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Um ateu no convento – Por Areovaldo Costa Oliveira

Festa da Penha, meados do Século XX

Quando vim de Medina (MG) para estudar em Vitória, em março de 1968, trouxe uma carta de recomendação para um tio do colunista social Ronaldo Nascimento, que me recebeu com muita simpatia e atenção. No mesmo dia, lá fui eu, Rua Sete acima, apresentar-me ao Edgard dos Anjos e ao Cacau (José Carlos Monjardim Cavalcanti).

Depois de um rápido teste de redação, me deram a primeira tarefa: uma enquete com os comerciantes da Rua Sete e da Praça Costa Pereira sobre as galerias pluviais que a Prefeitura começou a construir nesses locais e que nunca terminavam. Lembro-me, em especial, do Pasolini, dono da Lanchonete Sete, que enriquecia o meu trabalho falando bastante e indicando outros comerciantes que botavam a boca no trombone.

O redator chefe era José Carlos Corrêa. Havia o Paulo Torre, que comentava cinema e teatro, adorava calçar sapatos gastos e detestava usar meias, tendo ainda o hábito de raciocinar escarafunchando o nariz com os dedos sujos da tinta preta impregnada nos testes de paginação.

Mais tarde, o Rubinho Gomes assumiu com muita competência essa função e, posteriormente, o Cristiano Ramalhete. Erildo dos Anjos, irmão do Edgard, foi admitido e, como ainda não tinha experiência com o ofício, encarregou-se de produzir seções menos complexas, como, por exemplo, o horóscopo. Para tanto, pedia que cada um lhe ditasse a previsão para determinado signo. Pelos comentários dos leitores sobre os acertos, concluímos, desde então, como é fácil ser astrólogo.

Fui encarregado de fazer a cobertura da Festa da Penha, mas não me informei a respeito do que escrever. O pior é que eu era ateu convicto e praticante. Uma linha sequer que escrevesse sobre fé e devoção iria contra os meus princípios.

Os fatos que observei não podiam ser utilizados na reportagem, porque, tinha certeza, o leitor queria era ler testemunhos de milagres e de graças alcançadas. Mas meus olhos só conseguiam ver a bebedeira, a gritaria e a correria na procissão dos homens, que, além disso, abordavam as mulheres à beira da Rodovia Carlos Lindenberg. Vi também muita bebida alcoólica ser vendida nas barracas à entrada do portão que dá acesso à subida do Convento, o piquenique no Campinho, antes, durante e depois das missas.

Tendo eu retornado à redação com essas anotações imprestáveis para o jornal, o Zé Carlos Corrêa contatou a Cúria Arquidiocesana por telefone e produziu uma bela reportagem. Acabei sendo encarregado de verter para a linguagem de imprensa escrita a notícia produzida para ser falada no rádio.

Certa vez, o Edgard dos Anjos me pediu para escrever algo sobre o passamento de Antônio Grijó, um servidor municipal que cuidava das praças e jardins da cidade. Eu não o conheci, mas escrevi uma crônica falando do seu amor pelas flores, que me rendeu inúmeros agradecimentos por parte de seus familiares. Como é fácil e gostoso falar de flores!

 

Fonte: O Diário da Rua Sete – 40 versões de uma paixão, 1ª edição, Vitória – 1998.
Projeto, coordenação e edição: Antonio de Padua Gurgel
Autor: Areovaldo Costa Oliveira
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2018

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