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Quarta-feira no Parque - Por Maria Helena Hees Alves

Parque Moscoso e o Chafariz quando tinha água, 1936

Depois de muitos anos, volto ao Parque Moscoso. Ele já não é o parque aberto de antigamente. Ganhou portões e grades e perdeu o primitivo traçado.

Passo pela roleta, caminho pelas alamedas, atravesso uma pontezinha antiga, sigo em frente.

Poucas pessoas no Parque. A auto-pista sem crianças e os carros de pipoca e sorvete sem fregueses. Chega vazio um bondinho. Lá fora, além das grades, o burburinho e o calor de uma tarde de verão.

Passo pelo quiosque dos macacos, pelo viveiro dos pássaros e vou indo, caminhando sem pressa.

Paro diante de um jacaré estendido sobre uma pedra.

Observo de longe os aposentados, entretidos em seus jogos.

Admiro as peças antigas que o Parque ainda guarda: um sinaleiro apagado, um chafariz sem água e um relógio parado.

Vou andando, mas não encontro a paz e a tranquilidade que procurava.

Quem mudou? O Parque ou eu?

Começo então a observar as pessoas que ali estão. Umas a lazer, outras a trabalho, cumprindo obrigações. E me ponho a pensar no que o Parque representa para cada uma delas.

Entrevistá-las? Perguntar, como numa reportagem: "O que o Parque significa para você?" ou "Qual a importância do Parque na sua vida?”

Não! Preferi imaginar.

O bilheteiro, por certo, me diria logo na entrada:

— Um salário no fim do mês!

— Só isso?

— E quer mais? Se fossem dois, melhor ainda!

Mais adiante uma varredora caprichosa juntando folhas num carrinho:

— É o meu pão, dona! Trabalho aqui porque preciso. Mas não é mau não. Tem esse arzinho gostoso!...

Não consegui grande coisa da minha varredora caprichosa.

As folhas secas que ela recolhia no carrinho, certamente, não lembravam a ela as árvores antigas e amigas.

— Todo dia é essa amolação! Mal acabo de varrer e vem mais folha!

Mais adiante, um vendedor de picolés...

— Significa e muita coisa! O sustento dos meus pequetitos.

— E não está bom, não?

— Muito bom, sim, picoléu. Ótimo!

Picoléu, também, não me pareceu afeiçoado ao Parque, integrado ao seu ambiente, com ligações mais fortes que uns simples cruzeiros reais no fim do mês.

Os aposentados, esses sim, devem ter alguma coisa melhor para me dizer. Ameaçados pela solidão, certamente hão de encontrar aqui amigos com quem jogar e conversar, dividir tristezas e preocupações.

— É o meu refúgio! Se não fosse o Parque não sei o que seria de mim! Jogamos dominó, damas, carteado. Conversamos, contamos piadas. E aí o tempo vai correndo e nem vejo o dia passar. É uma beleza! Gosto muito! Tenho muitos amigos aqui. Cada dia chega mais um. Às vezes aparece um assim meio estremunhado!... Aí a gente joga, conversa, brinca e ele acaba mudando de jeito...

Os lambe-lambes estão felizes. Têm lugar certo para trabalhar.

— É verdade que antes era melhor. As grades tiraram um pouco a freguesia. Mas o que é que se vai fazer? Não é? Uma ligação mais forte? Como assim? Não senhora! Ligação mesmo é com essa maquininha velha aqui que quebra um galhão na minha vida...

— Tudo bem. É isso aí!

Diante de um carrinho de bebê não foi difícil imaginar:

— Oxigênio e sol para meu filho! No meu apartamento não vejo nem o céu.

Tive esperanças de encontrar alguém que me inspirasse uma relação mais profunda com o Parque.

Para isso continuei minha caminhada. Subi e desci morrinhos, passei por pontes e lagos e acabei sentada num banco à sombra de uma árvore.

A meu lado um homem grisalho lia um livro. Tão alheio e absorto que nem deu pela minha presença.

É esse que há de me dizer alguma coisa, pensei.

Quem sabe perguntar logo e deixar de lado essa de adivinhar o que diriam as pessoas que ali estavam naquela quarta-feira ensolarada?

Mais uma vez, dei asas à imaginação e fiz meu personagem falar:

— O que significa para mim? Não precisa ir muito longe, senhora. Aqui estou, absorto em minhas leituras, alheio ao barulho da cidade, nessa sombra abençoada. Um parque é para mim um templo onde se procura a paz e o recolhimento. E Deus há de estar por aí, entre as árvores, admirando as flores, essa maravilha que ele mesmo criou.

— Então é o que lhe basta num parque?

— É sim! Muito verde e sombra para meu descanso, minhas reflexões... Mas se me fosse permitido pedir alguma coisa, eu pediria liberdade para os pássaros dos viveiros, para os nostálgicos macaquinhos e para aquele casalzinho de cervos que ali está. E ainda que se expulsassem os vendilhões desse templo!...

O homem grisalho ali ficou, absorto em suas leituras, nem notou minha saída.

E, assim, dando por terminado o meu passeio, fiz o caminho de volta.

Andei por montes e pontes e, calmamente, caminhei pelas alamedas em direção ao portão, sem me dar conta de que a tarde chegava ao fim. O que não é de se estranhar já que nesse parque até o relógio se esqueceu das horas...

 

Fonte: Escritos de Vitória nº 6 - Parque Moscoso, PMV e Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Turismo, 1994
Autora do texto: Maria Helena Hees Alves
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2019
Sobre a Autora: Nascida em Vitória (ES), formada em Biblioteconomia (UFES),escritora membro da Academia Espírito-Santense Feminina de Letras - Autora de O Manto do Rei (1986), Circo do Mico (1986), Troca-Troca no Reino dos Bichos (1990) e A Venda do Senhor Vento (1990)

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