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Viagem ao Espírito Santo (1888) - Princesa Teresa da Baviera (PARTE V)

Barba de Velho

Durante toda a noite a chuva batia no telhado, cujo vigamento podíamos ver da cama. Ainda era escuro quando partimos, pois tínhamos à nossa frente um longo dia de viagem. Nossos hospedeiros haviam preparado uma surpresa para nós. O dono nos presenteou com uma bela pele de lontra que, pelo pequeno tamanho e cor saturada de marrom-acinzentado, julguei se tratar de uma Lutra solitaria Natt. (60). A mulher havia ficado acordada a noite toda para assar alimentos autenticamente bavários para seus compatriotas: bolinhos e uma espécie de empada doce(61), de que tivemos que levar o quanto possível na cavalgada. Um pouco depois das 6 horas, nos despedimos calorosamente dos leais hospedeiros. Na ponta do grupo dos cavaleiros, encontrava-se o brandemburguês Karl Frank que, como pode ser visto com frequência, havia afivelado as esporas diretamente nos pés descalços. A retaguarda foi feita por Ferrari, com a espingarda atravessada sobre o botão da sela. Cavalgamos um atrás do outro, em fila indiana, pois o caminho era muito estreito para cavalgar de outro modo. As mulas de carga com os peões saíram independentemente de nós. Normalmente nós os avistávamos poucas vezes durante o dia e geralmente só tínhamos acesso aos nossos pertences à noite, e isso nem sempre era agradável por causa dos objetos coletados durante o dia.

Saindo do alojamento noturno, ficamos montados nas selas durante seis horas ininterruptas. A neblina que havia sobre o vale pela manhã evaporou-se à medida que o sol ia se erguendo e só podemos agradecer pelo tempo suportável porque na maior parte cavalgamos por dentro da mata virgem. A vegetação densa ao lado e acima de nós nos dava proteção e não deixava passar absolutamente nenhum raio de sol, de modo que nos encontrávamos, o dia inteiro, na sombra mais profunda que se possa imaginar, exceto nos trechos em que havia roças. Horas e horas a fio passamos ao lado de paredões impenetráveis da floresta, que se estendiam a nossa esquerda. Também acima das nossas cabeças fechava-se um teto de plantas, que a visão não conseguia atravessar. Desse modo, víamos sempre apenas o que se encontrava mais perto, ou o que estava dependurado mais perto de nós; a alguns passos para o lado, para dentro da mata, ou um pouco acima, qualquer visão estava embotada por um véu de ramagem verde. Somente nas orlas da mata e nas clareiras artificiais era possível ter uma visão da vegetação. Aqui o ditado “De tantas árvores não se pode nem ver a mata” estava literalmente cumprido.

