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Raízes – Por João Luís Caser

Primeira página da primeira edição após a compra do jornal por Mário Tamborindegui

Eu entrei nO DIÁRIO em dezembro de 1969 e saí em novembro de 1971. Fazia cursinho pré-Vestibular para Engenharia, mas disse a meu pai que pretendia trabalhar em rádio. Como ele era conhecido de Gérson Camata, nós fomos procurá-lo na Rádio Vitória, onde ele fazia o programa policial Ronda da Cidade. Perguntamos a ele se tinha uma vaga para eu trabalhar na Rádio Vitória, mas ele desaconselhou dizendo que lá se trabalhava praticamente de graça. E disse que quem poderia arrumar algo era Henrique Pretti, um deputado amigo de meu pai, do município de Santa Teresa, de onde também era minha família.

Fomos conversar com Henrique Pretti, que me encaminhou para trabalhar nO DIÁRIO. Naquela época, qualquer pessoa que aparecesse na redação e escrevesse bem era contratado. Os diretores eram Edgard dos Anjos e Fernando Jakes Teubner (que foi campeão de iatismo). O escritório era na Rua 13 de Maio.

Henrique Pretti me deu uma carta de apresentação para eu falar com Edgard. Lembro como se fosse hoje: quando entrei na sala, estava o Fernando com os pés em cima da mesa, na maior folga. Mostrei o bilhete de apresentação e ele falou: "Ah! Pedido de Henrique Pretti é uma ordem!"

Fui então encaminhado ao Cláudio Bueno Rocha, que na época dirigia O DIÁRIO. Subi até a redação, na Rua Sete, com um gravador que meu pai tinha me dado por causa daquela história da Rádio Vitória. CBR era magro, alto, usava óculos, tinha um jeito todo paternal de tratar as pessoas, e me perguntou:

- Você quer ser jornalista?

- Quero.

- Onde você quer trabalhar?

Eu falei que queria começar no Esporte.

 - Então amanhã você vem aqui e a gente conversa. No dia seguinte bati lá, a uma hora da tarde. Fui encaminhado para o editor de Esporte, que era Renato Dias Ribeiro, hoje psiquiatra. Foi assim que comecei na profissão. E, embora pareça o contrário, o início não foi nada fácil.

Renato me mandou cobrir o time da Desportiva Ferroviária. Eu ia para o campo da Desportiva com aquele gravador, gravava pra caramba... Acho que gravava umas três fitas por dia. No outro dia, saía uma notinha de três linhas, provavelmente por culpa do enfoque que eu dava. Eu não tinha qualquer orientação, ia pela minha cabeça. Ninguém tinha preocupação de me ensinar nada. A gente era lançada às feras. Simplesmente me falavam: "Você vai lá cobrir o treino".

Minha nota de três linhas ia lá para o final, quase sempre era a última da coluna - eu não lembro o nome - que o Renato fazia. No outro dia, ficava frustrado. Eu escrevia três, quatro laudas... Sentia que eles estavam me embromando.

O tempo foi passando. Por essa época houve um incêndio. Queimou a oficina. Eu me lembro que recebi ordem de ficar uns 20 dias sem ir lá. Depois de um tempo no Esporte, Cláudio Bueno Rocha me chamou:

- Já vai fazer quase um ano que você está aqui. Você está a fim de ser jornalista mesmo?

- Tô.

- No Esporte você nunca vai conseguir nada. Você não vai passar disso aí, repórter de fazer notinhas. Se você quiser ser jornalista mesmo, então amanhã vou fazer um teste com você. Vamos te dar uma pauta e avaliar você pelo cumprimento dela.

Até aí, eu não havia recebido orientação nenhuma. Aprendia por intuição, ou por ler. Eu gostava muito de ler matérias de Esporte nos jornais de fora e procurava adaptar nas matérias locais. Com isso, acabei prejudicando o cursinho. Matava aula direto, pois estava muito entusiasmado com o trabalho, com a perspectiva de ganhar meu dinheiro.

