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Vasco em Lisboa, na Rua do Barão de Alvito

Vasco Fernandes Coutinho - Primeiro Donatário da Capitania do ES

Não se conhece a data em que o capitão embarcou. Mas em agosto daquele ano (1540), já estava em Lisboa, hospedado em uma casa da rua do Barão de Alvito, segundo a escritura de doação da ilha de Santo Antônio. Releia-se aquele documento. Logo na introdução, de acordo com a praxe tabelioa, o notário localizou, no tempo e no espaço, a cerimônia a cujo assentamento procedia:

“no anno de Nosso Senhor Jhesu Cristo de mil quinhentos e quarenta anos aos vinte dias do mes de agosto na cidade de Lisboa na Rua do Barão onde pousa o senhor Vasco Fernandez Coutinho capitão e governador da capitania do Espírito Santo”. (12)

Em 1547 Vasco Coutinho ainda continuava em Lisboa. É o que se infere das cartas de Ambrósio de Meira e Fernando Álvares de Andrade.

A primeira, datada “do espirito santo a vinte e seis de setembro de 1545”, diz a certa altura: “ao ouuidor pidy espriuão por não aver capytão na terra”. (13)

Algum assunto de maior relevância poderia ter conduzido o donatário a uma das capitanias vizinhas, pois o simples fato de estar dela ausente não permite concluir que se encontrasse necessariamente em Portugal. A argüição procede em parte, mas é muito prejudicada pelo que se contém na segunda missiva citada – datada “de lisboa a X dias de fevereiro de 1547” – na qual Fernando Álvares de Andrade, “que na Corte entendia nos negócios do Brasil”, (14) refere-se a Vasco Coutinho como sendo portador de informações verbais suas para o monarca.(15)

Provadamente presente em Lisboa nos anos de 1540 e 1547 e ausente do Espírito Santo em 1545, acrescendo a circunstância de haver silêncio sobre suas atividades no Brasil, durante aquele período, a conclusão é que o capitão demorou na metrópole até, pelo menos, 1547 ou 1548.

Difíceis, demoradas e perigosas, como eram as travessias oceânicas àquele tempo, não é de se supor que alguém, alheio às lides do mar, empreendesse tantas viagens em tão curto período.

Regresso do donatário – Talvez o regresso se tivesse verificado em 1547, na frota mencionada na carta de Fernando Álvares de Andrade, ou pouco depois. Frei Vicente do Salvador, referindo-se à viagem de Coutinho para o Reino, escreveu que deixara ordenados quatro engenhos de açúcar.(16) Em 1545, vindo à capitania para a arrecadação dos dízimos reais, Ambrósio de Meira comprovou, e disto deu ciência ao rei, que -

“ha nesta capitanja cinco armaçois pera agoa e duas fazem jaa e duas forão de janeiro de 1546 por diamte ha duas de caualos e faz hua”. (17)

Dois anos depois, isto é, em 1547, Álvares de Andrade, cumprindo determinações de D. João III, apresta um navio de socorro às costas do Brasil e é o próprio Vasco Coutinho quem serve de mensageiro entre os dois figurantes, para completar providências.

O “omem que veyo do brasylI”, citado por Álvares de Andrade, e que acompanhou Coutinho à presença do rei “pera qualquer emformaçam que da terra comvyr”,(18) deve ter levado ao donatário o aviso sobre o estado em que os silvícolas haviam deixado o Espírito Santo, provocando, dessa forma, seu regresso à terra brasileira. Deve ter sido, pois, entre 1545 e 1547 que se verificou a quase ruína da capitania, ocasionada pelas incompatibilidades entre brancos e índios, conforme adiante se verá, já que Ambrósio de Meira nenhuma alusão faz ao assunto. Muito ao contrário, sua carta, quando cotejada com o texto de frei Vicente do Salvador, demonstra que houvera progresso na construção dos engenhos.

Ciente da catástrofe que baixara sobre seu senhorio, Vasco Coutinho teria deixado Lisboa para vir tentar o reerguimento do Espírito Santo. Não seria razoável julgar que permanecesse em Portugal até o embarque de Tomé de Sousa, em 1549, ante as notícias alarmantes sobre o destino do seu senhorio, do aniquilamento de todos os seus bens. A relação dos que faziam parte da expedição do primeiro governador geral, que acolhe nomes escoteiros, não calaria o de um donatário. E em 1550 iremos encontrar Coutinho em Porto Seguro, às voltas com o seu colaborador – Duarte de Lemos.

 

NOTAS

12 - Chancelaria de D. João III, liv. 6, f l. 512 (apud MALHEIRO, Regimen Feudal, 265).

13 - Sobrescripto. Pera el Rey noso senhor do brasill.” – Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Corpo Cronológico, parte 1.ª, maço 76, n.º 98 (in Notícias Antigas, 16-7)

14 - GARCIA, Ementas, 15.

15 - Notícias Antigas, 15-7.

16 - Hist. Brasil, 95.

17 - Ver foot-note n.º 13 deste capítulo.

18 - Notícias Antigas, 14.

 

Fonte: História do Estado do Espírito Santo, 3ª edição, Vitória (APEES) - Arquivo Público do Estado do Espírito Santo – Secretaria de Cultura, 2008
Autor: José Teixeira de Oliveira
Compilação: Walter Aguiar Filho, maio/2017

Vasco Fernandes Coutinho

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