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STRAGALAR

José de Martin Sobrinho, o Zé Itarana – como era popularmente conhecido por ser natural do município de Itarana –, havia deixado o bar que era sócio ao lado de seu pai e irmãos para ter o seu próprio negócio. Inicialmente estabelecera-se com uma mercearia no edifício Ceotto denominada Costa Azul. Mais tarde, julgou que seria mais conveniente montar um bar e restaurante, ramo o qual estava mais familiarizado. Resolveu, no entanto, que começaria com um modesto bar.

Corria o ano de 1969. O ponto em que pensara estabelecer-se estava disponível e o contrato foi assinado. O proprietário desse imóvel era o mesmo João Braga que trabalhava na Casa Queiroz, carinhosamente apelidado de João Grande.

Esse ponto tinha duas portas que se abriam para o corredor da rua Luciano das Neves, na praça Otávio Araújo, e em frente a ele, e um pouco mais à direita, ficava a casa religiosa e de caridade São Vicente de Paula.

O bar tinha um pequeno balcão junto à parede esquerda, que o separava do salão em que estava instalado um bilhar. Ao lado deste e nos fundos havia quatro ou cinco mesinhas com quatro cadeiras cada uma. Mais ao fundo via-se um fogão a gás de quatro bocas, um pequeno armário para guardar louças e talheres e prateleiras para panelas e outros apetrechos de cozinha. Um pouco adiante, numa das laterais, além do depósito para caixaria etc., o banheirinho. Compondo o outro lado do balcão havia uma pia, local para copos e ainda um freezer e uma geladeira.

José Martin era um excelente entendedor da arte culinária. Seus tira-gostos eram inigualáveis e o peixe frito ou a moqueca melhor ainda. Nesse ponto comercial recém-montado Zé de Martin esbanjava conhecimentos culinários e atenção para com a freguesia. Bem jovem, não demorou muito para que atraísse para o seu estabelecimento uma seleta e crescente clientela.

A partir de determinado momento seus fregueses contumazes, com a permissão do proprietário, introduziam o “buraco”, popular jogos de cartas, que era disputado com maior freqüência aos sábados, domingos e feriados, com duas e até três mesas funcionando simultaneamente, incluindo palpiteiros que se posicionavam em torno dos jogadores e que eram conhecidos como “perus” e, apesar de rechaçados, estavam sempre presentes. Dentre eles salvavam-se os bons apreciadores: os cegos, os surdos e os mudos que, em silêncio, assistiam as jogadas sem nelas interferirem.

Nesses jogos não rolavam apostas com dinheiro, jogando-se por puro diletantismo, como divertimento mesmo. Os  ganhadores brincavam com os perdedores e instantes depois tudo era esquecido.

As pessoas frenquentavam esse barzinho na certeza de desfrutar de bons momentos, quer tomando cerveja bem gelada ou aperitivos dos mais variados, quer encontrando amigos ou pessoas do seu relacionamento. Ali faziam ponto advogados, médicos, juízes, promotores, oficiais do exército e da marinha, autoridades municipais, estaduais e federais, pessoal da mídia e outros que tais. Em pé, junto ao balcão, conversavam, bebiam, comiam alguma coisa que lhes era servida e, de quando em vez, ficavam atentos ao alarido dos jogadores e dos “perus” ou eram atraídos pelos jogadores de brilhar no desfecho de uma tacada mais difícil.

Assim era o pequeno estabelecimento de José de Martin: alegre e descontraído. Um bar, por assim dizer, familiar, e embora muitos outros também o fossem, ele era especial. As mulheres dos freqüentadores sabiam onde encontrá-los nas emergências e principalmente quando extrapolavam no horário. Nem precisavam entrar no bar: bastava passar em frente, acenar com a cabeça ou a mão, mandar recado por um filho ou outra pessoa qualquer para logo se dar um jeito de deixar o ambiente, mesmo com a partida em andamento. O lugar à mesa era então ocupado por outro para concluir a partida e prosseguir outras.

Às vezes, mesmo avisado, o jogador retardava um pouco. De certa feita, um desses estava tão entusiasmado para concluir uma partida e começar outra, denominada de “negra”, que demorou a atender ao chamado. Da primeira vez recebera um recado mandado pela mulher por um dos seus filhos, avisando-lhe que o jantarado seria servido.

- Diga à sua mãe que já estou indo, - disse-lhe.

Moravam ali por perto, a cinco ou dez minutos do bar. Essa foi a resposta que o advogado Roberto Duarte mandou à sua mulher Laurita Schneider. Após despachado o filho, Roberto continuou entretido como nunca no jogo e descuidou-se do recado recebido. Como diz o velho adágio – quem quer vai, não manda recado – Laurita resolveu ir pessoalmente ao bar e foi logo dizendo:

- Estou cansada de esperar você e vou servir o jantarado, que é quase um jantar, - exclamou ela.

Roberto, com aquela fleuma, acudiu-lhe:

- Pode ir, bem, não vou demorar.

Mas a partida estava emocionante demais para ele sair assim tão de repente, conforme observaram os mirões, e com mais uma rodada estaria finda. Só que os fados assim não o quiseram. Haveria outra jogada e Roberto não estava disposto a passar procuração e ninguém para concluí-la. Quando o jogo estava terminando Laurita inesperadamente entrou bar adentro e, de mãos nas cadeiras, bradou em alto e bom som para quem quisesse ouvir:

- Isso aqui é um verdadeiro estraga lar!!

