Morro do Moreno: Desde 1535
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Vasco Coutinho - Fundamento Histórico

O local do desembarque de Vasco Fernandes Coutinho no trecho entre o Moreno e Piratininga

A implantação da cidade de Vitória, na ilha que lhe dá o nome, reside numa série de peripécias controvertidas. A principal se funda na pertinácia do aborígine em repelir do continente os portugueses colonizadores.

Oferecendo melhores condições de segurança, possuindo fontes de água potável, o que se não dava nos areais de Piratininga, a escolha não podia ser outra.

Abandonada havia pelas tribos litorâneas, (1) protegido pela soberba configuração topográfica, os povoadores lusitanos nela se refugiaram cansados de lutas exaustivas e perigosas.

Vitória não tem fé de ofício. Não foi legalmente batizada. Precisa de uma justificativa em juízo. É o que tentamos fazer, baseando-nos em pouquíssimos documentos hábeis. Felizmente sua origem não se perde em noites pré-históricas. Seus heróis, simples e humanos, em nada se perecem com os semideuses lúbricos e façanhudos das civilizações d’além mar.

Em 23 de maio de 1535, domingo depois de Pentecostes, (2) Vasco Fernandes Coutinho, com sessenta colonos, aportava nas cercanias do monte Moreno. (3)

O desembarque se fez no continente, pelo lado sul da baía, no trecho entre o Moreno e Piratininga. (4) Ordenou o donatário que cada um construísse sua morada. Foi o primeiro núcleo europeu nas terras do Espírito Santo, nome dado à posse em louvor à festividade religiosa, que acabavam de celebrar.

Desses casebres se originaria a Vila do Espírito Santo, que a tradição se habituou a apelidar de Vila Velha. Era a sede do governo, que se fundava sem formalidades, sem liturgia nem aparato.

Vasco Coutinho representava a mais modesta empresa das que vieram às terras de Santa Cruz. Não podia cogitar de construir metrópole. No arriscado da aventura só a exploração das terras preocuparia os exilados do reino. Vinham trabalhar e dentro do coração avivavam a esperança de se enriquecerem no achado de minas fabulosas.

Os seduzidos da vida cômoda se ficavam em Lisboa, turbulenta e engrandecida pelo comércio das especiarias. Ninguém em boa fé emigraria para se fazer rendeiro num mundo novo e selvagem. A sorte era bem diversa e Vasco Fernandes Coutinho pressentiu nitidamente o panorama singular de que se fazia protagonista. Com a mesma coragem e cavalheirismo com que combateu na Ásia e na África, atirou-se à luta contra os elementos. As honras conquistadas nas Índias nobilitaram-no para glória maior. (5) Foi vencido, é verdade, porque teve como inimigo, não um exército, mas a própria natureza complexa nas suas mutações cósmicas. Não fora talhado para desbravador. Os quirólogos diriam que lhe faltava a bossa saturnina, seu destino polarizava-se no campo de Marte.

 

Notas

(1) Que a ilha tenha sido habitada por índios não há dúvida. Os machados de pedra e os sambaquis são testemunhos positivos. No "Solar dos Monjardins", a coleção "Olinto Aguirre" oferece exemplares interessantes.

(2) O Pe. Raphael Maria Galanti S.J. afirma que o domingo de Pentecostes, em 1535, foi a 16 de maio, retificando assim o P. Simão de Vasconcelos.

(3) Jaboatão, Basilio Daemon, Rubim, etc., todos são unânimes em que o desembarque se fez ao pé do monte, que hoje se chama "Penha".

(4) A praia, onde se deu o desembarque, "ao som da artilharia com que fizeram afastar das ribeiras marítimas o gentio possuidor", no relato de Jaboatão, chamava-se, como ainda se chama, Piratininga. Está ocupada pelo quartel do 3.°B. C.

(5) "Sem ter demonstrado qualidades de Administrador e apenas valentia". História da Colonização Portuguesa do Brasil. Vol. III — Cap. IV.

 

Fonte: Biografia de uma ilha, ano 1965
Autor: Luiz Serafim Derenzi
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2015

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