Hoje encontramos várias espécies de árvores gigantescas e plantas estranhas na mata virgem. Havia, por exemplo, um bálsamo, cuja madeira machucada tinha um cheiro peculiar(62), depois uma chorisia barriguda (Chorizia crispiflora H. B. K.), uma bombácea (Bombacee), cujo tronco claro é repleto de pequenos espinhos cônicos e cuja base é arredondada como se fosse um tonel(63). Depois apareceram enormes paus-d´alho (Gallezia Gorazema Moq.) com troncos lisos, sem nenhum galho até grandes alturas, e ramagem verde-clara com folhas relativamente pequenas. Um seu parceiro que havia tombado e estava largado na estrada preenchia o ar a longa distância com o insuportável cheiro de alho(64). Também uma “árvore-cebola”, certamente assim denominada pelo seu cheiro ou porque seu tronco na direção das raízes apresenta bulbos como os de uma cebola(65), encontrava-se perto no matagal. Num trecho cavalgamos embaixo de um grupo de sapucaias (Lecythis Pisonis Camb.). Os seus troncos sem galhos, eretos como velas, suportavam a copa ramada verde-clara do mesmo modo como as colunas suportam a abóbada de uma igreja. No chão, havia dúzias de frutas enormes dessas árvores gigantescas, meio lenhosas e semelhantes a buchas. Essas frutas, que se abrem na direção do início do galho, possuem uma tampa que cai por si mesma e têm peso tal que, se caírem da altura em que se encontram, podem até matar uma pessoa. Entre as árvores mais modestas, as que formam a camada da mata de altura média, não faltava a jabuticaba (Myrciaria Jabuticaba Berg) com suas massas de folhagens arredondadas. No meio dos arbustos, chamaram a nossa atenção alguns mamoeiros (Carica papaya L.) pelos troncos isentos de galhos e folhas de disposição muito regular aglomeradas nas copas. Algumas samambaias arbóreas, uma das quais atingia altura considerável, estendiam suas graciosas folhas em leque sobre o tronco lenhoso que as suportava. Num ponto, várias palmeiras airi (Astrocaryum Ayri Mart.) haviam se aglomerado, e num outro havia muitos palmiteiros (Euterpe edulis Mart.), cujas coroas tinham poucas folhas. No meio dos gigantes do mato cresciam inúmeras plantas diferentes, que se asfixiavam mutuamente na luta por ar e luz, numa fartura de espécies que não dava trégua ao olhar atento. Lianas envolviam as árvores e se entreteciam em torno delas. Um cipó, cujo tronco se alastrava em forma de coroas de rosas dispostas a distâncias bem regulares, formando entumescimentos arredondados, certamente algum tipo de Micania, ansiava pelas alturas, esgueirando-se através da abundância de ramagens; plantas trepadeiras de tronco torcido seguiam para o alto na direção do teto formado de folhas da mata virgem e uma Bauhinia, a jabuti-mutá-mutá, havia dado voltas espiraladas para cima e para baixo no mínimo uma meia dúzia de vezes, uma ao lado da outra, deixando-se quedar agora ali dependurada. Um entrançado de cipós e raízes aéreas da mata virgem se encontrava tão emaranhado que, quando o cavalo teimoso da minha companheira de viagem arriscou dar um salto para dentro da vegetação fechada, tanto ela como o cavalo só puderam ser libertados desse abraço de emaranhado de plantas pelas facas muito úteis dos dois guias. Também não faltavam flores de cores exuberantes na mata de hoje e ficamos estranhamente emocionados ao encontrar aqui, em estado silvestre, muitas das plantas cultivadas em nossos jardins. Begônias de flores cor-de-rosa, (Begonia angularis Raddi)(66), vicejavam nas orlas da picada, amarílis (Amaryllis L.), - a maioria só tinha uma única flor(67) - brilhavam num vermelho-fogo no meio da escuridão da mata. A Pavonia multiflora A. Juss.(68), um tipo de malva em forma de arbusto, intercalava com flores igualmente vermelhas o eterno verde dos paredões de plantas. Begônias lutavam para também viver no meio da ânsia geral por uma existência digna e barbas-de-velho (Tillandsia usneoides L.) deixavam os trançados em forma de barbas brancoprateadas caírem suspensos nos galhos das árvores.

Uma araponga (Chasmorynchus nudicollis Vieill.), um daqueles pássaros brancos como a neve e muito ariscos, que preferem os galhos mais altos das árvores gigantescas e preenchem a floresta com cantos semelhantes ao tanger dos sinos, aterrissou diante de nós, mas, deteve-se, assustada, na frente das patas dos cavalos. Belos tucanos, de peito bem amarelo e asas pretas, supostamente Andigena bailloni Vieill.(69), afiavam os típicos bicos enormes nos galhos densos. Num lugar mais claro, algumas araras enormes de asas verdes (Ara chloroptera G. R. Gr.) passaram voando com gritos agudos por cima das nossas cabeças. Mais tarde, num lugar de vegetação de capoeira, passamos ao lado de um arbusto alto que estava repleto de cima a baixo com periquitos de cor verde e testa laranja (Conurus aureus Gm.), que mudavam sem parar de um lugar para outro.

A nossa trilha era indescritivelmente ruim. Novamente tivemos que passar por inúmeros pilões, as tais escadarias de terra como se fossem feitas com arado e em cuja profundidade os animais tiveram que afundar as patas. Em seguida, havia subidas e descidas tão íngremes que às vezes tínhamos que segurar nas crinas das mulas, em seguida apelar novamente para as relhas para não cairmos da sela. De vez em quando o trajeto passava por povoados totalmente isolados num trecho desmatado, localizados no meio da mata e frequentados por anus (Crotophaga ani L.).

