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Reritiba, Guaraparim, Espírito Santo e Rio Doce – Relatos de 1610

Santuário Nacional de São José de Anchieta e Rio Benevente ao fundo

Reritiba e Guaraparim

Dos Gaitacazes à Capitania do Espírito Santo vão trinta leguas, no meio das quais está um rio chamado Reritibe, na lingua da terra Rio de Ostras, por haver ali muitas e boas. Dele pera o Sul começa a Capitania de Pero de Góis, que foi a primeira povoação de Portugueses nesta paragem. Junta a este rio está uma aldeia de gentio, que temos a nosso cargo, e terá perto de três mil almas, aonde nos fizeram mil festas por mar e por terra, já a seu modo, já à portuguesa, esperando-nos uma legua antes da Aldeia, a qual toda estava, de uma e outra banda, cercada de palmeiras que pera o dia se trouxeram, aonde os Principais Morubuxabas, vestidos ao natural, com os giolhos em terra, nos davam as boas vindas, acompanhados de colomins, bem empenados, e mui bons dançantes e tangedores de frautas, violas, e com bandeiras, arcabuzaria, e mil outras invenções. No princípio da Aldeia saiu o Morubuxada o açu com uma cruz fermosa e bem enramada na mão, acompanhado de dous filhos seus, ricamente empenados, e fazendo uma arenga ou prática da entrega de sua Aldeia, meteu o P. Visitador a cruz na mão e os meninos se botaram por terra, largando os arcos e frechas. E com notável devação, entoando um Te Deum Laudamus, nos fomos à Igreja, na qual se lhes fez uma prática por intérprete, que pera isso levávamos conosco. Pus isto de passagem, porque o que nos fizeram de festas em todas as Aldeias não tem conto.

Neste Rio de Reritiba, cinco leguas ao Norte, está outro porto, chamado Guaraparim, que quer dizer guará manco. Aqui temos outra Aldeia.

Espírito Santo

Daqui dez leguas está a Capitania do Espírito Santo, a qual antigamente foi mui rica, e hoje está quase desbaratada. Tem bom porto, estreito e dificultoso de tomar, havendo qualquer resistência. A Capitania está situada em uma ilha, cercada em contorno de grandes montanhas ou rochas de pedra viva. Foi povoada por Vasco Fernandes Coutinho, tem oito Engenhos de açúcar, as terras são boas, mas os moradores de pouca indústria e pouco trabalhadores. É fertil de madeiras, pau Brasil, real, branco, amarelo; aqui se colhem os bálsamos tão prezados nessas partes, nesta forma: agolpeia-se a casca de umas árvores mui altas e grandes, semelhantes às quais não ha nenhumas nesse Reino, mui grossas no tronco, e bem copadas; depois de bem feridas pelos golpes, vão metendo algodão no qual se embebe o suco, que sai como de golpe da vida, e de dous em dous dias o espremem em cocos ou cabaças, tirando de cada uma das árvores quantidade de uma canada e mais. Nesta Capitania se fazem as contas de bálsamo, e é a melhor droga da terra, porque dela comem e vestem moradores de ordinário.

Junto à barra desta Capitania está um monte, que pode competir com o Olimpo, o alto do qual se remata com um penedo, que terá de circuito trezentas e mais braças, aonde está edificada uma ermida da invocação de N. S. da Penha, a melhor e de mais devação que ha em todo o Brasil, e com os nomeados deste Reino pode entrar a contenda. É de abóbada a capela, o corpo da ermida de arcos abertos, por causa das tempestades; tem vista sobre o mar e terra até os olhos mais não alcançarem; ao pé do penedo tem umas casas mui boas pêra se recolherem os romeiros. Aqui fizemos nossa romaria, com alguma devação e boa música, em favor da virgem, quando vínhamos do Rio pera a Bahia.

Oito leguas desta paragem está o Rio dos Reis Magos, junto ao qual têm os Nossos uma Aldeia, em que estive muitos dias, em a qual batizamos e casamos a muitos, que pêra memória tomaram nossos nomes, que nos casamentos tinham mais graça e eles que o sabiam festejar! É este rio mui grande, partido em dous braços, um corre ao Noroeste, outro ao Nornordeste; e farto de inumeráveis lagostins, que só se acham em suas ribeiras.

Rio Doce

Dez leguas acima, se segue o Rio Doce, povoado de muitos Tapuias ou Aimures, gente selvagem, e que tinha posto em grande aperto a terra destas partes, por serem mui fortes e mui manhosos em armar ciladas. Nós os apaziguamos, e são tão domésticos agora, que na brandura levam vantagem a todo o mais gentio. Por este rio se vai às esmeraldas dos Mares Verdes, tão nomeados e nunca de todo descobertos. Havê-las é certo, e um sacerdote me disse, que a elas foi, haver naquela paragem muitas serras de cristal, dentro do qual se acham finas esmeraldas, das quais vendeu duas por bom preço; no que lhe podemos dar crédito, porque eu tenho em meu poder um pedaço de cristal, dentro do qual se iam criando uns diamantes verdes e mui fermosos ao parecer em figura piramidal. De novo, por ordem de sua Majestade, tem lá mandado no fim do ano de 609 o Governador Dom Francisco de Sousa. Esperávamos cada dia resolução deste negócio por irem juntamente dous Padres nossos nesta ocasião buscar gentio àquelas partes” (apud LEITE, in HCJB, VIII, 400-2).

 

Fonte: História do Estado do Espírito Santo, 3ª edição, Vitória (APEES) - Arquivo Público do Estado do Espírito Santo – Secretaria de Cultura, 2008
Autor: José Teixeira de Oliveira
Compilação: Walter Aguiar Filho, julho/2017

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