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Roubo de animais no tempo dos Tropeiros – Por Ormando Moraes

Burro com cangalha, retranca e peitoral

Onde há comércio, progresso e movimento, há roubo também, pode-se afirmar sem muito receio de erro. Assim como hoje existe uma verdadeira máfia para roubar automóveis e caminhões, no tempo das tropas havia muita gente no interior exercendo a "profissão" de ladrão de cavalo, que roubava também muares e até bovinos.

Essa prática criminosa tinha mais a característica de furto, visto que os animais eram levados sorrateiramente, às escondidas, quando estavam, por necessidade, em pastos afastados de ranchos e casas, ou, eventualmente, perdidos pelas estradas. Assalto às tropas e aos ranchos não havia, porque seria um suicídio: os tropeiros pousavam em grupos, eram fortes e destemidos, estavam sempre bem armados e até a polícia costurava ficar com medo deles, como diz Dona Argentina Tristão, notável informante sobre tropas em Afonso Cláudio.

Diz ela, ainda, que esses malfeitores se aproveitavam, com freqüência, das épocas de muita chuva, em que se formavam grandes atoleiros nas estradas e os tropeiros ficavam retidos nos ranchos vários dias e os animais permaneciam em pastos às vezes abertos e expostos ao furto. Como é óbvio, os animais roubados eram vendidos a pessoas de boa-fé ou entregues a receptadores, que os havia na época, embora em número reduzido. Entretanto, se reconhecidos, eram devolvidos ao dono imediatamente, mesmo sem intervenção da polícia ou da justiça.

A respeito dos famosos ladrões de cavalos, que, nas regiões das tropas, furtavam mais eram mesmo burros e bestas, quem forneceu os casos mais interessantes foi o professor Waldemar Mendes, hoje desembargador aposentado.

Certa ocasião, na década de 30, em Cachoeira, onde exercia o magistério e a advocacia, ele foi convocado pelo Prefeito Fernando de Abreu para ir a Castelo, a fim de obter o relaxamento da prisão de um grupo de pessoas envolvidas em roubos ou receptação de animais roubados, no qual estava incluído um coronel de prestígio político. Waldemar se dirigiu àquela cidade, mas o Juiz Menezes Pimentel estava intransigente e ele teve que requerer, por telegrama, "habeas-corpus" ao Tribunal de Justiça, cuja resposta favorável foi também pelo telégrafo.

Juntamente com o coronel, foram soltos doze ladrões de cavalos ou receptadores, um dos quais procurou Waldemar para pagar-lhe o serviço prestado, mesmo indiretamente.

Apesar da insistência, Waldemar recusou o pagamento, pois ele nada mais tinha feito que cumprir uma ordem de Fernando de Abreu, a favor do Partido, e, naquele tempo, ordem era ordem, não se discutia e, então, o larápio lhe disse:

— Bem, doutor, o senhor tá certo, não quer botar a mão em dinheiro de ladrão, uai! Amanhã vorto pra Afonso Cláudio e depois vou até Minas, roubando burros e cavalos, que é a minha profissão, uai! E quero que o senhor me dê os nome dos fazendeiros seus amigos, pra mim poupar eles, uai!

Evidentemente, Waldemar Mendes ficou impressionado com a extravagante manifestação de reconhecimento.

Mais tarde, já na década de 40, quando o furto de animais no interior voltou a recrudescer — é ainda Waldemar quem conta — ante a grita dos fazendeiros pedindo providências mais enérgicas, o próprio Governador da época chamou ao Palácio um Capitão da Policia Militar, famoso por sua coragem e disposição para agir, e comunicou-lhe sua nomeação para Delegado de Captura, cuja principal missão era o combate ao roubo de animais, para o que dispunha de meia dúzia de excelentes policiais. Onde havia estradas, eles usavam uma caminhonete, mas, nas regiões de acesso mais difícil, iam montados em burros e bestas e, num pernoite, o próprio contingente policial foi vítima de roubo de todos os seus animais, o que afetou seriamente o prestígio de seu comandante, obrigado a voltar a Vitória para explicações.

 

Fonte: Por Serras e Vales do Espírito Santo – A epopéia das Tropas e dos Tropeiros, 1989
Autor: Ormando Moraes
Acervo: Edward Athayde D’ Alcantara
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2016

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