Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Textos de História Militar do Espírito Santo

Capa do Livro:Textos de História Militar do Espírito Santo, 2008 - Autor: Getúlio Marcos Pereira Neves

Introdução

 

A História se fez inicialmente como História Militar, porque aos cronistas interessavam sobretudo os feitos notáveis, os dignos de nota, que assim sobressaíssem dos acontecimentos comuns do cotidiano. E eram estes, em sua maioria, os feitos das armas. Servia a História não só ao propósito do registro da memória destes fatos, mas também da dos vultos que os praticaram, para que assim servisse de exemplo às novas gerações o que de alguma maneira se sobressaísse por seu esforço próprio, ou como o cabeça de uma conjugação de esforços.

A História já não mais é escrita assim, e já não se pode dizer que sirva, hoje em dia, a propósito tão simples.A análise do fato histórico faz-se, hoje em dia, tendo como ferramental ideologia pré-concebida, a fim de demonstrar ou justificar uma ideia ou um ponto de vista.

Onde se insere, hoje em dia, o estudo dos fatos notáveis e dos vultos que os produziram, ou lideraram sua produção? Notadamente entre os não-profissionais, os não treinados naquela técnica de análise finalística do fato, que assim continuam, taxados de arcaicos, a apresentar o fato histórico em si ou produzir análises de causa-efeito sem maiores propósitos ideológicos.

Como consequência da nova forma de escrever a História, a vertente Militar foi sendo cada vez mais relegada ao interesse exclusivo dos profissionais das armas que, felizmente tendo pouca oportunidade de pôr em prática os estudos de estratégia lecionados nas Academias Militares, serviam-se de análises de campanhas e de batalhas bem documentadas para demonstrar suas teorias de ação.

No entanto, abre-se hoje em dia um novo campo para estudo da História Militar, na medida que os novos historiadores preocupam-se com a repercussão e as consequências do fato histórico-militar em si sobre a vida da coletividade.

Para nós, brasileiros – e ao contrário do que se pensa correntemente – a organização militar da sociedade é muito mais próxima do que se imagina. Como de resto em todo Brasil, no Espírito Santo a população desde sempre pegou em armas para se defender, fosse de ataques indígenas (e aqui o relativismo histórico passou em dada altura a identificar o europeu como o inimigo a ser combatido – e o mais engraçado, sem que os intelectuais produzam seus escritos na língua-geral, como já preconizava Policarpo Quaresma) ou de estrangeiros, sendo notável que a população precariamente organizada – indígenas aliados tiveram aqui papel primordial – tenha infligido derrotas tão pesadas a profissionais do quilate de um Thomas Cavendish ou em Pietr Heyn. A organização militar, que fez de todo brasileiro desde sempre um potencial soldado, conheceu a organização local de milícias, de ordenanças, da Guarda Nacional, até desembocar, em tempo de paz, no serviço militar obrigatório, que nada mais é que a herança de instituições, por sua vez herdadas do passado ibérico.

Ao contrário do que pode pensar a intelectualidade acadêmica, o levantamento de fatos deste jaez pode impedir a mitificação de líderes ou até mesmo de uma identidade desmarcada, o que não interessa num ambiente de utópico igualitarismo. Especificamente nos registros feitos acima, da defesa vitoriosa da praça de Vitória dos ataques corsários nos séculos XVI e XVII, a análise da dinâmica dos combates vai apontar, além do denodo dos defensores, as dificuldades de mobilidade das naus no porto problemático, as condições adversas ao desembarque de tropas e, por outro lado, as condições favoráveis de defesa, pela geografia acidentada bem defronte aos locais onde se tentaram os desembarques e que permitia fossem postadas troços de arqueiros e peças de artilharia para repelir as iniciativas.

O Espírito Santo teve, sim, historiadores que se ocuparam da História Militar. Alguns sem nem mesmo saber que o faziam, e a maioria sem preocupação com sistematização. No entanto, a nova maneira de fazer História, o novo foco dos estudos, com o consequente banimento dos registros de fatos notáveis, chegou até aqui sem que, como em outros lugares, toda a produção pudesse ser organizada. Também por isto o que passa para ao resto do País é que o Espírito Santo é carente de feitos históricos de monta, de vultos importantes, de ideias vencedoras. Procura-se, nesta quadra da história do nosso Estado, reverter esta situação, e a forma inicial de fazê-lo é inventariando o que se produziu até aqui – o que, de resto, é básico em termos de metodologia de pesquisa.