Exceto um prussiano, encontramos aqui somente colonos brasileiros. A cada dia de viagem para dentro do território, os trechos cultivados e habitados diminuíam visivelmente e cada vez mais a mata virgem usufruía de seus direitos ainda não questionados. Percebia-se nitidamente como a cultura avançava, vindo da costa e seguindo passo a passo para dentro da floresta virgem. Chegamos às margens de um rio denominado Santa Maria do Rio Doce, que flui de sul a norte para o rio Doce; dali prosseguimos rio acima, do mesmo modo como acompanhamos o curso do rio quando saímos de Vitória de canoa. As margens do rio cobertas de mata virgem, que imitavam em alguns trechos as margens de um lago florestal, eram muito idílicas, mas se for considerada a abundância, não são comparáveis às margens de lagos nas baixadas do Amazonas. Pode-se afirmar que a abundância de vegetação da mata virgem daqui fica atrás da abundância da Hileia(70). Especificamente lhe falta o crescimento sobremaneira intenso dos troncos e raízes de bombáceas, que se desenvolvem à semelhança de escoras; formações de raízes tabulares só estavam representadas em pequeno número. Bromélias terrestres e epifíticas, com folhas terminais em forma de flor vermelha ornavam o interior da floresta. Enormes folhas de aráceas em forma de lanças e de corações, possivelmente folhas de antúrios e de caládios, revestiam profusamente o solo. Gramas de bambus se agrupavam, formando sebes cerradas. Sobre as copas de algumas árvores, as plantas trepadeiras haviam jogado flores coloridas, formando belos mantos.

O caminho nos levava agora a uma montanha, à esquerda da qual avistamos montanhas ainda mais altas, denominadas Serra da Desgraça. A partir do nosso ponto de observação agora mais elevado, tínhamos uma bela visão para baixo, para um vale amplo, coberto de mata virgem e banhado pelo rio Doce. No meio do vale elevava-se um monte em forma de cone e a sua parte de trás limitava-se por uma elevação coberta de mata. A primeira parada curta depois da cavalgada de seis horas nós fizemos numa cabana habitada por tiroleses italianos, onde o som agradável da língua italiana veio ao nosso encontro como se fossem sons dapátria distante. Mas o almoço só aconteceu depois de mais meia hora de cavalgada e foram tiroleses do sul que nos receberam hospitaleiramente.

Dividimos com eles a sua refeição nacional, risoto e polenta, que nos apeteceu muito mais do que os pratos brasileiros, geralmente deficientes. Tratava-se de um povoado maior, com plantações de milho, cana-de-açúcar e café, e criação de belos e grandes exemplares de gado. Uma faixa de mata desmatada e queimada bem perto dali desmoronava com ruídos e sob estalos do fogo, confirmando que o solo a ser cultivado ainda devia ser ampliado.

Como teríamos que trocar algumas mulas por novas, a nossa permanência aqui se alongou por algumas horas contra a nossa vontade. Embora na sombra a temperatura já fosse de 29,5°C - já eram duas horas da tarde - aproveitei a pausa forçada para caçar borboletas na pradaria ensolarada. Havia daquelas que pareciam ser bem vermelhas, possivelmente pertencentes às Dione, as espécies mais representadas no Brasil. Ao lado delas, voejavam borboletas de um azul intenso, talvez a Thecla Gabriella Cram. E ali esvoaçavam, no meio de suas irmãs coloridas, as danaínas, com asinhas transparentes semelhantes a flores, e outras com asas listradas e, às vezes, manchadas de marrom, amarelo, preto e branco. Mas não consegui pegar nenhuma delas com a rede. O resultado da minha caça foi uma Callicore Clymene Cram., uma pequena Ninfaline, cujas asas, na parte superior, têm uma faixa verde-dourada sobre um fundo preto, ao passo que a parte de baixo apresenta desenhos de um vermelho vibrante, em parte branco com tiras pretas. Também consegui caçar alguns exemplares das Catagramma Hydaspes Dru. (71), caracterizadas pela aparência colorida, bem como uma Eurema Albula Cram. var. Sinoe Godt., uma pequena piéride, que usa vestimenta completamente branca, exceto nas bordas e nas pontas das asas dianteiras, de cor preta.

