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Personalidades do Espírito Santo - Guilherme Santos

Guilherme Santos

Dizem que o dinheiro não dá felicidade. Mas a verdade é que a pobreza dá menos ainda. A pobreza, a riqueza, o poder, a solidão, a festa continua, o trabalho, a vagabundagem, na verdade tudo tem sido experimentado pelo homem e tudo tem falhado em sua busca de felicidade. Talvez a felicidade seja a própria busca...

Assim, provavelmente, pensou GUILHERME SANTOS, quando expressou sua concepção de riqueza, afirmando que na vida não se vence, se luta; e se forem propícias as coisas, o individuo consegue ficar rico e ficar rico e vencer. No regime em que vivemos vencer é utópico. Ter sorte, parente que empurra, loteria esportiva, enfim qualquer coisa que o jogue na frente do outro. Se o outro não venceu ou se não ficou rico, também é um alimento útil à comunidade e da comunidade deve merecer todo respeito. O dinheiro, diz ainda GUILHERME SANTOS, não é só importante. Na sociedade em que vivemos é importantíssimo. Em um país onde as classes são distinguidas pelos bens materiais que possuem ser rico é ter todas as portas abertas, sendo ele um salafrário, ou não. Ser rico na sociedade capitalista é o grande sonho, acalentado por todos, e os que ficam na estrada, esticam as filas das loterias esportivas na ânsia de ser um dia um Dudu da Loteca.

Como pode ver, o realismo é a principal característica deste vilavelhense, nascido em 21 de janeiro de 1916, filho de Felintho das Neves Santos e Ormezinda Ferraz Santos.

GUILHERME SANTOS fez o curso primário na Escola Masculina da cidade do Espírito Santo (era assim que se chamavam as escolas naquele começo da década de 1920).

Depois fez o curso de admissão à Escola de D. Júlia Pena. Em fins de 1926, prestou exame de admissão para o Ginásio Espírito Santo, do qual era Diretor o Dr. Luiz Adolpho Thiers Veloso. Em 1927 cursou o primeiro ano ginasial, tendo concluído o curso em 1931. Ingressou na Faculdade de Direito do Espírito Santo em 1936, tendo colado grau em 27 de Dezembro de 1940. Foi à primeira turma de uma Escola Superior reconhecida no Estado.

Entre suas recordações mais carinhosas, ele guarda a lembrança de seus amigos da época, quase todos falecidos, crianças pobres que o tempo fez com que se apagassem de sua imaginação. Dos seus pais, lembra-se que o velho tinha uma venda, antes um bar. Haviam chegado de Boa Família (Itaguaçu) e ele chorava nas noites que o vento Sul Rugia; noites escuras de uma infância que se não fosse à bola de meia, não teria havido. Infância de criança pobre de pernas finas e coração sensível.

Vivia os sonhos da juventude em Vila Velha, quando em 1927 foi estudar no Júlia Pena. Menino crescido, com 11 anos, pegou o bonde com seu uniforme da gabardine e foi recebido pela diretora com olhar severo. Lá estavam Gil Veloso, Dinah Almeida, Oswaldo Aguirre, as irmãs Samorini, Lauro Miranda, Nair Lacourt e tantos outros. Nunca conseguiu esquecer a emoção que lhe causava cantar o hino antes de entrar nas aulas. Derretia-se todo, com voz inflamada como quem vai para a guerra, entoando as estrofes.

Seu grande amigo na época foi o inesquecível ANTONÔNIO GIL VELOSO. Depois do exame de admissão, ele e Gil cursaram juntos o ginásio. E de tal forma se fortaleceu aquela amizade ao longo do tempo, que GUILHERME SANTOS e GIL VELOSO jamais puderam se separar. Eram amigos constantes de confidências e de lutas políticas. Tanto que, a morte do amigo provocou profunda tristeza e uma grande melancolia na alma sensível de GUILHERME SANTOS. Foi, então, que ele escreveu no “Jornal de Vila Velha”, em 15 de março de 1966, a crônica intitulada “GIL VELOSO”, seguindo-se outra crônica publicada em 15 de abril de 1966, no mesmo jornal, sob o título “Carta para o Céu”. Ele começava a primeira dizendo: “Lembra-se Gil da nossa Vila Velha antiga? A Prainha, a Curva do Bonde, o Cercadinho, o Flexal, a Praia da Costa, Maxambomba, o Luar, o Vento Sul, e nós pelas ruas descalçados, camisa aberta por fora das calças, livres e felizes... Éramos todos meninos. Você, eu, Totônio, Sílvio, Romero, Licurgo, Barrica, Manduca, Pachico, Euclides, Chiquinho, Arabelo e tantos e tantos outros que brincavam na barra, jogavam futebol, nadavam e nas noites enluaradas corriam pelas ruas e se escondiam nas esquinas para gritar ao outro grupo. Vitória!!! Como vai longe e como crescemos depressa. Isto foi ontem. E hoje, você e muitos outros já foram, um dia nos encontraremos para novamente gritar Vitória!!!”