Este é o propósito deste livro. Trata-se, o nome já o diz, de uma coletânea de textos, textos estes da mais diversa natureza: poema épico, ensaios históricos, crônicas, correspondência oficial e particular. Alguns não publicados, outros sumidos de circulação, alguns novamente acessíveis, pela reedição das obras em que foram ultimamente veiculados. Todos versando sobre fatos do domínio da História Militar do Espírito Santo, um estado rico em acontecimentos que demonstram a intenção da população de aqui se assentar, de defender sua terra, de contestar  desmandos oficiais, de reagir a injustiças, de integra-se nos esforços nacionais por uma causa comum fora de seus limites geográficos. E nestes textos, ora reunidos, especificamente por meio de armas, ou sob organização e regulamentação militares.

O interesse do levantamento e reunião desses registros para a historiografia do Espírito Santo é inequívoco. Seja porque põe a descoberto não só o esforço de auto-defesa, por um lado, e de expansão, de outro, da população, seja porque – e aqui no nível de metodologia de pesquisa – procura sistematizar um ramo de investigação tradicionalmente não muito contemplado entre nós como tal. Daí sua originalidade.

Por último, de se esclarecer que, para fins de sistematização, os textos foram agrupados, independente de cronologia, em três seções: “Antes do Espírito Santo” traz os textos da Segunda Década da Ásia, de João de Barros, onde se registram feitos de armas de Vasco Fernandes Coutinho nas campanhas de Goa e Málaca; “Fortificações e Forças Militares” agrupa registros sobre a criação e o estado, em determinadas quadras, das forças militares que aqui estacionaram, bem como dos trabalhos de fortificação de Vitória, na época em que constituía um bastião contra a penetração no interior; “Conflitos” agrupa registros sobre combates pela terra, participação de forças capixabas em conflitos externos, alterações diversas que envolvem, de alguma maneira, a intervenção de forças armadas.

O estudo dos fatos e acontecimentos militares no Brasil se faz com base em sistematização preconizada no Manual “Como Estudar e Pesquisar a História do Exército Brasileiro”, do Cel. EB Cláudio Moreira Bento, que transcrevi no meu História Militar e Apontamentos para uma História Militar do Espírito Santo, publicado em 2005 com a chancela do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, e que constitui o primeiro volume da Coleção João Bonino Moreira. Os textos aqui transcritos foram referidos, em sua maioria, naquele trabalho, que se pretendeu constituir num pequeno manual para o desenvolvimento das pesquisas do ramo no Espírito Santo, e do qual o presente volume é, sem dúvida, complemento útil.

Segue-se a apresentação de cada um dos documentos integrantes desta coletânea, tratados aqui como fonte primária, com o fim de situar o pesquisado, e mesmo o leitor comum, auxiliando-o na contextualização e na atribuição do valor devido a cada um deles.

 

Fonte: Introdução do livro "Textos de História Militar do Espírito Santo", 2008
Autor: Getúlio Marcos Pereira Neves 

História do ES

Cine São Luiz

Cine São Luiz

O acervo documental referente a "História da Exibição Cinematográfica no Espírito Santo" iniciou no curso de Especialização Lato Sensu, do Departamento de História da UFES no ano de 2000, desdobrada na pesquisa de dissertação no Mestrado em História Social da Relações Políticas da UFES e que resultou no livro No Escurinho dos Cinemas

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Duarte de Lemos x Vasco Coutinho

Em contraste com o cavalheirismo pródigo de Coutinho, Duarte de Lemos é um ambicioso e frio, calculador e intrigante

Ver Artigo
Vasco – Viagens e Ilusões

Embarcou o capitão-mor provavelmente em 1539, deixando o turbulento D. Jorge de Menezes, valente porém antipatizado por todos, à testa do governo

Ver Artigo
A Vila de Vitória surge - Por Serafim Derenzi

As guerrilhas com os tapuias tornam-se cada vez mais assustadoras e mortíferas. Duarte de Lemos deixou a ilha praticamente abandonada

Ver Artigo
Epidemias e Ameaças - Por Serafim Derenzi

Os franceses, que ameaçaram a costa em 1551, voltaram em 1558 ao Porto de Vitória, onde dormiram 

Ver Artigo
Vasco Fernandes Coutinho Filho e D. Luiza Grimaldi

Concluo, dos nobres que aportaram à Capitania do Espírito Santo, ser ela a de melhor e mais pura linhagem

Ver Artigo