Das antas frequentemente encontradas nessa região (Tapirus americanus L.), até agora não conseguimos ver nenhuma, mas em diversas casas de colonos vimos couros delas, dos quais infelizmente não pudemos trazer nenhum pelo seu tamanho e rigidez. Principalmente aqui, nas proximidades do povoado dos tiroleses italianos, onde almoçamos, já haviam sido abatidos dezessete desses grandes animais do Brasil. São caçados também por sua carne deliciosa e especialmente pelo couro valioso, que encontra várias aplicações diferentes.

Somente no fim da tarde a troca das mulas estava concluída e pudemos retomar nossa cavalgada. Até o próximo local de pernoite, a fazenda do brasileiro Sr. Fortunato Barboza de Menezes, ainda tínhamos três horas de viagem pela frente. A trilha conduzia geralmente pela mata virgem e raramente era interrompida por trechos desmatados.

Nesses trechos quase nunca havia casas, mas se houvesse, deveriam ser chamadas de cabanas de barro. Por isso, imaginamos que as cabanas desses trechos desmatados eram construídas pelos colonizadores que, longe de suas moradias, cuidavam da qualidade do solo desmatado. Mais uma vez araras cruzavam nosso caminho. Uma revoada de periquitos verdes (possivelmente Brotogerys tirica Gm.) passou voando com gritos estridentes ao nosso lado, à procura de um lugar em alguma árvore para pousarem. Da mata espessa chegaram aos nossos ouvidos o arrulhar de uma pomba(72) e o forte resmungo de um mutum (Crax carunculata Temm.). Mais pássaros diferentes puderam ser ouvidos e vistos. Era principalmente a araponga que deixava soar incansavelmente o seu chamado estridente e metálico pela solidão da mata, anunciando a chegada da noite. Muitas palmeiras nativas (Astrocaryum Ayri Mart.) se encontravam dispersas na vegetação fechada. Uma copaibeira (Copaifera trapezifolia Hayne), um gigante da mata virgem de tronco e folhas claras sobressaía dominando a área em sua volta. Lianas entrançadas estavam dependuradas, caindo das alturas. Bem no alto, sobre a copa de uma árvore de folhas escuras em forma de sombrinha, e largada sobre esta, encontrava-se uma planta de muita ramagem, com folhas delicadas semelhantes a uma penugem verde-clara, como se fosse uma boina enorme. Na vegetação de ervas e meio-arbustos da mata virgem, sobressaíam belas flores vermelhas e brilhantes, consideradas venenosas (Erythrina ?)(73).

A mesma região da mata se encontrava enfeitada por uma florescência semelhante à da nossa avenca (Vinca minor), exceto pelo fato de essas flores serem um pouco maiores e lilases. Eu as teria considerado como pertencendo àquela espécie de avencas, caso em alguma parte do Brasil já tivessem sido encontradas tais flores lilases(74). Bem no meio dessa vegetação da mata, fomos surpreendidos por alguns ninhos de cupim, provavelmente da espécie que constrói montes (Termes cumulans Koll.), pois se admite que essa espécie muito alastrada também pode ser encontrada em florestas.

Aos poucos, a noite ia descendo, envolvendo tudo com suas asas negras. Foi então que, como por encanto, começou a sinfonia noturna dos animais da floresta, uma formação de sons cuja grandeza toca a alma humana e não pode ser descrita em palavras. Entraram no coro pássaros, cigarras, grilos e o coral dos sapos (Hyla faber Wied), cujas vozes semelhantes a sinos ecoavam pelo pavilhão majestoso formado por todas essas árvores.