No dia seguinte, Cláudio me deu uma pauta. Quando olhei, eu não entendi patavina do assunto. Era de política, sobre a Lei das Inelegibilidades, que mudava as regras para o processo eleitoral daquele ano de 1970. Um negócio super complexo até para quem era especialista. Ainda mais pra mim, que nunca tinha ouvido falar sobre o assunto.

Demorei cinco minutos para ler e entender o que era. Não me explicaram nada, apenas me disseram: "Saiu essa lei. Faça uma matéria repercutindo".

Quando peguei aquela pauta, pensei: estou roubado. Comecei a procurar advogados. Todos que eu procurava diziam que estavam por fora. Até que achei um, o Milton Murad, com quem abri o jogo. Falei que não entendia nada daquilo e pedi que ele me explicasse tudo direitinho.

Ele, que era professor da Ufes, explicou tudo, foi bem didático. Depois, fui repercutir o assunto com outras pessoas. Voltei para a redação, bati a matéria e entreguei para Cláudio Bueno Rocha. Ele leu, mostrou para o Paulo Torre e decidiu: "Tá contratado". No dia seguinte, corri para ver se tinha saído alguma coisa. Vi minha matéria na primeira página e com destaque. Aí me entusiasmei.

Eu tinha 19 anos. Não tinha a preocupação de quanto ia ganhar. Fazia porque gostava. Quem me falou quanto eu ia ganhar foi Rogério Medeiros: meu salário seria de CR$ 100,00. Acho que era pouco mais que um salário mínimo, mas achei ótimo e, com meu primeiro salário, fui comprar um relógio de pulso.

Uma coisa engraçada é que muitos jornalistas da velha guarda ainda me chamam de Pretti, um apelido que eu ganhei por causa de Henrique Pretti, que havia me encaminhado. Muitos não sabiam o meu nome. Na pauta só escreviam Pretti. Paulo Bonates, hoje psiquiatra, é um que até hoje me chama de Pretti.

A BATALHA DIÁRIA

O jornal era combativo, publicava reportagens especiais e se destacou na cobertura do Esquadrão da Morte. A linha editorial era popular, mas tinha de tudo. Ao mesmo tempo que contava com uma boa editoria de Polícia, tinha uma boa cobertura da Assembléia Legislativa e da área governamental.

Os repórteres tanto podiam fazer matéria editorial quanto receber pauta do departamento comercial. De minha parte, inicialmente eu não fazia muita distinção entre umas e outras.

Lembro que uma vez fui fazer uma matéria sobre a Guritex, uma confecção de roupas. Cheguei lá, comecei a perguntar quem eram os donos, como vieram parar no Espírito Santo, como começaram... Eu não estava preocupado se era matéria paga ou não e fiz um trabalho jornalístico, incluindo até mesmo uma historinha não muito favorável à empresa. Como cortaram essa parte, fui cobrar e levei uma bronca: "Ô, cara, você tinha que ter levantado a bola dos caras e não ter puxado o tapete..." Só então soube que aquela era uma matéria do departamento comercial.

Ainda não havia uma divisão de setores como hoje. Havia colunas. Na coluna social brilhava a bela Adele Zampiere, nossa musa. Havia um chefe de reportagem, o Hesio Pessali, e um grupo de repórteres. Fazíamos matérias de Economia, de Geral, de Política. As únicas editorias já especializadas eram as de Polícia e Esporte. Mesmo assim, nem tanto quanto hoje. Em Polícia, quando havia algumas coisas importantes que ultrapassavam a fronteira da normalidade, eram deslocados repórteres gerais. Muitas vezes fiz matérias na Polícia Federal, em cuja entrada - naqueles duros tempos - sempre havia um policial com uma metralhadora.

Um dia, eu estava na sala de um delegado da Federal, quando faltou energia elétrica. Foi um corre-corre de gente pegando metralhadora, correndo para o lado de fora, achando que era algum atentado... Fiquei assustado. E mais ainda quando entendi que os policiais estavam relacionando minha presença ali com a falta de energia. Mas Domingos, esse delegado com quem eu estava conversando, acalmou os outros: "Ele está comigo, não tem problema". Cobrir Polícia Federal era barra pesadíssima. Naquela época a gente trabalhava tanto que não dava para ficar conversando dentro da redação. Eu chegava na redação a uma hora da tarde, saía para a rua e não terminava de escrever antes das dez da noite. Recebia, em média, quatro pautas diárias, e descia a ladeira, pranchinha debaixo do braço... Não ganhava sequer um tostão de hora extra. Que hora extra! Nem se falava nisso. Nem auxílio-passagem, nem carro. Tinha um carro só para o jornal inteiro. E com preferência para atender a editoria de Polícia.

