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Um violino na noite – Por Adelpho Monjardim

São Pedro de Itabapoana, anos 20

Do térreo, da sala de música, subiam os plangentes acordes de um violino, executando o “Réquiem”, de Mozart

Não nos recordamos se o que vamos narrar se passou em Muniz Freire ou em São Pedro de Itabapoana. Sergipano de Penedo, Severino Dias era farmacêutico de profissão. Espécie de Ahasvérus, não esquentava lugar em parte alguma. Correra o Brasil de norte a sul e por fim viera ter às nossas plagas. Repetimos: em Muniz Freire ou Itabapoana.

Na época o lugar era pouco mais que povoado. População escassa, núcleo residencial pequeno e comércio insignificante. Embora farmacêutico, Severino não pretendia estabelecer-se e sim prestar os serviços profissionais caso possível. Logo constatou a impossibilidade de ali exercer a profissão. Não existia sequer botica. O curandeirismo respondia pela saúde do povo. Severino embatucou. Orgulhoso da sua profissão, jamais deslustraria o seu diploma com a prática da medicina vulgar. Hombria nativa.

Dispondo de recursos, filho único de um estancieiro, encantou-se com a pródiga natureza, rica e atraente.

Com dificuldade conseguiu pouso em casa de uma família, gente simples, porém hospitaleira. Todavia Severino sentia-se vexado e não queria ser pesado àquela gente boa, embora fosse generoso no agradecimento.

Gostando do lugar, resolveu demorar-se e satisfazer o seu “hobby” — a pintura. Pensou em alugar uma casa, bem situada, onde pudesse se entregar à sua paixão. Mas nenhuma casa, nenhum lugar, por perto, agradou-o. Só em lugar muito afastado encontrou o que procurava. Na meia encosta de pitoresco cerro achou a casa ideal. A arquitetura traía a origem estrangeira, o “cottage” inglês. De dois pavimentos, erguia-se num cenário maravilhoso, tendo por fundo a mata e à frente o descampado e um regato gorgolejante a pratear ao sol. Rodeada por artística cerca de ripas, outrora bem cuidada, ameaçava ruir. Como tudo indicava, a casa estava desocupada há bastante tempo. Com cuidado abriu o portão. Deu volta à casa e experimentou as portas, todas hermeticamente fechadas. Ali o lugar que ele procurava. Paz, silêncio e paisagens lindas, que reproduzidas iriam enriquecer a sua pinacoteca. A quem pertenceria a casa? Quem melhor que o Sr. Garcia para informá-lo?

Anoitecia quando voltou para casa. Esperavam-no para o jantar. O Sr. Garcia, o seu hospedeiro, era Coletor Estadual. Casado, tinha um único filho, garoto dos seus quinze anos. Ciente das intenções de Severino, mostrou-se preocupado, o que não pôde disfarçar. Apertado por Severino, acabou confessando os seus receios, caso ele pretendesse morar ali. A casa era mal-assombrada! Morara ali um inglês, próspero agricultor, homem de algumas posses e nas horas vagas, excelente violinista. Por questões de terra fora assassinado dentro da própria casa.

O Manuel da venda, dono de pequeno varejo, ficara encarregado da casa, por procuração da viúva, que se mudara para o Rio de Janeiro. Com ele deveria entender-se, caso desejasse alugá-la. Depois do sucedido ninguém pôde mais morar ali. Intrigado, Severino quis pormenores. Ali, nas caladas da noite, comentou o Sr. Garcia, um violino se põe a tocar.

Irônico, gabarola, Severino se pôs a rir, respondendo que seria mais agradável dormir ao som de um violino. Iria pedir as chaves ao Sr. Manuel.

Na manhã seguinte Severino mudou-se para a casa da colina. Levou apenas as roupas de cama, pois a casa ficara mobiliada como deixara o inglês.

Logo cedo, após o café, com duas empregadas do Sr. Garcia, partiu Severino para a nova residência. Ao abrir a porta o morno bafio interior fê-lo recuar meio sufocado. Poeira que Deus dava. Branca e leve camada cobria o mobiliário e o artístico lampião sobre o consolo, no centro da sala. As empregadas, que conheciam a fama da casa, benzeram-se ao entrar.

A limpeza foi rigorosa. O mobiliário conservava a antiga disposição. Nas gavetas a roupa de cama, toalhas e tudo o mais. Severino não mexeu em nada. Usaria os próprios pertences, Não se esquecera do querosene para os lampiões.