Mas bem logo os nossos sentidos, que estavam tomados pela poesia dessas melodias da mata virgem, foram chamados duramente de volta para a prosa de uma situação muito desconfortável. Não havíamos trazido nenhuma lanterna conosco, como dois dias antes, que poderia ter iluminado pelo menos um pouco do caminho. Nossos equipamentos de iluminação se encontravam empacotados bem no fundo de um saco, inacessíveis no momento, pois estavam afivelados numa das mulas de carga. A picada em que andávamos estava tão escura que não se podia ver nem mesmo a cabeça do próprio animal de carga, muito menos o solo. Como linha de orientação, havia somente a cobertura branca da cabeça da pessoa que cavalgava diretamente na frente, que, no meio de toda essa escuridão, parecia ser apenas um ponto. O cavaleiro da frente fixava com força o olho na faixa não tão preta, onde ele podia supor que se encontrasse a trilha nessa escuridão da mata. Assim, muitas vezes descíamos pela encosta íngreme na escuridão impenetrável, sem mesmo saber para onde estávamos indo. Mas as nossas mulas eram maravilhosas no que se refere à segurança do trote. Atravessamos o rio Santa Joana, que não é nada raso, um rio paralelo ao Santa Maria, que já havíamos visto na parte da manhã. Depois disso entramos mais uma vez na noite da mata virgem. Aqui perdemos um estribo, procurado com muito esforço, à base de palitos de fósforo, e finalmente encontrado.

Nesse meio tempo, o nosso guia Frank tinha se afastado, apressando-se a ir à fazenda para providenciar alojamento. Parece que o fazendeiro não é homem muito tratável e se o pedido para passar a noite não for feito com muita humildade, corre-se o risco de dormir na floresta. Mas agora se tratava de conseguir que ele fosse favorável ao alojamento para sete pessoas, incluindo o guia e os peões, e mais dez mulas de carga.

Nós, que ficamos no grupo, prosseguimos a esmo o caminho desconhecido pela mata escura como breu. Repentinamente, num lugar mais aberto, perdemos a direção e acabamos entrando num banhado. Nossos animais ofegavam de pânico e, como se estivessem enraizados, firmaram as patas com toda a força contra qualquer tentativa de guiá-los para frente. Essa recusa instintiva era compreensível, pois cada passo a mais poderia significar o nosso fim. Seguiram-se alguns minutos de perplexidade, acompanhados da sensação de estarmos pregados no local. Finalmente um dos peões que havia descido da mula encontrou os rastros do caminho perdido na grama do banhado e deixamos a baixada perigosa, tomando o rumo perpendicular ao caminho que havíamos errado. Superamos com êxito um dos momentos mais desagradáveis de toda a viagem até agora. Mais uma vez a trilha nos conduziu ao trecho escuro como breu na mata virgem, e então a fazenda do Sr. Barboza estava diante de nós, convidativamente. Encontramos ali uma família abastada, com muitos filhos e criadagem. A aparência geral da casa era muito mais distinta do que a de todas as outras casas de colonizadores em que havíamos pernoitado até o momento. A desvantagem para nós é que, ao invés de podermos descansar e escrever calmamente as notas da viagem, tivemos que nos sentar na sala junto com o fazendeiro e sua esposa e conversar com eles em português. Isso foi difícil. Mas nessa conversa descobrimos muitas coisas sobre as condições de vida desse colonizador, que não tinha vizinho por perto, sendo necessárias horas de viagem para encontrar alguém. Desse posto perdido no meio da floresta, o sacerdote mais próximo ficava distante quatro dias de viagem e era necessária a mesma distância, se não mais, até o próximo médico. Conta-se que o Sr. Fortunato Barboza só manda batizar os filhos quando estes estão em idade de ir sozinhos a cavalo até o sacerdote. E não é somente isso. Conta-se também que, para simplificar, ele espera para que os sacramentos só sejam ministrados quando dois ou três de seus filhos estiverem crescidos para cavalgarem juntos para o batismo. Quando perguntei o que acontece quando o médico não pode ser alcançado a tempo, quando uma criança adoece, a mãe me respondeu laconicamente: “Eles não adoecem”. A senhora mesmo não dera nenhum passo para fora da fazenda havia cinco anos. Num quarto pequeno, muito simples, nos foram dadas duas camas autenticamente brasileiras para dormir, duras como pedra. Para os nossos membros cansados de tanto andar a cavalo, isso não foi nada agradável. Mas, mais desagradável do que isso foram as muitas baratas (Blattidae)(75), que andavam para lá e para cá no meio do quarto e não sabíamos como resguardar a preciosa bagagem do seu ataque.