Na outra Crônica, comenta GUILHERME SANTOS: “– As notícias, Gil não são boas. O povo continua infeliz. Tudo subindo, até caranguejo que nós apanhávamos sacos no rio da Praia da Costa, foi tabelado pela SUNAB. Veja você, caranguejo tabelado em Vila Velha. A célebre solução do Professor Roberto Campos não aparece, tudo subindo, subindo e subindo. Mas, deixemos isto pra lá e falemos da nossa politicazinha da Província. A Arena teve dois candidatos para a assembléia Legislativa, os nossos amigos Bino e Zé Moraes, ambos pertencentes aos quadros do partido, discute pra cá discute pra lá e o Zé Moraes ganhou. Dizem que ganhou na raça, pelos velhos métodos políticos.“E lamentava: Não estou achando muito bom este negócio de só temos dois partidos. “O bom mesmo era a nossa velha UDN lutando contra o PSD e despontando os partidos do povo, conduzidos pelas legendas do PTB e do PSP”.

As imagens do passado falam bem alto nas recordações de GUILHERME SANTOS e, ainda sobre a sua vida escolar, ele relembra com orgulho o discurso que fez para o Secretário da Educação, Dr. Ubaldo de Ramalhete, levado pela sua Professora Assisolina de Assis, que havia substituído o Professor Ernane, transferido para a Escola Modelo. No dia seguinte, o “Diário da Manhã” publicou seu discurso decorado com tanto orgulho. Entre suspiros de saudades, ele recorda Vila Velha de sua infância, dos banhos de mar e da pescaria de siri, do futebol de rua, quebrando vidraças e correndo dos soldados da polícia que queriam lhe tomar a bola. Vila Velha das hóstias que ele fazia no Convento da Penha, dos carapitos que vendia, das missas que ajudava para ganhar um ou dois mil réis, das noites frias com o vento batendo nas janelas e sua mãe esperando pelo marido. Vila Velha que tanto amava que o viu nascer, crescer, e que um dia vai esquecer seu filho a que tanto a tem amado e venerado.

Em 1930 o 3° BC em pé de guerra, só se falava na Coluna Amaral, que já havia tomado Baixo Guandu, onde a polícia tinha oferecido séria resistência. E lá vinha a Coluna, tomando as estações da Estrada de Ferro por telefone. Em Vitória só se ouvia falar em guerra. Em Vila Velha, GUILHERME SANTOS ouvia os comentários de que a Coluna continuava avançando. Caiu Colatina, estão em Pau Gigante. Na Capital e Vila Velha as forças do Governo embaladas, anunciam que vão dinamitar a Ponte. O Governo vai reagir. Mas tudo deu em nada. O Governador fugiu embarcando num navio que se achava no porto. O Comandante do 3°BC, Cel. Flávio, embarcou em outro navio ao largo de Piratininga e a Coluna desfilou pelas ruas de Vitória e Vila Velha, todo mundo de lenço vermelho no pescoço, embora alguns adesistas de última hora, dizem, só o tivessem colocado depois de descer do muro onde guardavam para que lado fosse pender o triunfo.

1932-1933-1934. GUILHERME SANTOS tem agora 18 anos e precisava trabalhar. Um escritório comercial em Vitória acolheu-o com o ordenado de 120 cruzeiros por mês.

Em 1936, Getúlio Vargas dissolve o Partido Comunista. Ocorre uma revolta nos Campos dos Afonsos e com os aviões destruídos e os oficiais expulsos da aviação, o governo abriu concurso para novos oficiais. GUILHERME SANTOS se inscreveu. Viajou para o Rio sozinho. Apresentou-se no Ministério da Guerra e foi mandado para o Campo dos Afonsos onde prestou exame e foi reprovado. O Brasil perdia, assim, um grande futuro aviador que, por sinal, até hoje tem confessado medo de viajar de avião.

Transcorre o ano de 1945, GUILHERME SANTOS viaja para o Rio, via Belo Horizonte, com seu irmão ANTÔNIO. Iam apanhar um caminhão que tinha adquirido em São Paulo. Nesta viagem seu irmão faleceu num acidente até hoje inexplicável para ele. Saíram os dois vendendo saúde e somente ele regressou cheio de vida. Seu irmão retornou num ataúde pelo trem da Leopoldina. Foi uma dor muito grande para GUILHERME SANTOS, que resultou numa grande e permanente saudade.

Casou-se em 1942, em Adélia, aquela mocinha de olhos claros que conheceu em 1938. Foi um episódio um tanto ou quanto inusitado porque, tendo que ir ao Rio buscar dinheiro para uma serraria que havia arrendado de um alemão transformado em “persona non grata”, devido ao afundamento de navios brasileiros por submarinos alemães, perguntou a Adélia Zamprogno, sua noiva, se queria casar com ele no domingo. Ela disse que sim, e GUILHERME telefonou para Beraldo, dono do cartório de Registro Civil de Vila Velha, para saber se podia casá-los domingo cedinho, dia chuvoso, a cuja cerimônia compareceu apenas seu irmão Floriano, Totônio Sobrado, e Nely.

