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Rio Doce: o Nilo Brasiliense

Travessia antiga do Rio Doce em Linhares

O rio Doce nasce em Minas Gerais, na serra da Mantiqueira e é formado pelos rios Chopotó e Piranga. Tem cerca de 800 km de extensão, sendo que os últimos 180 km no Estado do Espírito Santo, na parte oeste do Município de Baixo Guandu, através da cachoeira das Escadinhas, e deságua no Oceano Atlântico, em Regência, Município de Linhares.

Seu primeiro nome teria sido VATU, assim chamado pelos índios botocudos. Na língua dos índios mutuns (nak-ne-nuk) botocudos aldeados nas proximidades do rio Mutum, e ao MUNHAU-UATU, sendo que “uatu” significava “rio”.

Seu nome atual deriva de uma lenda, segundo a qual alguns navegadores portugueses, encontrando água doce defronte à foz deste rio, a seis milhas da barra, deram-lhe o nome de RIO DOCE.

Todo o vale das terras que circundam o rio é de uma fertilidade ímpar e dadivosa, motivo pelo qual é chamado de “NILO BRASILIENSE”. Outra razão deste nome é a sua enorme extensão. Mas o vale do rio Doce apresenta uma vantagem sobre o rio egípcio. Este necessita de enchentes periódicas que lhe tragam o humo fértil; o nosso rio Doce, não. A fertilidade de seu vale é natural, espontânea, perene e independente de outros fatores.

Um fenômeno porém vem atingindo o rio nos últimos decênios: a metamorfose física, que se explica pelo aumento da dimensão de suas margens e a diminuição do volume de água. Tal modificação tem sua causa no desmatamento que facilita a erosão no período das enchentes.

No início do século atual, entretanto, o aspecto do rio pouco tinha mudado em relação ao começo do período colonial, século XVI.

Naquele tempo, a floresta tropical dominava, ainda altaneira e intocada, as margens do rio e estendia-se para o interior.

Soberbas e centenárias, milhares de árvores cobriam o vale, alteando suas copas verdejantes contra o céu: perobas, cedros, jacarandás, ipês, jequitibás, pau-brasil, parajus, guararemas e muitas outras. Na primavera o verde luxuriante salpicava-se de rosa, amarelo, roxo e vermelho.

E, por baixo deste manto colorido, entrelaçavam-se cipós e parasitas, floriam orquídeas e plantas silvestres, abanadas levemente pelos leques dos palmitos doces e amargos.

Às margens do rio, contra o fundo verde-musgo, em vários pontos, destacavam-se bandos de garças, alvas e graciosas, ora executando uma dança lenta e compassada com os voluteios de seus longos pescoços, ora voando em grupos como ao som de música inaudível ou assustadas, talvez, pelos inúmeros jacarés que então banhavam-se nas águas daquele doce rio.

Na mata imensa e escura, centenas de animais rasgavam o silêncio, compondo com suas vozes uma orquestração inenarrável: o pio das aves, o rosnado das jaguariticas, o grito dos macacos e o zumbido de milhares de insetos.

Como senhores inquestionáveis deste paraíso natural, reinavam os índios. Intrépidos e altivos, dominavam seu “habitat”, donos da terra, da floresta e de tudo o que nelas havia.

E assim, coroado de matas, como “tapetes verdes a se perderem de vista”, de florestas povoadas pelo nativo bravio, de animais, insetos e répteis, corria o RIO DOCE, - das alterosas montanhas mineiras até perder a sua individualidade mergulhando no Atlântico – quando, no século XVI, em esplêndida e orgulhosa exibição, descortinou-se aos primeiros navegadores do seu curso.

 

 

Fonte: Panorama Histórico de Linhares, 1982
Autora: Maria Lúcia Grossi Zunti
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2012 



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