 

NOTAS

(60) Visto que nesse couro preparado está faltando o nariz, a cauda etc., fica difícil determinar a que espécie se refere. No entanto, as comparações feitas entre o couro da Lutra brasiliensis Ray e da Lutra solitaria Natt. no Museu de História Natural de Viena indicam que se trata do couro de uma L. solitaria. Mas como até agora era admitido que a L. solitaria somente apareceria no Sul do Brasil e no Brasil Central, embora na obra de Pelzern (Brasilische Säugethiere, p. 53), seja citado um exemplar da Bahia e isso ainda com ponto de interrogação, pode-se admitir que o couro que recebi em Petrópolis poderia ser um importado, mas este último, não.

(61) No original: Hasenöhreln (NT).

(62) De acordo com as partes do tronco que eu trouxe comigo, essa árvore de bálsamo não pertence a nenhuma das espécies fornecedoras de bálsamo como as Humirium, Protium, Myroxylon e Copaifera. Anatomicamente ela combinaria muito mais com a Simaruba amara Aubl. Mas para pertencer a essa espécie de árvore faltam-lhe algumas características importantes.

(63) A Cavanillesia arborea Schumann = Pourretia tuberculata Mart., igualmente denominada de barrigudo, não pode ter sido o barrigudo que vimos, já que não está protegida por espinhos e seu abaulamento se localiza mais acima, no meio da altura do tronco.

(64) A análise anatômica das amostras de madeira que eu trouxe resultou que essas árvores eram sem dúvida da espécie Gallezia Gorazema Moq.

(65) Quanto ao cheiro, poderia ter sido Crataeva tapia L., mas, não consta na literatura se essa árvore-cebola também confere com a configuração do tronco da Crataeva tapia.

(66) Colhido nesse lugar para o meu herbanário.

(67) Não foi possível descobrir de qual espécie se tratava, pois existem várias espécies de uma ou duas flores de cor vermelha nessas regiões do Brasil.

(68) Colhido nesse lugar para o meu herbanário.

(69) Nos meus apontamentos de viagem não anotei com mais detalhes o mesclado do amarelo dos tucanos vistos. Peito amarelo, mas de mesclado mais claro do que o A. Bailloni, também apresentam os Pteroglossus wiedi Sturm, comuns nas florestas costeiras, mas como não notei nenhuma faixa vermelha em torno da barriga, possivelmente a última espécie citada deve ficar excluída, a não ser que eu não tenha percebido essa tira vermelha por causa da densidade da vegetação.

(70) Amazônia. (NO).

(71) Ver página 256 no original.

(72) Pode ter sido a voz da Columba rufina Temm., ouvida muitas vezes pelo Príncipe Wied nas matas do Brasil Central. Ver Wied. Beiträge zur Naturgeschichte Brasiliens, IV, p. 455.

(73) Wied (Reise nach Brasilien, I, p. 44) menciona eritrínias (Erythrina), plantas baixas deflores vermelhas que se desenvolvem na mata costeira, ao passo que Martius em Flora brasiliensis, XV l, p. 172 não cita nenhuma espécie de eritrínia como existente no Brasil. Exceto a E. Corallodendron L. as eritrínias não contêm substâncias venenosas.

(74) De qualquer modo, parecem ser apocináceas, talvez a Amblianthera leptophylla Müll. Arg.. Esta, no entanto, é uma trepadeira das matas da caatinga.

(75) Ver texto na p. 293 do original.

 

PRODUÇÃO

 @2013 by Arquivo Público do Estado do Espírito Santo

 

Coordenação Editorial

Cilmar Franceschetto

 

Revisão

Julio Bentivoglio

 

Apoio Técnico

Alexandre Alves Matias

Jória Motta Scolforo

Maria Dalva Pereira de Souza

 

Agradecimentos

André Malverdes, Levy Soares da Silva, Cláudio de Carvalho Xavier (Biblioteca Nacional), Adriana Pereira Campos, José Eustáquio Ribeiro, Adriana Jacobsen e a Hadumod Bussmann pelo fornecimento do diário de Maximiliano von Spiedel.

 

Editoração Eletrônica

Lima Bureau

 

Impressão e Acabamento

Dossi Editora Gráfica

 

Fonte: Viagem pelo Espírito Santo (1888): Viagem pelos trópicos brasileiros = Meine reise in den brasiliaischen tropen: / autoria da Princesa Teresa da Baviera - Vitória: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2013Autora: Princesa Teresa da Baviera
Tradução: Sara Baldus
Organização e notas: Júlio Bentivoglio
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2020

 

 

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