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Quando o Penedo falava, 1927 - Por Elpídio Pimentel - Parte IV

Capa do Livro: Quando Penedo falava, 1927 - Autor: Eupídio Pimentel

Terceira Narrativa – Regime Republicano

Oito horas da manhã. Glauro, no quintal com as suas ferramentas de “carpinteiro”, cercado de seus irmãozinhos e favorecido pela cozinheira, infinda achas de lenha e cobre-as de taboas, fingindo, uma casinha para o Garoto – um cachorro branco, peludo e amoroso. Para lá também vai o avozinho e à sombra de uma árvore, numa cadeira de balanço, “passa os olhos” pelo Diário da Manhã, dá uns três cochilos, mas logo desperta com o netinho a passar-lhe, de manso, na orelha, uma palha seca.

- Está parecendo que o senhor, hoje, não quer continuar a contar-me a nossa história. E eu que já queria lhe perguntar por que é que o desembargador Afonso Cláudio foi o primeiro governador do Estado do Espírito Santo... Então, antes dele que é que houve?

- Houve a província do Espírito Santo. Para compreensão dessa mudança de apelativo tens que ouvir a seguinte explicação: Nosso Estado, é uma das partes menores de um grande país, formoso, rico e próspero, destinado a ser, em pouco tempo, uma das mais poderosas e ilustres nações do mundo. Esse país é o Brasil, a nossa estremecida pátria, que se reparte em vinte porções semelhantes ao Espírito Santo, todas desiguais em tamanhos e populações, mas com os mesmos hábitos, a mesma língua, os mesmos desejos de progresso, amigas entre si, e prestando obediência a um chefe supremo, que é o Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil. Todos têm vida própria, independente, autônoma...

- Não entendo.

- São senhores dos seus próprios atos, governam-se sozinhos, sob a responsabilidade imediata dos seus chefes máximos, que são – como já sabes – os Presidentes de Estado. As pessoas, que nascem neles, são nossas compatrícias, são brasileiras, como eu, tu, teu pai, teus irmãozinhos...

- Mas... eu sou capixaba!

- Sim; és espírito-santense ou capixaba e fazes bem em te ufanar desse título, mas, acima de capixaba, és brasileiro, como os outros que também o são, por sua vez, amazonenses, baianos, cariocas, etc...

- Agora compreendo o motivo por que a minha professora, na aula de ontem, mostrou ao Joãozinho o erro de afirmar que é pernambucano, quando lhe perguntam se é brasileiro... E ela, depois, para que tivéssemos uma idéia mais exata do Brasil, com os seus Estados, comparou-o á nossa escola, com as suas numerosas classes.

- Muito feliz essa comparação; mas, agora, ouve o resto do que te estou dizendo: Até o ano de 1889, não havia esses Estados independentes, emancipados, vivendo dos seus próprios recursos. Até então o Brasil se chamava Monarquia e era governado por um Imperador, com poderes amplos sobre as suas divisões, que se chamavam Províncias. Naquele tempo, os brasileiros mostratam-se desgostosos, porque os anos se sucediam e estava no poder o mesmo homem, não permitindo que ninguém, a não ser os filhos dele, por herança, pudesse substituí-lo.

- Então os filhos do Imperador, quando ele morreu, herdaram o Brasil, como o meu tio Pereira herdou aquela casa grande, na “Fazenda Rio Negro”?

- Exatamente; mas o Imperador não chegou a morrer, governando nossa pátria, porque os brasileiros, sabendo que sob a forma de República, todos os cidadãos dignos podem subir as mais altas posições de mando, se revoltaram e lhe acabaram com o grande privilégio – a Monarquia – estabelecendo, em seu lugar, o governo republicano, tal qual o tempo nos nossos dias. Essa grande mudança influiu profundamente na vida das Províncias, dando-lhes a liberdade de possuírem, sob o nome de Estados, as suas constituições, os seus regulamentos, as suas leis. Aqui, no Espírito Santo, também foi brilhante e animado o grupo dos liberais, das pessoas que se empenharam na luta contra a Monarquia, em favor da República. Alguns desses vultos já morreram, mas outros ainda estão vivos e conheces alguns deles, como o desembargador Afonso Cláudio, o doutor Antônio Aguirre, o coronel Wlademiro da Silveira, o senhor João José Domingos Ramos e muitos outros mais. No nosso Estado, se nos lembrarmos do heróico espírito-santense Domingos José Martins, poderemos dizer que a idéia republicana surgiu oitenta anos antes de sua proclamação.

Tivemos muitos clubes e núcleos, onde os propagandistas se reuniam para as suas conferências, em prol da República. O mais antigo de todos foi o clube dos preparatorianos do Atheneu Provincial, instalado em 24 de junho de 1879. Além daquelas figuras, que te apontei, ainda devo pedir-te que não te esqueças dos nomes de Bernardo Horta e Antero de Almeida, já mortos, que muito fizeram em favor da Republica e são conhecidos, todos eles, pela honrosa denominação de – republicanos históricos.

- Ah! Meu bom avozinho, já e estou desgostando de suas histórias, porque se estão complicando muito. Deixe o resto pra amanhã.

- Sim, tens um pouco de razão; continuaremos mais tarde, quando te fartares dos teus folguedos; quero, porém, que não te esqueças da lição de hoje, lembrando-te que temos prosperado muito nos trinta e seis anos de nossa vida republicana.

- Então, antes daquele tempo, não tínhamos o que possuímos hoje?

- Não. E, por meio de cuidadosas comparações, já te certificarás do nosso grande progresso atual: em 1889, tinha a Província do Espírito Santo 135.997 habitantes – agora tem 457.328; em 1889 a riqueza da Província chegava a 636:765$000 – hoje vai a mais de 30.000:000$000 por ano; em 1889, temos mais de 500; em 1889, a água era escassa e apanhava-se nas fontes e chafarizes; hoje, todos temos, em nossas casas, água abundante e encanada; em 1889, finalmente, não havia higiene pública, as casas tinham aspecto colonial, as ruas eram sujas, escuras e mal calçadas. Hoje, somos merecedores de atenção e estima; temos o conforto das cidades civilizadas – água, luz, higiene, ruas calçadas e iluminadas a eletricidade, telefones, bondes elétricos, palácios, cinemas, automóveis, belos edifícios e um grande número de capixabas ilustres na política, nas letras e nas artes...

- Isso não é façanha, porque também sei fazer artes.

- Bem sei que as sabe fazer, e quantas vezes, por causa delas, te tenho livrado da palmatória raivosa... Mas não falemos de coisas más, vai brincar.

- Sim senhor. Agora ainda estou mais contente de ser capixaba, sem me esquecer também sou muito brasileiro... Amanhã, hei de continuar a ouvi-lo atentamente, para que o senhor me diga o que se fez no nosso Estado, quando o Brasil era governado pelo Imperador. Depois, em pagamento, o senhor me fará uma vontade: deixará que eu vá galopar um dos cavalinhos do carrossel.

- Perfeitamente; ficamos combinados.

 

Fonte: Quando o Penedo falava, 1927
Autor: Elpídio Pimentel
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2015

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