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Vasco – Viagens e Ilusões

A lavratura da terra se fazia com entusiasmo. Os mantimentos abundavam e a cana ganhavam largueza. Mas Coutinho se impacienta. É o traço predominante de seu caráter. Não sabe e não tem método. Perdera muitos homens em combate; aos poucos índios domesticados não lhe inspiram confiança e são ociosos, urdem vinditas a cada momento. O donatário sonha com tesouros distantes: pedrarias, ouro e prata, escondidos em serras longínquas. Era preciso nova leva de homens, utensílios e dinheiro. Talvez que o êxito de Duarte de Lemos e Brás Teles, com seus colonos, o inspirasse a procurar braços para a derrubada de matas e plantio. A ilha produzia e as margens do Marinho (1) se cobriam de canaviais. Deles espera um pão de açúcar, anualmente, de quatro arráteis. (2) Dispõe-se a procurar novos colonos. Mas Portugal estava exausto, sua população mal alcançava um milhão e meio de habitantes.  (3) A imigração voluntária era nula e os poucos que, por bambúrrio, deixavam os pagos, iam para Pernambuco ou para São Vicente, cujos donatários melhores amizades tinham na metrópole. Mas Vasco Coutinho, idealista e afoito, não pesava os imponderáveis.

A câmara fora provida de escrivão com Belchior Correia e o cavaleiro Rui Fernandes investidor de provedor e contador das rendas da Capitania. (4) Capelão já vivia na terra, “a mais antiga freguesia do Sul da Bahia”. (5) Embarcou o capitão-mor provavelmente em 1539, deixando o turbulento D. Jorge de Menezes, valente porém antipatizado por todos, à testa do governo. Custou-lhe a vida bem como a D. Simão Castelo Branco, que o substituiu. Pela assinatura da “carta de confirmação das Capitanias de Pero de Góis de Vasco Fernandes Coutinho”, (6) de 14 de agosto de 1539, está ele em Lisboa, como ainda, em 22 do mesmo mês do ano seguinte, assinando a doação da Ilha de Santo Antônio a Duarte de Lemos. (7) Presume-se que tenha voltado entre 1546 e 1547, pois, quando Ambrósio de Meira, provedor da Fazenda Real, visitou, em setembro de 1545, a Capitania, não o encontrou.

O historiador José Teixeira de Oliveira, aduz documentação convincente de como, em fevereiro de 1547, Coutinho ainda permanecia em Portugal. O certo é que em vinte e seis anos de donataria, ele fez várias viagens com resultados negativos. Sua ausência foi sempre prejudicial a Capitania e sua fama, junto à corte, se extinguiu melancolicamente pelas denúncias dos altos dignitários régios, que visitaram o Espírito Santo. Na metrópole aumentou, por certo, a dívida com os argentários, dos muitos que proliferavam em Lisboa, emprestando cruzados a vinte e cinco por cento ao... mês, (8) taxas que D. João III não se esquivou de pagar. Na volta da primeira viagem toca em Porto Seguro e recolhe homiziados de Pero do Campo Torinho, ausente, infligindo dispositivos regimentais. Está como capitão-mor Duarte de Lemos que se vinga, escrevendo a carta infamante a D. João III. Teriam vindo, dessa vez os filhos do donatário, citados por Mem de Sá em 1558, para combater os índios?

Cada viagem de Vasco Fernandes, novo desastre causado pelos índios, questiúnculas entre colonos, visita de Governadores, em suma, acontecimentos que reclamavam sua autoridade.

A segunda viagem deve ter sido feita depois de só. Pero de Góis, capitão de mar, de Tomé de Souza, não o encontra em abril de 1551. Ausentara-se deixando o comando da Capitania com Bernardo Sanches de La Pimenta, o gosto de seus pares, amigo e querido dos índios, foi padrinho de Sebastião Lemos, filho de Maracaiá-Guaçu, Gato Grande. (9)  Só volta em meados de 1555 e, tocando em Pernambuco, não obstante ser hóspede de D. Duarte da Costa, segundo Governador Geral do Brasil, é humilhado pelo bispo Pero Fernandes Sardinha, que lhe recusou cadeira de espaldar, na igreja, sob fundamento de andar em “mistura de homens baixos e beber fumo”. (10) Duarte da Costa, da Bahia, onde vê Coutinho pela última vez, descreve-o como velho, pobre e cansado.

