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Traços Biográficos de Aristides Freire

O prof. Dr. Arnulfo Mattos, Presidente do IHGES, discursa ao pé do monumento de Domingos Martins, na Praça João Clímaco, por acasião das comemorações de 12 de junho de 1944, dia de Domingos Martins

A biografia que abaixo publicamos, do renomado professor Aristides Freire, foi lida pelo deputado Fernando Rabelo, líder do Partido Democrata Cristão na Assembléia Legislativa do Estado por ocasião em que o conhecido homem público espírito-santense apresentou um requerimento pedindo à Casa, constasse em ata a homenagem do Legislativo estadual à memória do nosso grande educador.

 

“Na tradicional ladeira de S. Bento, desta Cidade, em secular prédio que ainda se vê, nasceu o Professor Aristides Freire, a 18 de dezembro de 1849. Era a chácara do Mulundum, propriedade do pai, também espírito-santense – Francisco Rodrigues de Barcelos Freire. Filiado ao partido conservador, deputado provincial em sucessivas legislaturas; secretário da Câmara Municipal; e, em 1851, Administrador de Rendas Provinciais. Barcelos Freire mereceu, em 1851, ser agraciado com a Ordem da Rosa, Secretário do Governo em 1871; e um dos primeiros diretores da Caixa Econômica, instalada em 1875, pode Aristides Freire muito cedo aprender com o venerando Progenitor a servir e a trabalhar pelo Espírito Santo onde já alquebrado, pouco antes de falecer em 1892, ainda Barcelos Freire assumiu a Promotoria Pública da Capital.

Aristides Freire cursou o primitivo Liceu Provincial, e foi aluno do afamado latinista Inácio dos Santos Pinto. Jamais estudou fora da acanhada Capital provinciana, onde tornou-se afinal um admirável exemplo de autodidata.

Muito jovem, designado para reger a 2ª cadeira de ensino primário, no bairro da Capixaba, deixou crescer a barba, como aparece nos mais antigos retratos, dizia anos depois, preocupado em não parecer muito creança, entre os temidos alunos, cujas diabruras muito haviam torturado o velho professor a quem substituiu.

Dessa modesta aula de primeiras letras, teve a satisfação de ver alguns alunos, que fez inscrever nos exames de Português, saírem aprovados com relevo. Divulgado esse fato, foi designado para a cadeira dessa matéria no Colégio N. S. da Penha e no Ateneu Provincial.

Deputado no biênio 1876-1877, a Assembléia provincial o elegeu seu 1º Secretário. Voltou a ser deputado na primeira constituinte, tendo sido um dos signatários da Constituição estadual de 20 de junho de 1891.

Nos últimos anos do Império exerceu as funções de membro do Conselho da Caixa Econômica.

Com Eugênio Wetzell e sob a presidência de Manoel Pinto Neto, participou da primeira diretoria do banco Espírito-Santense, em 1893. José Cândido de Vasconcelos registrou, em uma biografia de Aristides Freire, o insucesso dessa organização. Havia o Banco adquirido na Europa um moderno navio para servir ao comércio capixaba que não cessava de queixar-se da deficiência de transporte. Ao penetrar no Rio, ignorando a Revolta da Armada, o navio foi apreendido pelos revoltosos, carregado de mercadorias, e transformado em transporte de guerra. Findo o movimento, fez-se mister mover um demorado pleito para o Banco, levado, por isso, a liquidação, receber do governo a indenização do prejuízo.

A Associação Econômica e Auxiliadora do Professorado Primário, iniciativa de outro devotado espírito-santense, Amancio Pereira, teve em Aristides Freire um grande animador para instalá-la.

Participou igualmente da fundação da Sociedade Beneficente Auxiliadora, mantida até hoje, e da qual foi vários anos presidente.

Na “História da Literatura Espírito-Santense”, Afonso Cláudio registrou-lhe a atividade em outro setor; o teatro particular. Tendo constituído com alguns amadores a Sociedade Melpomene, viu-se por veses solicitado a escrever ligeiras peças para acudir à sociedade durante as crises que ameaçavam destruí-la.

Assim dominou algumas, pois, não obstante escritas apressadamente, suas peças teatrais representadas no teatrinho da rua José Marcelino, onde depois funcionou a escola da saudosa educadora Professora Eliza Paiva, lograram o êxito que o historiador registrou. Velho Sobrinho registra alguns de seus trabalhos dessa época, no “Dicionário Bibliográfico Brasileiro.”

Colaborador, durante muitos anos, do órgão político o “Espirito-Santense”, Aristides Freire publicou, a partir de 1883 um periódico de sua propriedade. “Redator e proprietário de ‘A Folha da Vitória’, jornal de sua criação – descreve José Candido – não raras vêses via, calmamente a devolução de seu jornal, repudiado no interiro da Província, onde o elemento escravocrata não tolerava que um órgão conservador, embora distante, fosse extremado abolicionista”.

O jornalista, além disso, fomentava a criação, na Capital, de sociedade emancipadora, sempre à frente desse humanitário movimento.