Eram poucas as máquinas de escrever na redação, algumas delas sempre com defeito. Embora a equipe fosse pequena, nem sempre havia máquina pra todo mundo. E muitas vezes a gente brigava porque a fita estava gasta, o que resultava em textos difíceis de enxergar. Lauda era artigo raro... Muitas vezes fazíamos as matérias no papel de impressão que sobrava das bobinas. Era um papel ordinário, amarelado, superior apenas ao papel higiênico. Raramente a gente via nO DIÁRIO aquelas laudas certinhas, com margem e medidas.

Para ser contratado, era só aparecer lá e querer trabalhar. Nunca era exigido nada, embora a preferência fosse por quem tivesse curso superior, especialmente de Letras. No entanto, as pessoas do curso de Letras quase sempre se davam melhor na revisão. Não lembro de pessoas de Letras que se tornaram grandes repórteres. De maneira geral, e não só nO DIÁRIO, as redações tinham muitos estudantes de medicina. Normalmente era um pessoal que precisava de dinheiro, pois o curso era caro. NO DIÁRIO tinha o Paulo Bonates, o Renato Dias Ribeiro, o Roberto Parada, Luís Carlos Oliveira (ele era diagramador, um cara todo certinho). Era um número significativo, levando-se em conta o tamanho da redação.

Repórteres no meu tempo eram Toninho Rosetti, Roberto Parada, Mariângela Pellerano, Maura Fraga, Sandra Medeiros, Beth Feliz (que trabalhava no segundo caderno), Heraldo (o Baiano, que só andava de roupa branca).

Editores eram o Renato, o Tinoco, o Bonates, o Paulo Torre (que fazia a primeira página e foi o meu grande mestre). Tinha muito cacique para pouco índio.

O equipamento de radiofoto, que recebia material da UPI, foi o xodó do jornal. Bonates foi o primeiro editor de Internacional, mas por pouco tempo: não fazia sentido O DIÁRIO manter uma editoria de assuntos internacionais, um serviço caro e de pouco proveito.

Economizar era preciso. Barreto, o editor de Polícia, fotografava e escrevia matérias também. Era um faz-tudo: ia para a rua, apurava matérias, fazia fotos, voltava para a redação, fazia texto e editava. Era ajudado por um repórter, o Orlando Scarpatti, que hoje é policial.

O departamento fotográfico era dirigido por Paulo Makoto, grande nome da fotografia nos jornais e professor de judô, assunto sobre o qual chegou mais tarde a escrever uma coluna. Seu auxiliar era o Joaquim Nunes, outro bom fotógrafo.

O DIÁRIO era um jornal que criava fatos. Se não tinha nada para chamar a atenção, alguém falava: "Vamos criar uma notícia!" Uma vez, colaram uma calota de roda de carro na outra e o Makoto fotografou o objeto no ar. Parecia um disco voador. Isso vendia jornal. Foi um exemplo de jornalismo irresponsável. Mas lá tudo era festa.

Semanalmente, O DIÁRIO circulava com um caderno tablóide de cultura e entretenimento, bem diferente do que é feito hoje. Um caderno aberto para todo jornalista emitir opinião sobre qualquer tema. Saíam oito, dez artigos. Eu escrevia toda semana (hoje tenho até vergonha do que eu escrevia). Alguém, um dia, escreveu sobre uma história vinda de Linhares, de que o juiz havia proibido luzes negras nas boates. O articulista dizia que assim é que era bom: tudo às claras... Deu um problema danado, o juiz acionou a Polícia Federal, foi todo mundo detido. O Barreto correu lá, conversou com o superintendente Fábio Calheiros Vanderley, que decidiu fazer só uma encenação ("Olha, o juiz tá pedindo para prender vocês... Eu não vou prender vocês, mas não façam mais isso..."), fez aquele sermão e liberou a gente. Nós viramos notícia.

