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Rua Cais de São Francisco (ex-cais de São Francisco)

Planta de Vitória de 1895

Quem passa hoje, pela rua Cais de São Francisco, sobretudo se pessoa vinda de fora, fica intrigado com esta denominação. Ora, por que tal nome, se não há ali cais algum? Fácil a explicação: antes dos aterros que se fizeram para ampliar a área da cidade, um braço de mar chegava até a esse local, onde atracavam canoas e catraias, carregadas de frutas, mormente bananas, café, farinha, rapadura, lenha e carvão, outras cargas trazidas do interior, quando não pranchas com material de construção: - cal, telhas, tijolos, areia de rio, coisas assim. Também nesse ancoradouro, os carregadores de cocô despejavam seus barris, a população plenamente acostumada com isso, visto que a cidade não dispunha, até então, de rede de esgotos, só passando a possuí-la, como já dito na introdução deste trabalho, a partir do governo de Jerônimo Monteiro (1908-1912). Mesmo assim, com tantos detritos a lhe sujarem as águas, esse cais, quando na preamar, se enchia de crianças, que lá se banhavam alegremente. Foi numa dessas ocasiões, isto é, a 25 de novembro de 1886, que fato especial emocionou a cidade, conforme registro estampado na Província do Espírito Santo, edição de 27 do mês, assim resumido:

- Diversas crianças brincavam, no quintal do Sr. João Carvalho de Abreu, então dono do melhor açougue da cidade. Esse senhor era bisavô de u’a menina de cinco anos, apelidada de Dondon, que se tornou conhecida por todos pela maneira corajosa com que salvou um menino de três anos, quando este ia se afogando no Cais de São Francisco. Martinho, filho do Sr. Libânio Lírio, rolou do barco em que se encontrava e caiu na água, submergindo. Dondon correu a socorrê-lo e, embora pequenina, conseguiu segurar o braço do companheiro de infância, trazendo o corpo à tona, assim se conservando até lhe chegasse o suspirado socorro. Tomam no colo o quase afogado, enquanto Dondon cai, desfalecida.

Sabe-se que Dom Pedro II, ao tomar conhecimento da bela ação de Dondon, concedeu-lhe mesada de 30$000 para sua educação (Decreto de 18 de dezembro de 1886), ato logo comunicado ao presidente da província, Dr. Antônio Leite Ribeiro de Almeida, em ofício de 27 do mesmo mês, sendo a pensão recusada pelos pais.

Em passado mais remoto, os franciscanos, que ali tinham seu cais e trapiche, receberam, a 18 de fevereiro de 1609, em procissão, os despojos de frei Pedro Palácios, aquele que edificara, em Vila Velha, a Ermida das Palmeiras, transformada, transformada, com o decorrer dos anos, no Convento da Penha. Esses despojos foram levados para o Convento de São Francisco, juntamente com um cajado do frade, ali permanecendo até o início da década de 20, quando o padre Leandro Del Uomo, italiano, homem caridoso mas de nenhum conhecimento da história, das tradições do Espírito Santo, resolveu, indevidamente, pior que sem protestos do governo e da população, demolir o velho Convento, para construção aí do Orfanato Cristo Rei, perdendo-se, então,para sempre, as preciosas relíquias. Registre-se que, quando da vinda dos restos mortais de frei Pedro Palácios para Vitória, o povo vilavelhense protestou com veemência, desejando, em vão, que os mesmos ficassem no Convento da Penha, o que, afinal, teria sido o mais acertado.

Quando eu já rapazola, a rua Cais de São Francisco não contava ainda com o Centro de Saúde, sendo que, na espaçosa área em que o mesmo foi construído, havia antes algumas casas antigas, residindo numa delas o italiano Paschoal Del maestro, hoje nome de rua em Vitória, no bairro de Camburi. Outra parte dessa área servia, periodicamente, para armação de circos mambembes, ou para instalação de precários parques de diversão. O outro lado da rua, como ainda agora, contava com um hotel, uma lavanderia dirigida por cidadão chinês (todas as lavanderias da cidade eram de propriedade de chineses), ale de alguns poucos prédios residenciais.

Roberto Almada, poeta mineiro radicado em Vitória, escreveu este sugestivo poema sobre a rua Cais de São Francisco:

 

No cais de São Francisco não tem mar.

Tem só uma ruazinha de onde se avista o casario,

        O convento velho, o Morro da Fonte Grande,

E lá em cima a torre branca da igreja de Santa Luzia,

Tão cansadinha, com aquelas paredes de tantos anos,

Pra mais de quatrocentos abençoando os fiéis seus

                                                                       Vizinhos.

Um dia vão chamar o cais de outro nome qualquer,

Porque é preciso homenagear todo mundo.

Mas tomara que não nasça ninguém ilustre nunca

Mais.

E o cais continue sendo de São Francisco

Que ele também merece.

 

 

Fonte: Logradouros Antigos de Vitória, 1999
Autor: Elmo Elton
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2012 

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