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Tiros de Guerra 105 e 277

3º Batalhão de Caçadores e atualmente 38º Batalhão de Infantaria

Começo de 1945, estávamos em plena Segunda Guerra Mundial. Éramos estudantes e no ano seguinte teríamos que nos alistar no Exército e, antecipando-nos à convocação, como tantos outros colegas da faixa etária dos 17 anos, resolvemos nos alistar no Tiro de Guerra.

Em Vitória havia dois deles, o 105 e o 277. Fora sinalizado que em 1945 os Tiros de Guerra extinguiriam suas atividades em Vitória, como realmente aconteceu. Como apêndices das Forças Armadas, ofereciam o mesmo tipo de treinamento bélico e disciplinar. Os soldados tinham algumas regalias, mas não recebiam uniformes, refeições, dormida nos quartéis nem soldo, tendo ainda que concorrer com as despesas que obrigatoriamente se faziam. Ao invés de receber o soldo desembolsávamos mensalmente recursos para manutenção da estrutura do Tiro de Guerra.

Geralmente, quem mais utilizava esse serviço militar eram os estudantes, seguidos daqueles que aos dezessete anos tinham interesses profissionais que uma vida militar convencional poderia prejudicar. Mas a grande maioria constituía-se mesmo é de estudantes.

Seja pelo desejo de prosseguir os estudos, seja porque precisassem exercer suas atividades profissionais, gozavam esses soldados de algumas vantagens. A começar pelo uniforme, cujo uso não era obrigatório. Os soldados utilizavam-no publicamente quando a caminho da sede do Tiro de Guerra para o serviço militar, o que se verificava em todos os dias da semana e também aos domingos e feriados, quando era realizado treinamento em campo aberto. Nos dias úteis os soldados se apresentavam sempre ao cair da noite, após o horário escolar. Nos fins de semana e feriados, na parte da manhã, podendo o treinamento estender-se até a tarde. Fora dessas ocasiões, o soldado era um paisano como outro qualquer, ao contrário dos militares residentes nos quartéis, que eram obrigados a usar o uniforme em todas as ocasiões, ficando à inteira disposição do Exército ou de qualquer outra das Armas em que servissem, e mesmo de folga nunca perdiam a identidade militar. Nessa condição muitos faziam carreira de cabo chegando ao oficialato e, pelos seus méritos, reformavam-se num desses postos. As Forças Armadas hoje exigem, acima de tudo, daqueles que desejam fazer carreira e se graduar nas suas fileiras, vocação, boa formação e interesse. Sem esses requisitos o convocado não passará de cabo, a menos que atenda ao concurso de ingresso.

 

Alistamo-nos no Tiro de Guerra 105 em fevereiro de 1945 e somávamos pouco mais de 80 homens. Chegamos ao final da jornada com 65 a 70 dos inscritos por falta de interesse de alguns alistados ou da corporação em mantê-los nos seus quadros. Os nove meses foram um longo e cansativo período para nós como para a maioria dos outros, que tínhamos mais de uma atividade a cumprir. Ao fim da jornada recebemos o certificado de reservista de 2 categoria, já que o de 1 é conferido apenas aos militares que prestam serviços nas Unidade de Guerra e o de 3 aos apresentados que não chegam a servir por excesso de contingente ou por serem inaptos para o serviço militar.

O Tiro de Guerra 277 detinha o triplo do nosso contingente e, pelas suas instalações – no Clube Saldanha da Gama, com maiores espaços físicos, regalias e conforto – era tido como elitizado.

O 105, por outro lado – instalado numa sala ampla com duas portas de aço que se abriam quase ao rés da calçada, sem janelas ou outras aberturas nas laterais, à avenida Capixaba -, não era assim considerado. A sala comunicava-se diretamente com a avenida e, para que o calor e o desconforto não fossem maiores, era dela separada por um biombo de madeira que ficava diante de uma das portas, proporcionando alguma privacidade em relação aos passantes e diminuindo nosso interesse na identificação de vozes e falas de passantes que nos faziam voltar a cabeça para trás em prejuízo das instruções que estavam sendo ministradas.

A vida de um soldado de Tiro de Guerra não era o mar de rosas que muitos apregoavam, mas por assim entenderem criaram o apelido de Caçador de Rolinha para designá-lo. Não sabemos se esse apelido perdurou. A verdade é que além de servir à sua corporação, esses soldados – a maioria com 18 anos de idade incompletos – ainda estudavam, obedecendo a horários rígidos. Durante o dia eram estudantes e à noite, militares.

No desconforto das nossas acomodações recebíamos aulas teóricas sobre comportamento militar em ação, disciplina hierárquica com seus enquadramentos e prática no desmonte de armamentos. O nosso instrutor e responsável pela formação da turma era o 1 Sargento do Exército Josias Miranda, vindo de fora e que não sabemos se ainda está vivo. Para nós ele era simplesmente o Sargento Josias, um bom instrutor, exigente e disciplinador, além de cumpridor dos seus deveres, e por isso cumpríamos os nossos. Ele era “caxias”, como se diz na caserna.

Cerradas as portas da nossa sede, recebíamos as instruções de ordem unida e outras que o momento comportava, isso a partir das 20:00 horas, na rua dos fundos do mercado da Capixaba. Naquele local, o cais ainda não havia progredido para o mar. Por causa disso, com as marés baixas na lua cheia e nova, recebendo os despejos de esgoto de toda sorte e com lama negra à mostra, exalava, naquelas cercanias, incontrolável fedentina. Para levantar o nosso moral, o Sargento Josias costumava dizer-nos que o incômodo provocado pelo forte mau cheiro moldava-nos a suportar os incômodos a que estava sujeito o solado em ação. E concluía:

- Na guerra é muito pior. Quem saber se esta que aí está não alcançará vocês?

