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Rua Duque de Caxias - Por Elmo Elton

Rua Duque de Caxias e o Cartório Nelson Monteiro

Chamou-se, a princípio, rua do Ouvidor. Em 1872, dois anos após o término da Guerra do Paraguai, recebe nova designação: _ a de rua Duque de Caxias, sendo que, nessa ocasião, outras artérias tiveram seus nomes trocados, ainda que sob a censura do Dr. Francisco Ferriera Corrêa, então presidente da província.

A Duque de Caxias, até anos recentes, "não sofreu modificações sensíveis, ficou monarquicamente arcaica, não obstante sua posição central:.

Sabe-se que, ali, conforme anúncio no Correio da Vitória, edição de 3 de março de 1854, um tal senhor Norbim colocava à venda "sortimento de dentes cristalinos assemelhando-se, o mais possível, aos dentes naturais", adiantando que o mesmo realizava operações dentárias.

Em março de 1866, quando a cidade ainda não contava com parteiras diplomadas, no número 90, dessa rua, esquina com a ladeira do Sacramento, estabelecera-se a parteira Margarida Zanotelli, formada em Pávia, Itália, tendo prestado exames na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, habilitando-se, assim, a exercer sua profissão no Brasil. Também ali, "nos primeiros dias de julho de 1892, o sr. Sócrates Roque Lima de Bartolomeu abriu um bom salão para pregar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, no número 43, 1° andar", sendo esta, possivelmente, a primeira notícia sobre atividades protestantes, no Espírito Santo.

Anote-se que as casas dessa artéria, isto é, as construídas no lado direito, tinham quintais terminando à beira mar, daí chamar-se, também, rua da Praia. Muito depois, com a formação da rua da Alfândega, posterior-mente denominada Conde D'Eu (atual avenida Jerônimo Monteiro), tais quintais desapareceram, alguns sobrados ganhando, então, fachada nova para essa última rua. O Hotel d'Europe, por exemplo, ali construído, dispunha de duas entradas, a principal (a antiga) na Duque de Caxias, tendo a sacada com gradis de ferro batido, apainelados, as arandelas, à época de luz a querosene, ostentando coloridas luminárias, ficando a outra, na rua da Alfândega. A propósito desse hotel, demolido em 1983, escreveu a Sra Vera Suckow de Lima, esposa do poeta mineiro Augusto de Lima (18 _ 1934), quando este, em 1892, veio ocupar o cargo de Juiz de Direito na comarca da Conceição da Serra:

"No Hotel d"Europe, onde nos hospedamos, havia um grupo de intelectuais que muito confortou o magistrado: Dário Azevedo, Gonçalo Marinho de Albuquerque, chefe de polícia do Dr. Afonso Cláudio de Freitas Rosa, e mais alguns de cujo nome não me recordo.

À noite, no salão do Hotel, em meio à palestra do grupo a que me referi Mme. Taverne, filha do casal Boudossier (1), proprietário do estabelecimento, deliciava-nos com sua bela voz de soprano, cantando árias e canções. Mme. Augustine Taverne era viúva e tinha uma filha, então em férias do Colégio Imaculada Conceição, no Rio de Janeiro.

Essa mocinha, muito interessante, era o ai Jesus dos seus e bastava que espirasse, para que sua vovó, Mme. Boudossier entrasse a se lamentar, pensando que Nenê ia morrer..."

Leia-se o que mais disse a esposa do poeta, agora se referindo à sua chegada a Vitória, após viagem acidentada:

"Vitória. Enfim! Às quatro horas da tarde do terceiro dia de viagem pusemos pé em terra firme.

O calor sufocava e no desembarcadouro um certo número de desocupados dormia a sono solto. Penosa impressão!

A topografia da capital era o que se sabe: Linda! Mas a cidade velha, com o casario antigo do tempo de El-Rei Nosso Senhor, triste.

Hoje, a civilização soprou-lhe vida nova, remodelou-a, calçou-a, tornou-a faceira e ela se debruça cheia de garridice sobre sua pequena baía.

Augusto de Lima deixara suas Minas querida, por quanto tempo?

Sua alma sangrava de saudade das montanhas azuis perdidas na distância.

Em Vitória encontrou Moniz Freire, seu amigo dos bancos acadêmicos, e o abraço de Moniz teve o condão de levantar-lhe o ânimo.

Moniz Freire era, a esse tempo, a pessoa de mais destaque social em Vitória pela grande inteligência, cultura jurídica e literária, líder da política estadual, gentleman perfeito, encantando a todos pela afabilidade, no que era secundado por sua esposa D. Colatina, nascida Azevedo. “De tradicional família paulista, ela era o ídolo da capital capixaba, pela fidalguia sedutora que sabia imprimir às recepções no seu palacete”.

A 15 de setembro de 1895, a cidade ganha sua primeira fábrica de gelo, pertencente à firma Bytton & Freitas, montada na Duque de Caxias, sendo que, a 29 de julho de 1902, no salão do Grêmio Carlos Gomes, sociedade musical que ali tinha sede, sobre a Charutaria Havanesa, de Máximo Bastos, onde é hoje o número 200, registrou-se a fundação do Clube de Regatas Saldanha da Gama, que viria a ser agremiação das mais conhecidas de Vitória, pelas suas ininterruptas atividades desportistas e sociais. Ainda nesta artéria, a 17 de outubro de 1926, com a presença do presidente do Estado, autoridades e muitos convidados, inaugurou-se festivamente o Majestic Hotel, o prédio fazendo esquina com a ladeira da Matriz.

Após ter gozado de certa importância no passado, a partir do começo deste século, a Duque de Caxias tornou-se zona de meretrício, funcionando, no local, por volta de 1910, o Clube Ninho das Ninfas, freqüentado quase que exclusivamente por prostitutas e seus exploradores, também por embarcadiços.

Das "pensões" que a rua agrupava, e eram muitas, a mais procurada era a Royal, de Madame Juju, já que nela "faziam vida" as "raparigas de melhor aparência e asseio", o imóvel de bom acabamento, em cujo andar térreo funciona, atualmente, a Barbearia Totinho. Ressalte-se que, apesar de zona de meretrício, mesmo na parte em que se situavam os diversos lupanares, residiam, sem que fossem molestadas, famílias de conceito, como, por exemplo, a dos Botti, a da pianista Maria Duraens, com muitas alunas, a de Cláudio Passos, de onde saía, a cada carnaval, o animadíssimo bloco Eu só quero é enxovar. No início da década de 40 o meretrício se transferiu para a rua General Osório.

Durante a Segunda Guerra, quando navios brasileiros foram torpedeados por ordem de Hitler, as firmas então dirigidas por cidadãos alemães, assim como as de propriedade de italianos, foram saqueadas e destruídas em Vitória, algumas dessas situadas na Duque de Caxias, como a Bayer e a Casa Hamburgo, ponto de reunião de empresários e intelectuais, ali se servindo chope preto, conservas, vinhos e queijos importados.

A Casa Flora, a primeira de venda de flores da cidade, tinha sede nessa artéria.

Presentemente, a Duque de Caxias, após conservado, por muitos anos, seu aspecto antigo, colonial, dispõe de comércio ativo, conta com vários edifícios de construção recente, ganhou nova pavimentação, pouco fazendo lembrar a que fora há quarenta anos atrás.

Fonte: Revista do instituto histórico e geográfico do Espírito Santo – Nº44, ano 1994 
Autor: Elmo Elton  
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2014

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