Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Tropas: um tema para poesia – Por Ormando Moraes

Peitoral com cincerros - Desenho: Sergio Lucio

As tropas e os muares, sobretudo representados na figura do burro, constituíram, em seu tempo, um tema poético bastante utilizado, tanto em âmbito nacional quanto regional.

Seria preferível reproduzir aqui apenas a poesia capixaba, porém, não se consegue resistir à tentação de transcrever, por exemplo, "A festa do burro", do Padre Antônio Vieira: —

— Quanto deves sofrer! que vida a tua!

Falou uma cabra a um burro, certa vez.

— Com cabresto eu não durava um mês!

— Oh! — diz o burro — a gente se habitua.

Depois, quando, aos domingos, o patrão

Põe-me o penacho, que é uma raridade,

Para levar-me à feira da cidade,

Esqueço tudo. Que felicidade!

 

De um clássico da língua portuguesa, Guerra Junqueiro, existe um poema, "A moleirinha", de uma beleza comovente e do qual vão aqui alguns versos:

Pela estrada plana, toc, toc, toc,

Guia o jumentinho uma velhinha errante.

Como vão ligeiros, ambos a reboque,

Antes que anoiteça, toc, toc, toc,

A velhinha atrás, o jumentinho adiante!...

Toc, toc, a velha vai para o moinho,

Tem oitenta anos, bem bonito rol !...

E contudo alegre como um passarinho,

Toc, toc, e fresca como o branco linho,

De manhã nas relvas a corar ao sol

.......................................

Toc, toc, toc, lindo burriquito,

Para minhas filhas quem m'o dera a mim!

Nada mais gracioso, nada mais bonito!

Quando a Virgem pura foi para o Egipto,

Com certeza ia num burrico assim.

.......................................

Toc, toc, como o burriquito avança!

Que prazer d'outrora para os olhos meus!

Minha avó contou-me quando fui creança,

Que era assim tal qual a jumentinha mansa

Que adorou na palha o menino Deos.

 

Da produção poética capixaba vale a pena citar e transcrever o bonito poema, "Madrinha da tropa", de autoria do saudoso Elmo Elton, assim como "Os tropeiros", do poeta Carlos Campos:

Madrinha da tropa

Lá vem, num galope,

madrinha da tropa.

Vem toda enfeitada

de fitas vermelhas,

douradas e roxas:

Vem toda bonita,

com arreios de prata,

madrinha da" tropa! "

Perfume da Serra"

vem vindo, ligeira,

fazendo barulho, sineta batendo

aldeia acordando

do sono da tarde.

 

Madrinha da tropa

entrou no arraial.

Que tanta algazarra

na voz dos meninos!

As donas de casa

se põem às janelas

e atiram-lhe flores.

"Perfume da Serra",

num trote garboso,

nem olha os meninos,

nem vê a homenagem

das donas de casa.

 

Madrinha da tropa,

assim colorida,

com fitas vermelhas,

douradas e roxas,

com arreios de prata,

sineta batendo,

é a nota mais linda,

a nota encantada

das tardes da aldeia.

 

Madrinha da tropa,

"Perfume da Serra"!

Rainha das tardes,

rainha matuta

das longas estradas

do nosso Brasil !

 

Os tropeiros

 

Num paralelo formado,

entre o presente e o passado,

quanto aos meios de transporte,

veremos em nossos dias,

que as modernas rodovias

nos trouxeram melhor sorte.

 

Antigamente, o transporte,

fosse do sul ou do norte,

pelo sertão brasileiro,

era mantido sem falha,

pelos burros de cangalha,

comandados por Tropeiro.

 

Os lotes eram formados

por dez burros adestrados,

para as pelejas do dia...

Esses muares tangidos

levavam peso aos gemidos,

seguindo a mula de guia...

 

Atravessando atoleiros,

os caldeirões, os bueiros,

com muita dificuldade;

mas a tropa ia rompendo,

com seus cincerros batendo,

para alcançar a cidade!

 

Cremos que a mola real

da vida comercial

dos centros interioranos

tinha como pioneiro,

o transporte do Tropeiro,

nos passados longos anos!

 

Seria muito expressiva

a feliz iniciativa,

para a estátua do Tropeiro!

Ele foi, nesses setores,

um dos grandes propulsores

do comércio brasileiro!

 

Fonte: Por Serras e Vales do Espírito Santo – A epopéia das Tropas e dos Tropeiros, 1989
Autor: Ormando Moraes
Acervo: Edward Athayde D’ Alcantara
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2016

Literatura e Crônicas

Quase cromo – Por Roberto Mazzini

Quase cromo – Por Roberto Mazzini

Reina a paz neste pedaço do estado do Espírito Santo e vou dormir rodeado por folhas, árvores e bichos

Pesquisa

Facebook

Matérias Relacionadas

A transição para o caminhão – Por Ormando Moraes

O caminhão foi entrando mais lentamente, devido à falta de estradas, a partir da década de 20

Ver Artigo
Lendas, folclore, crendices de tropeiros – Por Ormando Moraes

Os tropeiros divulgavam também o caso da figueira mal assombrada da Fazenda do Bandeira, perto de Calçado, onde se ouviam gemidos e gargalhadas à noite

Ver Artigo
Atividades dos Tropeiros – Por Ormando Moraes

O seleiro era um artesão de muita habilidade na fabricação de selas e de todo o arreamento necessário ao animal de carga

Ver Artigo
Roubo de animais no tempo dos Tropeiros – Por Ormando Moraes

Essa prática criminosa tinha mais a característica de furto, visto que os animais eram levados sorrateiramente, às escondidas

Ver Artigo
Medicina tropeira – Por Ormando Moraes

A medicina tropeira voltada para os animais e não para os tropeiros

Ver Artigo
O comércio de muares – Ormando Maraes

Os comerciantes de muares eram chamados muladeiros e eles vendiam tanto animais chucros para serem adestrados pelos compradores, quanto muares já preparados e arreados

Ver Artigo
Impostos e taxas – Por Ormando Moraes

No período áureo das tropas no Espírito Santo, foi mínima a intervenção e a participação do Estado na atividade tropeira

Ver Artigo
Tropeiros percorrem em 20 dias 650 quilômetros de história

Ao longo de 20 dias, um grupo de 13 capixabas está revivendo parte da história do Brasil Colônia ao refazer os passos de Dom Pedro pelo interior do Estado

Ver Artigo
Amores de Tropeiros – Por Ormando Moraes

Um desses amores nasceu lá pelos lados da região de Arataca. Um jovem tropeiro despertou o coração da filha de um abastado fazendeiro

Ver Artigo
Os cometas - Por Ormando Moraes

Os "cometas", assim denominados os viajantes comerciais, porque apareciam nas cidades do interior de tempos em tempos

Ver Artigo
As Tropas – Por Ormando Moraes

Não havia outra alternativa senão o uso de burros e bestas, agora de forma organizada e metódica, com características de empresa

Ver Artigo
Linguajar do tropeiro – Por Ormando Moraes

Por influência do mineiro, que colonizou grande parte do interior do Espírito Santo, a palavra mais usada por nossos tropeiros em todas as ocasiões, era a interjeição uai

Ver Artigo
Os Tropeiros - Por Ormando Moraes

A chegada dos tropeiros aos pontos de parada, era uma festa para os moradores das imediações

Ver Artigo