim da Penha; distante não só pela sua posição, mas também em função do seu difícil acesso: era angustiante esperar o “Penedo” por longas horas e, mais sofrível ainda, dividi-lo com as dezenas de pessoas que também o esperavam.

A princípio tudo me fascinou: o bairro era próximo à praia, tinha uma floresta imensa ao lado do meu prédio e, mais ainda, a companhia de outras crianças para dividir aquilo tudo comigo, pois, até então, as únicas oportunidades que eu tinha para brincar eram no Parque Infantil Ernestina Pessoa ou no Parque Moscoso nos finais de semana, já que era impossível e perigoso brincar nas ruas da Vila Rubim em função do tráfego de ônibus que por ali passavam.

Não tardou para que eu descobrisse as trilhas no meio do mato com os amigos que acabara de fazer. Minha mãe ia à loucura quando me via sumir de suas vistas e reaparecer horas depois todo cortado de colonhão e sujo até a alma. Foi exatamente numa dessas fugidas que pude apreciar pela primeira vez, por entre o matagal que me cobria, dada a minha idade, a imponência e estranha beleza daquela pedra, caprichosamente esculpida pela natureza em forma de cebola, em cima de um pequeno pedestal rochoso, revelando a perfeição da Mão Divina; a densa mata que a cercava passou a servir de refúgio secreto e lugar das mais deliciosas brincadeiras da minha infância.

Perto dali existiam duas enormes lagoas que, anos mais tarde, seriam aterradas para a construção do Parque Residencial Universitário, P.R.U. A desculpa para o aterro era a existência de esquistossomose em suas águas, fato de que discordo até hoje, pois vivia dentro da lagoa. Aliás era ali de dentro, observando a mata a meu redor, que criava várias estripulias. Uma delas reunia todas as crianças do bairro num conflito fictício por entre o mato daquele morro, e uma coisa que tínhamos de vantagem: a nossa turma conhecia todos os caminhos que existiam por ali, e isso nos proporcionou muitas risadas, já que assistíamos dos nossos “pontos  de observação” nossos rivais caindo em nossas armadilhas feitas com urtiga.

Aquilo era fascinante e pairava na minha cabeça a idéia de fazermos da Pedra da Cebola o nosso “quartel-general” e convocarmos todas as outras turmas para uma disputa territorial; com isso, passávamos o dia inteiro correndo por entre a pedreira que outrora existiu naquele local e, volta e meia, nos escondendo nas grutas que tinham por ali. Essas brincadeiras duraram vários anos e, quando já éramos todos amigos, íamos brincar de “polícia e ladrão” nos mesmos moldes de nossas antigas “brigas”.

A pedra assistia a tudo e nós retribuíamos a sua atenção ao final da tarde, quando subíamos todos para apreciar o sobe-e-desce dos aviões, que passavam tão perto de nossas cabeças; quando não fazíamos isso, descíamos até o pé da pedreira no local chamado  de “Cemitério de Vidros”, onde arremessávamos os pedaços em direção ao paredão e ficávamos curtindo quando explodiam em mil pedaços.

Ah, quando pôr-do-sol assisti sentado ali naquela pedra junto com os amigos, para depois sair correndo para casa antes que nossas mães ficassem à nossa procura. Tenho saudade de tudo que ali vivi e, recentemente, quando retornei ao local, não agüentei e chorei: no antigo vale do “Cemitério dos Vidros” vêem-se as casas por toda a parte, e senti falta das corujas que lá habitavam. No lado sul do morro erguem-se agora edifícios e  põe-se fim ao que restou do nosso “quartel-general”, e a Pedra, resistindo heroicamente ao avanço do progresso, continua ali, assistindo a tudo. Provavelmente sente falta de nossas risadas e gritos, provavelmente, como eu, chora a falta das corujas; mas está lá, como representante de um tempo não muito longe, e que por ter marcado diversas vidas, vive hoje na memória de todos que, com certeza, esperam que ela permaneça ali para toda a eternidade.

 

Fonte: Escritos de Vitória, 1995
Autor: Fábio Luiz de Oliveira Barros
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro de 2014

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