GUILHERME SANTOS, além de criador de gado leiteiro e para corte, alia sua atividade pecuária à sociedade na firma G. Santos, Irmãos Ltda., no ramo do comércio de imóveis. É também plantador de café Conilon e cultura branca. Foi fundador da federação das Indústrias do Espírito Santo, primeiro representante no Estado na Confederação Nacional da Indústria nomeado pelo Dr. Lídio Lunard, quando teve oportunidade de colocar a pedra fundamental do SENAI, sendo o seu fundador. Nomeado em 13 de janeiro de 1961 suplente para o Conselho Administrativo da Escola Técnica Federal do Espírito Santo, assumiu o cargo logo após por renúncia do titular. Nomeado conselheiro da mesma Escola pelo Sr. Presidente da República, General Costa e Silva, em 9 de outubro de 1967, representou no Conselho a Indústria, função que exerceu até abril de 1980, tendo sido reconduzido por vários períodos. Foi presidente do Instituto de Bem-Estar Social no biênio 57/58 e Diretor da Imprensa Oficial do Estado no período de 1960 a 1964.

Em suas atividades políticas possui os seguintes registros: Presidente do Diretório Municipal da UDN de Vila Velha, no período de 56/57; membro do Primeiro Diretório Estadual da ARENA; candidato a Vice-Prefeito de Vitória pela UDN em 1959; candidato a Deputado Estadual pela ARENA em 1964; foi apontado duas vezes para ocupar a Secretaria da Fazenda no Governo de Francisco Lacerda de Aguiar, pela UDN. Seu nome foi lembrado no Governo Christiano Dias Lopes Filho, para ocupar a Prefeitura de Vitória, pela ARENA.

 GUILHERME SANTOS possui as seguintes medalhas e recebeu as seguintes homenagens: medalha de bronze em comemoração ao 25°aniversário do SENAI; plaqueta de prata e diploma alusivo a data pelo 25° Aniversário da Federação das Indústrias do Espírito Santo; no Governo Asdrúbal Soares foi homenageado com seu nome, num grupo escolar do Bairro Santa Ignez, em Vila Velha; o Prefeito Américo Bernardes de Vila Velha deu o nome de GUILHERME SANTOS a uma das praças do IBES; foi agraciado pelo Ministério da Educação e Cultura, por indicação do Governo Federal através da Portaria n° 1.245, de 28 de dezembro de 1979, com a medalha “Nilo Peçanha”, pelos relevantes serviços prestados à causa da Educação.

Tendo começado muito cedo a enfrentar a vida e o mundo, GULHERME SANTOS nunca se deixou apanhar desprevenido. Com 10 anos já trabalhava e hoje, com mais de 60, olha para trás e pouco sente que lhe traga doces ou amargas recordações. Seqüência natural, para ele, dos muitos episódios que foram se sucedendo sem nada de fantástico ou deprimente.

Cita como seus amigos, muitos falecidos, Carlinhos Lima, do qual sempre ouvia a seguinte frase: “Quando se vê uma promissória voando se apanha para avalizar”. Ele morreu como o irmão do próprio GUILHERME SANTOS estupidamente, mas seus filhos continuaram sua obra. Arruda, compadre, do qual guarda grandes recordações. Dos vivos, cita Totônio Sobrado, alegre, inteligente, radicalmente da oposição, funcionário aposentado do Banco do Brasil e incorruptível.

De Cachoeiro trouxe a lembrança de Eliário Imperial e Edson Moreira. Gênios completamente diferentes. Mas de todos os seus amigos, o maior foi, indiscutivelmente, Antônio Gil Veloso, com quem repartiu seus bons e maus momentos e até suas coisas pessoais.

GUILHERME SANTOS diz que não é nem seria ambicioso, se não fosse parecer cair no lugar comum, onde a vaidade é um apanágio. Seu grande desejo é que todos pudessem morar em casas condignas, tivessem um leito para dar a luz ao seu filho, que todo doente tivesse uma cama para se tratar, que toca criança tivesse seu emprego garantido no futuro, que todos os homens, mulheres e crianças, fossem felizes e o dinheiro não fosse propriedade de meia dúzia para milhões continuarem amargando na miséria, do leito ao catre de nascimento à velhice, às vezes prematura, num casebre infecto, ou em prisões medievais, onde tudo é dor. Gostaria que houvesse mais amor entre as criaturas e mais benevolência daqueles que detêm o Poder.

Finalmente, para GUILHERME SANTOS, um homem que soube fazer de sua vida um exemplo para as novas gerações, o futuro é uma utopia. O que há mesmo é o presente. Lutamos para subsistir. Esta coisa de amanhã, diz ele, é mais uma sutil maneira de nos convencer que hoje está ruim, mas, amanhã, poderá melhorar. Apenas este amanhã não vai chegar nunca. Os jovens devem lutar PARA MELHORAR SEU DIA DE HOJE. Amanhã é a sutileza dos privilegiados para enganar os pobres de espírito. Em se deixando mensagem, caímos no vazio, porque o amanhã será sempre igual à hoje.

 

Fonte: Personalidades do Espírito Santo, 1980
Autor: Maria Nilce
Compilação: Walter de Aguiar Filho, Outubro/2013 

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