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Quinca Cigano - A GAZETA, Bienal Rubem Braga

Rubem Braga, um cochoeirense

Em uma de suas mais conhecidas crônicas, Quinca Cigano, 1951, Rubem Braga fala dos pios de Cachoeiro. A fábrica fundada em 1903 por Maurílio Coelho ainda funciona no mesmo casarão, às margens de um braço encachoeirado do Rio Itapemirim. Mas em tempos de consciência ecológica, os pios não são mais usados para caçar. A expressão “de caça” foi até retirada da denominação oficial da fábrica, a única do gênero existente na América Latina.

“Entre os números que a grandeza do município de Cachoeiro de Itapemirim há este, capaz de espantar o leitor distrído: 25.379 pios de aves anualmente. Não, a Prefeitura espalhou pela cidade e distritos equipes  de ouvidores municipais, encarregados de tomar nota cada vez que uma avezinha pia. Tratam-se de pios feitos por caçadores. E quem os faz é uma família de caçadores de ouvido fino – os Coelho – cujas três gerações moram na mesma e linda ilha, onde o rio se precipita naquele encachoeirado, ou cachoeiro, que deu nome a cidade.

Trata-se de um artesanato sutil; não lhe basta a perícia técnica de delicados torneiros que faz, desses pios bem acabados, pequenas obras de arte; exige uma sensibilidade que há de estar sempre aguçada. Direis que é uma arte assassina; e na verdade, incontáveis milhares de bichos do Brasil e da América do Sul já morreram por acreditar, em um momento de fome ou de amor, naqueles pios imaginados entre os murmúrios do Itapemirim.

Dizem que os Coelho fazem até, em segredo, pios para caçar mulher. Famosa caçada é essa, em que não raro é o caçador a presa da caça...”

E o Rio Itapemirim, referência em tantos textos do cronista, foi o lugar escolhido para lançar suas cinzas. Quando soube que sofria de câncer, Rubem Braga tomou providências práticas para a cremação do corpo e deu instruções à família, conforme consta no bilhete transcrito no livro do sobrinho Afonso Abreu, para a coleção Grandes Nomes do Espírito Santo, lançado no ano passado. O filho Roberto seguiu as orientações à risca.

“...após a cremação de meu corpo providencie que as cinzas sejam lançadas no  Rio Itapemirim, de maneira discreta, sem cortejo e sem qualquer cerimônias, por pouquíssimas pessoas da família e, de preferência, no local que só a sua tia Gracinha, minha irmã Anna Graça, tenha conhecimento. Nem o dia deve ser divulgado, tudo isso para evitar ferir suscetibilidades de pessoas religiosas, amigos e parentes. Agradeça a quem pretenda qualquer disposição em contrário, por mais honrosa que seja...”

E assim, serena e discretamente , o velho Braga saiu de cena.

 

Fonte: Jornal A gazeta de 27/05/2006 – Caderno Especial Bienal Rubem Braga
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2012

 

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Morava na Beira-Mar e, muitas vezes, percorria os olhos em direção ao Porto. Algumas coisas me intrigavam, a vida dos embarcadiços, as estórias de contrabando, as mensagens escritas nas pedras, os marinheiros do Bar Scandinávia, as prostitutas

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