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Relatos das primeiras expedições ao litoral brasileiro

Mapa ilustrativo de 1631, posterior aos relatos

Ao lado da cartografia, os relatos de viagens constituem outra importante e preciosa fonte para o estudo das navegações que percorreram e reconheceram o litoral brasileiro nos primeiros tempos, e no caso importa verificar se esses relatos confirmam aquilo que a cartografia da época revela, segundo os pesquisadores que estamos mencionando.

No Esmeraldo de situ orbis, provavelmente de 1505, o famoso cosmógrafo português Duarte Pacheco Pereira, que acompanhou Cabral em sua expedição à Índia em 1500, nota que entre a ilha de Santa Bárbara, que ele localiza a 20º e 20’, e o rio dos Arreféns (perto de Cabo Frio), a que atribui 24º e 40’, existe um hiato de quatro graus sem menção de nenhuma latitude, área que corresponde justamente à do atual Espírito Santo. (PEREIRA, 1988:36-7).

Da mesma forma, no Livro da Nao Bretoa que vay para a Terra do Brazyl, que relata a viagem da nau Bretoa, enviada ao Brasil em 1511, registra-se que “aos 17 dias de abril em quinta-feira de trevas chegamos à baía de Todos os Santos, a 12 dias do mês de maio em segunda-feira partimos para Cabo Frio, e aos 22 do mês de maio em segunda-feira achegamos ao porto do Cabo Frio.” (FERNANDES, 1867:97-8) Atesta-se assim, nessa passagem, que em 1511 já se tornara costumeira uma rota de navegação que sistematicamente desviava-se do litoral nos Abrolhos para aterrar somente nas proximidades de Cabo Frio, cuja feitoria o transformaria em verdadeiro “porto”.

Pouco depois (1515) o português João Dias de Solis, a serviço da Espanha, empreendeu sua viagem a partir do cabo de Santo Agostinho, que ele situa a 6º sul, passando por Cabo Frio e Rio de Janeiro. Porém, segundo Guedes, também esta expedição, depois de ter atingido o cabo de Santo Agostinho a 8 graus, aterrou em Cabo Frio, seguindo portanto o percurso tradicional em que o litoral do Espírito Santo não era abordado diretamente. (GUEDES, 1972:11)

Essa viagem espanhola provocou o alarme da Coroa portuguesa, que em consequência incumbiu Cristóvão Jaques, fidalgo da casa de Dom Manuel (o mesmo a quem Daemon atribuíra equivocadamente o comando da expedição de 1503-4 e a descoberta do Espírito Santo), da missão de policiar a costa brasileira, inclusive contra os corsários franceses, que se faziam frequentes em nosso litoral. Jaques, entre os anos de 1516 e 1519, navegou ao longo da costa brasileira, instituindo-se dessa forma a chamada “capitania do mar”, que resultou, segundo Guedes, no envio de quatro ou cinco expedições ao Brasil, expedições estas que tiveram como consequência, segundo o mesmo Guedes, um notável incremento dos conhecimentos geográficos que se refletiria na cartografia de Lopo Homem e Reinel de 1519. (GUEDES, 1972:13)

E o litoral do Espírito Santo?

Em 1519, em sua Suma Geográfica, uma das primeiras publicações do gênero no mundo, o espanhol Martim Fernandez de Enciso fazia uma descrição em que, embora mencionasse o “cabo dos baixos”, que certamente correspondia ao já mencionado “baixo dos pargos”, no sul do atual Espírito Santo, ainda identificava a região como área dominada por “arracifes y baxos”, diferenciando os mais próximos de terra (certamente os Abrolhos) de outros mais profundos e menos perigosos:

“Desde puerto seguro al cabo que esta adelãte de golfo fermoso, ay ciento e diez leguas, y va la costa a la media partida del sur y del sudueste. Entre estos dos es la costa arracifes y baxos, que entra en la mar veinte y treinta leguas pera paçãdo los arracifes que estã cerca de tierra todos los otros baxos tienen a tres y a cuatro braças de fundo. A cerca del cabo de los baxos está el golfo de Sancto Tome y a cerca delcomienzo esta el delas barrosas. Passados los primeros arrecifes esta el Cabo fermoso en XXII grados y medio. Passado cabo fermoso se haze un golfo entre dos tierras que tenna una legua de latitud y tres o quatro de longitud. (ENCISO, 1948:47)”

Se a região ainda era descrita claramente, em 1519, como região de navegação difícil e perigosa, não é de admirar o lento progresso na referência a topônimos conhecidos nela localizados. A cartografia da época também refletiu avanço muito lento no efetivo conhecimento do nosso litoral; no Atlas de Reinel, de 1522, entre a baía de Santa Luzia e o cabo de São Tomé, na região de Cabo Frio, ao sul, com - preendida no hiato de que estamos tratando, aparecem agora dois topônimos, um dos quais, já nosso conhecido, certamente corresponde ao território costeiro do futuro Espírito Santo – os “bayxos dos pargos” – sendo o outro o “cabo de sam johã”, próximo aos Abrolhos.

