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Professor Irênio – Por Elmo Elton

Praça da Independência - 1920

Chamava-se Irênio Carneiro. Professor concursado, lecionou em Benevente (hoje Anchieta), onde nascera. Vi-o, a vez primeira, pelos idos de 1934, na Praça Costa Pereira (ex-Praça da Independência), então, como já disse, ponto de reunião noturna, sobretudo aos sábados, domingos e feriados, da melhor sociedade vitoriense. Irênio, chegado do interior, ainda moço, de boa estatura, elegante, cabeleira basta, ali apareceu num domingo, trajando terno branco, larga gravata de pintor, empoadíssimo, todo ele a despertar curiosidade e escândalo.

Em dado momento, indiferente à zombaria dos que se achavam na praça, subindo o primeiro lance da fronteiriça escadaria da Ladeira da Pedra (onde, mais tarde, foi construído o Edifício Antenor Guimarães), abanando-se com vistoso leque e atirando beijos, fez dali, voz alta, uma saudação aos habitantes da ilha, despedindo-se em seguida, já que, na segunda-feira, retornaria a Benevente.

Passado algum tempo, mudou-se para Vitória, fixando-se na Ladeira Professor Baltazar, onde escandalizava (ou divertia?) a vizinhança, porque sempre metido em transparente peignoir, de chinelas de salto alto com pompons, o quarto mobiliado ao gosto feminino, janelas acortinadas. Verdade que pouco saía de casa, mas, em indo ao centro da cidade, tantos seus requebros, salamaleques e convites estranhos aos rapazes, que toda a Praça Oito fazia de seu nome o alvo das maledicências do dia.

Assim que Violeta Coelho Netto de Freitas (filha do escritor Coelho Netto) cantou, com grande sucesso, a ópera Madame Butterfly, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Professor Irênio, no carnaval do ano seguinte, fantasiou-se de Madame Butterfly, usando quimono de seda, oriental, adquirido em navio aportado em Vitória, cabeleira alta, presa com longos grampos, a maquilagem perfeita, abanando-se com ventarola chinesa. Em meio à multidão escandalizada (os travestis ainda não estavam em voga), ei-lo ora trinando trechos da ópera famosa, ora cantando a marchinha de "Lá vem o seu China na ponta do pé", tudo com tamanha novidade e não menor ridículo, que logo se tornou a figura mais comentada da festa momesca.

Depois desapareceu de Vitória, ou porque voltasse a lecionar, no interior, ou porque internado em alguma casa de saúde, mas aqui se radicando, definitivamente, a partir do começo da década de 50. Era, contudo, já outra pessoa, muito magro e envelhecido, embora sempre folião. Não perdia carnaval. Vestia-se de noiva, de véu e grinalda, sapatos brancos, de salto alto, buquê na mão, cantando e bisando letra e música que diziam de sua autoria:

“Oba, oba, oba, você está crescendo, está ficando boba.

Toda frajola, passeia a pé. Vai dando bola e vai chupando picolé.”

Recordo que, certa vez, o vi num dos carnavais do Rio, fantasiado de "rainha do mar." A fantasia era uma tarrafa velha, com apliques, em paetê, de conchas, estrelas e cavalos-marinhos, feíssima, mais pondo em evidência sua magreza e decrepitude.

Dizem, os que o conheceram mais de perto, que gostava de comemorar, com danças e bebidas, sua data natalícia, assim como as festas juninas. Fosse São João ou São Pedro, enfeitava a rua onde residia, na Vila Rubim, com folhagens e bandeirolas, soltava balões e queimava fogos, distribuindo aos presentes doces típicos, jenipapinas e cestões de tangerinas. Gostava, também, de cantar (tinha voz agradável) e de promover serenatas. Tocava piano e violão.

Criou, nos últimos anos, alguns casos com a Polícia (possivelmente por questões de menor importância), de quem recebeu, em troca, imerecidas surras, daí, segundo consta, advindo a causa de sua morte.

 

Fonte: Velhos Templos e Tipos Populares de Vitória - 2014
Autor: Elmo Elton
Compilação: Walter Aguiar Filho, fevereiro/2019

Literatura e Crônicas

Ainda há sol, ainda há mar - Por Rubem Braga

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Dezembro, 1999 (um ano antes da morte do cronista). Publicado no livro “Um Cartão de Paris”

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