Uma coisa abalou o ânimo de Severino e sacudiu-lhe os nervos. Ao abrir a porta do quarto, que fora do inglês, junto ao leito, estampada no assoalho, escura mancha de sangue. Soltando gritos de pavor as duas empregadas desceram a escada a correr, deixando só o farmacêutico com o tétrico achado. Não obstante a decantada coragem, Severino ficou abalado. Ele mesmo varreu o quarto e arrumou a cama. Abasteceu os lampiões, verificou se funcionavam e preparou-se para passar a noite. O dia seguinte seria o começo de uma vida nova. As telas e os pincéis estavam prontos para fixar o pitoresco daquelas paisagens.

Silente desceu a noite e logo as sombras se adensaram, envolvendo a natureza. O cricri dos grilos e o coaxar dos sapos os únicos sinais de vida. A quietude tornara-se pesada, quase asfixiante. Precavido, Severino experimentou a segurança das portas e a firmeza das janelas. Tudo em ordem. Começou a apoderar-se dele estranha sensação, vago temor como jamais experimentara. Lembrou-se do que lhe contara o Sr. Garcia. Seria mesmo mal-assombrada a casa? Procurando afastar os maus pensamentos foi à janela e olhou através da vidraça. As grandes árvores pareciam dormir. Nenhuma folha se agitava, como se a natureza estivesse debruçada sobre aquela casa, aguardando algo extraordinário. Só os pirilampos davam sinal de vida, riscando com a sua fosforescência o negro manto da noite. Nervoso, Severino fumava. Fumava sem cessar, tentando levantar entre eles e os tétricos pensamentos uma cortina de fumo.

Finalmente ele não estava certo se cria ou não em coisas do outro mundo. Deparava-se com o óbvio ululante, o arrependimento. Fora imprudente e fanfarrão, mas Inês já estava morta. Como Robinson Crusoé, encontrava-se isolado do mundo. Os vizinhos próximos distavam muitas milhas. Quem o acudiria em uma emergência?

Avançava a noite e com ela os terrores que iam minando a coragem do boticário, que na sua farmacopéia só não conhecia remédio para o medo. Pensou em fugir, abandonar a casa, mas descer as escadas, atravessar o vestíbulo, às escuras, era exigir demais à sua combalida bravura. E o ermo? Que de mistério lhe reservaria o negro manto da noite? Ao menos, ali trancado, sentia-se menos exposto.

Como compelido por estranha força os seus olhos se fixaram na mancha junto ao leito. O sangue parecia se ter reavivado e líquido e viscoso espalhar-se pelo chão. Violento calafrio sacudiu-lhe o corpo. Erguendo-se num repelão, sentiu que os cabelos se eriçavam na cabeça. Traição dos sentidos? Ilusão? Ao menor ruído o coração disparava desordenadamente. O suor porejava por todo o corpo. Presa do terror o sistema nervoso estava a um passo do colapso total. Consultar o relógio nem pensar. Se no mostrador os ponteiros estivessem unidos na hora fatal? Deitar-se? Dormir? Nem mais coragem lhe restava para olhar a cama.

A todo instante esperava de um canto qualquer surgir o fantasma do inglês. Quebrando o funesto silêncio daquele aposento marcado pela tragédia, a gargalhada cruel de uma coruja explodiu, como um sismo, no combalido ânimo do nordestino. O pouco de decoro e de firmeza que ainda lhe restava entrou em pânico. Como se a gargalhada fora um sinal, do térreo, da sala de música, subiam os plangentes acordes de um violino, executando o “Réquiem”, de Mozart. Nisto uma voz cava e soturna murmurou no seu ouvido: — Fuja! Fuja! Desgraçado! Como o rato colhido na ratoeira e desesperado se atira de encontro às grades, assim, enlouquecido, desatinado, Severino não encontrou mais a porta do quarto, esbarrando nas paredes até encontrar a janela. Escancarando-a. frenético, sem pestanejar, precipitou-se no vácuo, fugindo à macabra sinfonia.

Os alentados tufos de capim amorteceram a queda e presto Severino empreendeu a fuga, ouvindo ainda o violino do Além.

 

Fonte: O Espírito Santo na História, na Lenda e no Folclore, 1983
Autor: Adelpho Poli Monjardim
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2015

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