Que moleza era essa atribuída ao nosso serviço militar? Aos de 1 categoria era reservado o descanso aos sábados e domingos, afora os plantões, enquanto a nós não eram oferecidos esses dias, pois ficávamos sempre à disposição do instrutor, inclusive nos feriados.

Fazíamos de tudo: instrução de combate com táticas de camuflagem pelos matos e várzeas de Vila Velha, Vitória e outros municípios; marchas diurnas e uma noturna em torno da ilha de Vitória, terminando altas horas da noite; desfile na parada de 7 de Setembro puxado pela nossa modesta, porém briosa fanfarra, etc.

Lembramo-nos de uma marcha diurna que fizemos saindo da nossa sede, na avenida Capixaba, e indo até Vila Velha, no 3 BC.

Quando lá chegamos recebemos instrução de tiro ao alvo e em seguida almoçamos. O mais importante dessa jornada é que, ultrapassada a Ponte Florentino Avidos, em São Torquato, tomamos o rumo da antiga estrada de rodagem – a Rodovia Lindenberg ainda não existia – passando pelo Alecrim, com seus imensos manguezais, pelo lado norte e que se estendiam até e além das pontes de bonde, ligando o Ataíde à Ilha da Conceição e esta à Vila Garrido. Esse manguezal exuberante do Alecrim, localizado onde temos hoje Santa Rita, encostava à margem da estrada, escondendo, nessa posição, perigosos atoleiros disfarçados por fina camada de barro levada pelas chuvas que, misturada à lama, funcionava como areia movediça. Era do nosso conhecimento a existência desses atoleiros, assim como de algumas cabeças de gado desgarradas da manada que ali haviam ficado presas. Entretanto não esperávamos nessa marcha, testemunhada por mais de meia centena de soldados do Tiro de Guerra 105, fôssemos confirmar isso, encontrando um boi atolado naquele preciso local. Ao observarmos a posição do anima, chegamos à conclusão de que por ele próprio jamais teria tido chance de escapar. Era evidente que estava exausto, conseguindo por sua própria conta apenas manter parte do pescoço e cabeça fora da lama. Seu peso e o movimento das patas determinaram, sem dúvida, a submersão gradual do seu corpo. No instante em que o encontramos só era perceptível o balançar da sua cabeça e o abanar das orelhas. O boi precisava ser socorrido urgentemente ou acabaria tragado pelo lamaçal. Todos ficamos comovidos com o quadro, inclusive o próprio Sargento Josias que, de pronto, deu ordem de alto ao pelotão, dispersando-o para que se procedesse ao salvamento.

Primeiro era preciso chegar até a rês. Nas imediações foram apanhados tábuas, paus e pedras para que chegássemos até ela sem nos atolar e para que pudéssemos dar início à tarefa. Conseguimos um lugar firme para nos apoiar com a colocação dos entulhos de pedras e paus. Com cordas improvisadas passadas pelos chifres e pescoço do animal e pelo rabo dele mergulhado na lama e alcançado com muita dificuldade, em arrancadas ritmadas começamos a puxá-lo para cima. Aos poucos, para nossa satisfação, observamos que o boi começou a desprender do atoleiro e que, com mais alguns puxões, estaria todo fora. Isso feito, arrastamo-lo para um lugar firme.

Não tivemos o prazer de vê-lo em pé, mas o deixamos numa posição propícia para que o fizesse assim que reunisse as forças necessárias.

Depois disso, tropa em forma, com lama em seus bate-butes e respingos nas fardas, sob a voz de “ordinário” e “marche” do sargento, prosseguiu no seu rumo pela estrada e fora em direção ao 3 BC. De uma curva da subida, ganhando o Morro do Ataíde, avistamos, para nossa surpresa, o boi já de pé. Alguém, não se contendo, gritou:

- Sargento, o boi se levantou!

Pela observação, instintivamente, a tropa exultante deixou escapar, em meio a forte alarido, uma uníssona salva de palmas, dela participando o Sargento Josias. O salvamento fora um sucesso e a marcha prosseguiu penetrando no corte dos domínios do Santa Clara, local e morro de mesmo nome, quando começávamos a matutar sobre os acontecimentos que instantes atrás nos haviam proporcionado algum bem-estar. O animal que salváramos da morte lenta, sufocado pela lama, dali a poucos dias ou horas seria, com certeza, por ironia do destino, sacrificado no Matadouro Municipal. Aquela estrada era o caminho trilhado por esses animais em direção ao abate. Aquela rês desgarrara-se da manada, mas não se safara da armadilha do atoleiro e nossa ajuda apenas retardara o seu fim. Seus algozes saberiam onde e como encontrá-la.

Absorto nesse pensamento, do morro Santa Clara havíamos passado pelo Bosque e chegávamos à região do Aribiri, seguindo em direção ao que seria hoje o posto de combustível na esquina com a Rodovia Carlos Lindenberg. Daí para a frente, coberto de barro, era o leito da estrada velha ligando Vila Velha e Vitória. De um ponto a outro, ultrapassada a Ponte florentino Avidos, eram dez quilômetros de chão, barro mesmo. Hoje este percurso está totalmente descaracterizado e se preserva apenas na lembrança de quem o conheceu.

 

Livro: Ecos de Vila Velha, 2001.
Autor: José Anchieta de Setúbal.
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2011

 

 

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>> A Criação do Tiro de Guerra no ES 



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