Meu contato direto com a censura era na Polícia Federal. Quando eu passava por lá, na minha ronda, eles advertiam: "Essa notícia não pode ser publicada". Se a gente publicasse, ia preso.

Naquele tempo, escrevia-se jornal como se fosse um texto literário, principalmente as colunas. Mas quando entrei nO DIÁRIO, comecei a aprender que o texto jornalístico é mais objetivo: uma lição que vale até os dias atuais.

Pelo que me disseram na época, a modernização do jornalismo capixaba foi iniciada pelo Cláudio Bueno Rocha na Rua Sete. Havia uns chavões que duram até hoje: carro de polícia ainda é chamado de viatura. Se hoje você ler o texto de Pedro Maia, que é daquela época, vai ver ainda alguns termos daquele jornalismo romântico. Erros? Saíam muitos, inclusive títulos trocados. Havia muita dificuldade naquela época em que se usava tipos de chumbo. Hoje a tecnologia facilita tudo, inclusive a reduzir a quantidade de erros.

Com maior tiragem, o concorrente dO DIÁRIO era A Gazeta, que era "furada" por nós praticamente todo dia, naquela época em que o furo era tão importante. A gente vibrava. A Tribuna tinha muitas colunas fixas, o espaço noticioso não era tão grande, mas era marcante em uma coisa: tinha a melhor impressão de todos os jornais da cidade.

Os repórteres de hoje são muito dependentes da pauta, talvez por falta de uma formação mais polivalente. Nós recebíamos a pauta, mas não era raro a gente chegar com matérias que não tinham nada a ver com a pauta. Porque a gente cobria setores. Eu era setorizado na Copesa, Sudepe, Sunab, Receita Federal, Capitania dos Portos, Clube dos Diretores Lojistas e Associação Comercial de Vitória. Martelava pessoalmente todos os dias esses setores: "Tem alguma coisa aí?" Se as pautas furassem, era problema meu. Não podia chegar sem nada. E jamais fiz uma matéria por telefone, a não ser para complementar uma informação. A regra era ir aos locais.

O roteiro começava na Esplanada Capixaba, onde fica a Capitania dos Portos: passava pela Receita, chegava no IBGE, descia para a Associação Comercial de Vitória, chegava até a Copesa e Sudepe, que eram lá no final da Vila Rubim. Percorria tudo isso a pé, a mil por hora, porque era necessário chegar cedo na redação devido ao processo industrial dO DIÁRIO, que era lento. Se demorasse para ser atendido em algum desses locais, poderia não dar tempo de sair as matérias na edição do dia seguinte.

Eu cobria também, e com muita freqüência, a Secretaria de Serviços Urbanos de Vitória, numa época em que sempre havia pedras rolando nos morros - como acontece até hoje. Quantas vezes eu subi a pé o Morro do Moscoso, atrás do Colégio Americano, com os engenheiros da Prefeitura... Haja sola de sapato!

O tamanho médio das matérias era uma lauda e meia, duas laudas. As maiores, três laudas. Quando você chegava na redação, o chefe de reportagem avisava: "Hoje escreve tanto..." Eu ainda tinha cursinho à noite. Tinha dia que não dava e eu acabava matando aula.

Trabalhei quase um ano sem carteira assinada. Não que os patrões não quisessem assinar, era eu que não queria pagar INPS pra não diminuir meu dinheiro. Era tão pouco o que ganhávamos... Mas havia muita fiscalização. Quando vinham os fiscais do Ministério do Trabalho, dava para ver de uma varandinha da redação. Havia umas pessoas que já conheciam os fiscais e avisavam: "Esconde! Sai da redação! Os caras vêm aí." A gente se escondia, depois voltava para trabalhar. Não era só eu, tinha mais pessoas que faziam o mesmo.

 

Fonte: O Diário da Rua Sete – 40 versões de uma paixão, 1ª edição, Vitória – 1998.
Projeto, coordenação e edição: Antonio de Padua Gurgel
Autor: João Luís Caser
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2018

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