NÚMEROS AUSPICIOSOS

Com todos os infortúnios, que martirizaram Vasco Fernandes Coutinho, como chefe de governo, (não compreendo como se pode apelidar de governo a uma colônia nascente, de pouco mais de centena e meia de famílias, agrupadas em torno de um senhor de terras), os portugueses prosperavam com suas lavouras. Padre Nóbrega diz numa carta: "esta Capitania se tem pela melhor coisa depois do Rio de Janeiro". (11) Afonso Braz, não obstante sua curta permanência no Espírito Santo, escreve aquelas celebradas palavras: esta onde ao presente estou é a melhor e a mais fértil de todo o Brasil. Creio que foi o insuflador da ufania dos capixabas, que tanto gabam sua gleba nativa. Os mantimentos deviam ser abundantes; o Padre Fernão Cardim comunica aos superiores que "Vivem os nossos de esmolas e são muito bem providos". (12) Tomé de Souza e Mem de Sá, nas suas visitas, gabam a terra, cri-ticam o donatário pela ausência, e lastimam a ferocidade dos indígenas.

Não há discrepância de apreciação. Ambrósio de Meira, funcionário da Real Fazenda, (o fisco sempre foi alerta e voraz) passando pelo Espírito Santo, escreve, em 26 de setembro de 1545, a D. João III circunstanciada carta, dando conta dos dízimos. A carta fornece informes curiosos e interessantes. Começa por se mostrar zeloso das funções que exerce, faz a clássica reverência, cheia de humildade, comunica a morte de Diogo Ribeiro, com toda a certeza do fisco também, recomenda ao monarca a pobre viúva e filhos, depois relata os impostos arrecadáveis e faz conjeturas da receita do ano vindouro. O documento vale como a primeira estatística da Capitania.

Arbitrou o dízimo sobre o açúcar a 200 réis a arroba e avaliou a safra em trezentas. "Não é de boa qualidade ainda porque o operariado não está prático, porém, o produto bom é igual ao da Ilha da Madeira".

Os dízimos sobre os mantimentos são incobráveis por serem perecíveis. (13) Arrendou por 43.500 réis a receita do pescado no período compreendido entre as festas de São João de 1545 e 1546. Isso porque, sendo a terra pobre de dinheiro, se poderá pagar o capelão, como quer o povo, por não ter o padre provisão régia e não querer dizer missa e batizar graciosamente. (14)

Prometeu, para o futuro, elevar a quota sobre o açúcar a 300 réis, pois a arroba seria vendida a 400. Havia na Capitania cinco engenhos movidos a água e dois por cavalos, dos quais três só produziriam no ano vindouro. Solicitou ao monarca a construção da casa de feitoria para guarda do açúcar, porque, em 1546, a safra seria de 1.000 arrobas (250 sacos hoje). Comunicou que a carta fora numa nau de Brás Teles, o primeiro a carregar essa mercadoria na capitania. (15) Já sabíamos ser Brás Teles cavaleiro da casa do Infante D. Luis e contemplado com terras por Fernandes Coutinho. Acredito tenha ele sido o mais rico colono da Capitania e o primeiro a prosperar.

De sua fazenda foi Anrique Luis a construir engenhos para Pero de Góis, em Sta. Catarina das Mós e, por escravizar a um goitacá, pos a capitania a perder.

 

NOTAS

1 – Chamado nas crônicas e documentos antigos “Roças-Velhas”.

2 – Da carta de doação da ilha a Duarte de Lemos.

3 – C. Malheiro Dias. Pandiá Calógeras. “Formação Histórica do Brasil”

4 – Mario Freire – ob. Citada

5 – Idem. Idem

6 – C. Malheiro Dias. ob citada VIII. “Regime Feudal”.

7 – Idem. Idem. “Carta de Doação da Ilha a D. de Lemos”.

8 – Oliveira Lima – “H. de Portugal”.

9 – José Teixeira de Oliveira H. E. E. S.

10 – Pedro de Azevedo. H. C. P. B. – Vol. III – Apêndice.

11  - Apud Serafim Leite S.J. H.C.J.B. — 1° volume pg. 214.

12 - Idem. Idem.

13 - Os dízimos eram cobrados em espécie.

14 -  Ainda não há missionários no Espírito Santo. 15 - Atualização do original publicado por José Teixeira de Oliveira H.E.E.S. foot note 13 da pág. 56.

 

Fonte: Biografia de uma ilha – ano 1965
Autor: Luiz Serafim Derenzi
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2015  

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