A atitude desassombrada do jornal provocou uma agressão a Adrião Nunes Pereira, um dos seus redatores; e Aristides Freire escapou de idêntica violência porque, para agredi-lo, o elemento assalariado foi buscar um companheiro entre os empregadores de um amigo e admirador do jornalista.

Perdurou “A Folha da Vitória” até julho de 1890, tendo prestado eficaz concurso ao primeiro governo republicano.

Fundado com Antonio Aguirre e o Barão de Monjardim a “União Republicana Espirito-Santense” nesse ano, Aristides Freire aparece a seguir com Joaquim Lirio e Aguirre como redatores de “O Federalista”, órgão dessa agremiação partidária.

Com o afastamento, logo depois, do Barão de Monjardim, assume Aristides Freire, a 1º de janeiro de 1894, a direção do “Comércio do Espírito Santo”, novo órgão da “União Republicana”. Nesse jornal manteve constante oposição á primeira administração de Moniz Freire. Criticava, entre outras coisas, quem, em uma capital desprovida de água, luz e esgotos, fosse erguido, nas condições em que estava sendo construído, um dispendioso teatro de madeira.

Criticando, em setembro de 1896, a estranha acumulação da Curadoria de Órfãos e da Procuradoria da Fazenda na mesma autoridade, o Promotor Público Augusto Braga, que então defendia assim interesses contrários num vultoso inventário, foi Aristides Freire inopinadamente agredido pelo Promotor, na esquina do atual Colégio S. Vicente. Muito nervoso, não soube o agressor manejar na ocasião o revolver antiquado de que se utilizou.

Após esse incidente, desgostoso, Aristides Freire abandonou a política e o jornalismo.

No artigo com o qual ele e Antonio Aguirre despedem-se, ao deixarem o “Comercio”, em 12 de novembro de 1896, escreveram: “Um dia se nos apontará como exemplos raros de que nem todos os políticos foram ambiciosos neste Estado”. É que a “União Republicana”, tendo em seu diretório um republicano impoluto como Aguirre, e chefes prestigiosos como Bernardo Horta, Raulino de Oliveira e outros, no intuito de pacificar a política do Espírito Santo, um elemento do próprio partido dominante, capaz de estabelecer a desejada harmonia, o então senador Domingos Vicente. Por sua vez, Aristides Freire, contestando em carta ao DEMOCRATA a notícia de sua candidatura às eleições de 1893, escrevera que queira “ser na União o que sempre fui no partido conservador – um exemplo vivo de que se pode ser político sem ser ambicioso”.

Recolhido à vida privada, volta ao magistério, e ainda com Antonio Aguirre funda em 1896 o Ateneu Santos Pinto. Aí, porém, Moniz Freire, então pela segunda vez na presidência do Estado, fê-lo nobremente interromper uma de suas aulas para, surpreendido, receber a honrosa visita de outro adversário político, o ilustre Henrique Alves de Cerqueira Lima. Este, sendo então Diretor da Escola Normal, quizera, ele mesmo, ser o portador do convite do digno Presidente do estado para que o velho Professor retornasse à sua antiga cadeira de Português, desta feita naquele estabelecimento do governo.

Nomeado, por ultimo, para a Inspetoria Geral do Ensino, aposentou-se como assistente do notável educador Deocleciano de Oliveira.

Tendo sido, em 1916, um dos fundadores do nosso colendo Instituto Histórico e Geográfico, Aristides Freire, que faleceu nesta Capital, a 25 de julho de 1922, já não pode participar da Academia Espirito-Santense de Letras, que o inscrevera como um de seus primeiros membros. Em carta que a ilustrada Academia divulgou, escusou-se de participar do movimento, por sua avançada idade.

Esse o digno espírito-santense, cujo nome, atribuído em 1928 ao primitivo grupo escolar da próspera cidade de Colatina, o governo houve por bem manter, como um exemplo à mocidade de nossa terra, quando em 1938 inaugurou o novo grupo escolar da mesma florescente cidade.

Eis, em traços rápidos, a biografia do grande educador a quem muitas gerações de espírito-santenses devem serviços inestimáveis à sua formação moral e intelectual.

Aristides Freire, como vários outros varões que envelheceram dedicando-se à grandeza e felicidade de sua terra, tornou-se, sem duvida, um modelo, exemplo de professor, de homem público, de chefe de família patriota, eis porque a nossa homenagem se reveste de especial sinceridade e espontaneidade à memória desse grande benemérito educador, ao mesmo tempo que pedimos seja ela transmitida ao seu digno filho, dr. Mario Aristides Freire, que tão bem o soube imitar nas suas elevadas virtudes.

Eis porque, sr. Presidente, a Casa naturalmente, se associará com toda a sua simpatia a esse gesto de solidariedade e de profunda admiração ao velho professor.

Era o que tinha a dizer”.

 

Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Nº 65, 1949 (Edição 2011)
Nota: Publicado no Jornal A Tribuna de 20/12/1949
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2012 

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