Ditas essas palavras ela deixou o ambiente e, atrás dela, Roberto. Coincidentemente, nesse dia, acompanhando Antônio Cavezan Barcellos, o Dr. Barcellos, lá estavam os seus bons amigos e jornalistas Jackson Lima e Francisco Flores, o Chico Flores. O primeiro, já falecido, fazia o editorial de A GAZETA e o Chico Flores, massa de jornalista, é hoje exponencial desse mesmo jornal.

Ainda ecoava a expressão forte, momentânea e de indignação proferida por Laurita – “isto aqui é um verdadeiro estraga lar!” – e amenizar era preciso. As três figuras citadas, a um canto, começaram a confabular. Terminados os entendimentos dirigiram-se a Zé de Martin perguntando-lhe:

- Zé, você já colocou nome neste bar?

Ao que ele respondeu:

- Não.

- Pois bem, você já tem um nome. O bar se chamará Estraga Lar.

- O que é isso? Vocês estão querendo acabar com o meu comércio? Querem que eu quebre?

- Pelo contrário, por causa desse nome o seu bar vai acabar ficando conhecido em boa parte do Brasil.

- Como assim? – retrucou Zé.

- Essa Estraga Lar vai ser escrito de uma maneira diferente. Ao invés de duas palavras, vai ser uma só e começará não com “e” mas “s”: Stragalar.

- Ta bem. E o resto?

- Para tirar o peso da expressão de Laurita, ela será a madrinha do nome, descerrando a placa ou o nome pintado.

- E ela aceitaria?

- Claro que sim. Por que não?

Ouvindo a conversa estava Edson Novaes, já falecido, que era desenhista profissional de mão cheia. Ele interrompeu dizendo:

- Deixa comigo. Eu comigo. Eu desenharei e pintarei o nome.

- Pode ser aqui mesmo, nesta coluna – apontou Zé de Martin.

Ficou tudo combinado e no dia seguinte A GAZETA divulgava uma nota sobre o nome do bar.

Laurita, devidamente avisada, não se fez de rogada. Na hora e dia aprazados lá estava ela pronta para descerrar o pano de cetim branco, sinal da paz, que cobria o nome Stragalar. Roberto, o marido pivô da estória também marcou presença.

Descerrado o nome sob calorosa salva de palmas, com certeza Laurita proferiu algumas palavras que o momento exigia, com a verve que lhe é particular, seguida, sem dúvida por outros oradores não menos entusiasmados e, fechando a solenidade, o proprietário do bar, José Martin, agradeceu o inesperado acontecimento. Foi assim que surgiu o nome Stragalar. Por um bom tempo – pois o bar funcionou por quase 10 anos, senão isso – aquele nome ficou estampado na mesma coluna.

Como José de Martin pretendia ampliar seu ponto comercial instalando também um restaurante e o local não permitiria a ampliação desejada, ele resolveu fechá-lo, abrindo outro estabelecimento pouco mais à frente, na praça Almirante Tamandaré, ao lado da Casa da Memória. Era o comércio dos seus sonhos, que tivava do “cardápio” o jogo de buraco. Pensam que ele esquecera o amor antigo? Não. Lá à frente desse estabelecimento, há quase vinte e dois anos, é ostentado, na fachada, o luminoso com o nome Restaurante Stragalar.

 

Autor: José Anchieta Setúbal
Fonte: Ecos de Vila Velha, 2001

Nota do Autor 1: O pai de Laurita, Godofredo Schneider, quando judicava, foi um dos maiores expoentes do Estado do Espírito Santo e por isso muito respeitado nas lides forenses. Fora prefeito de Vila Velha por um ano (de 1929 a 1930). Laurita é irmã do competente clínico geral, Dr. José Luiz Schneider, com relevantes serviços prestados à comunidade canela-verde. Ele foi também médico da fábrica de chocolates Garoto, onde se aponsentou, mantendo-se, no entanto, em atividade seu consultório.

Nota do Autor 2: Jantarado é o mesmo que almoço tardio que era oferecido aos domingos, dia em que não havia jantar.

Nota do Site A: No dia 15 de dezembro de 2001 o Stragalar mudou mais uma vez de endereço, indo para o prédio do Centro Jurídico, em frente à Praça da Bandeira (Praça da Igreja do Rosário) na Praínha. Zé Martin não chegou a ver o Stragalar funcionando no imóvel novo e próprio, que era o seu grande desejo, deixar esse legado para que algum dos seus filhos (Franco, Fábio e Fausto) assumisse o seu restaurante e mantivesse os seus dons na culinária e o bom trato com os clientes. E foi o que aconteceu: seu filho Fausto hoje comanda o restaurante e como alguns dizem, com a mesma aptidão que herdara do pai.

Nota do Site B: José de Martin Sobrinho faleceu em 23 de maio de 2001.

Nota do Site C: O casal Roberto Duarte (falecido) e Laurita Schneider teve cinco filhos: Tadeu, Maurinho, Beatriz, Letícia e Adriana.

Material foi compilado por Walter de Aguiar Filho, fev/2011

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