O Diário da Navegação, de Pero Lopes de Souza, relato da famosa expedição dirigida por Martim Afonso de Sousa em 1530, marco da colonização e da exploração do Brasil, descreve sua passagem pelas águas do mar capixaba em termos nada lisonjeiros, em vista dos perigos que a armada teve de enfrentar por causa dos Abrolhos; ou seja, reproduz a já antiga prática de navegar ao largo dos Abrolhos aterrando em São Tomé. Tendo saído de Salvador a 27 de março de 1530 dizia o cronista Pero Lopes de Souza, irmão de Martim Afonso e seu companheiro na famosa navegação:

“partimos desta baía com o vento leste, contra opinião de todos os pilotos, a qual era que não podíamos dobrar os baixos de Abrolho [grifos meus] e que a monção dos ventos suestes começava desde meado fevereiro até agosto e que em nenhuma maneira podíamos passar e que era por de mais andar lavrando o mar. (SOUZA, 1989:99)”

De fato, depois de uma série de percalços, quase um mês depois, o cronista registrou:

“Quinta-feira, 21 de abril, ao meio dia, tomei o sol em 19 graus menos um terço: fazia-me de terra 20 léguas. O vento se nos fez leste e com ele fazíamos o caminho do sul, com todas as velas. De noite se fez o vento lés-nordeste e com as bolinas largas fazíamos o dito caminho, levando resguardo, que cada relógio sondávamos, porque todos os pilotos se faziam ir por riba dos baixos de Abrolho [grifos meus], que lançam no mar 30 léguas e o começo deles está em altura de 19 graus. (SOUZA, 1989:101)”

Essa descrição não deixa dúvida de que, ainda em 1530, trinta anos depois de Cabral, o reconhecimento do litoral capixaba continuava prejudicado por dificuldades associadas à ultrapassagem dos Abrolhos.

No entanto, evidências cartográficas indicam que esse reconhecimento vinha se processando, tanto que em 1534, um ano antes da chegada do donatário Vasco Coutinho, o mapa de Gaspar Viegas já trazia entre o cabo de São Tomé e a “pta delgada”, na região de Porto Seguro, ou seja, no já referido hiato, quatro topônimos provavelmente “capixabas”, a saber: “costa cuja”, “baixo dos parguetes”, “as ilhetas” e “b. do pcel”, pontos hoje de difícil localização, uma vez que tais topônimos não teriam sobrevivido ao início da colonização.

Outro marco na cartografia do Espírito Santo foi efetivamente o mapa de Jorge Reinel de Florença, certamente posterior a 1535, pois já registrava o “Rio de Sto Espirito”, além do “tauari”, provavelmente Guarapari, do “Rio sem agua”, que é provavelmente o Riacho, e o “Rio Doce” – portanto quatro topônimos atuais do Espírito Santo, refletindo assim cabalmente o início da colonização do seu território.

Mesmo assim, não se pode dizer que o início da colonização tenha rompido de vez e de forma ampla o desconhecimento de nosso litoral, pelo menos nos documentos da época. Analisando o famoso documento Quatri Partitu de Alonso de Chaves, encontrado na Real Academia de Historia de Madrid, que reputou da maior importância, Max Justo Guedes, depois de assegurar que se trata de documento redigido já em 1538, portanto, três anos depois da chegada de Coutinho ao Espírito Santo, mostra que o documento:

“Também revela lacunas notáveis nos conhecimentos coevos, como a interrupção do dado referente à latitude de cada topônimo, que cessa no “Rio Del Brasil” em 17 graus e 2/3 para só recomeçar nas “Baxas de los Pargos” que situa em “21 ½ grados”, com aproximação de meio grau. Ora, este desconhecimento de latitudes nos indica que persistia ignorada a costa entre Porto Seguro e São Tomé [grifos do autor], consequência da navegação na região ser apenas local, a derrota normal se fazendo “por fora” dos Abrolhos, para se resguardarem os pilotos dos perigosos e mal levantados parcéis (G UEDES, 1972:21-2)”

 

Por: Estilaque Ferreira dos Santos

 

 

Nota: 1ª edição do livro foi publicada em 1879
Fonte: Província do Espírito Santo - 2ª edição, SECULT/2010
Autor: Basílio Carvalho Daemon
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2019

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