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Viagem de Pedro II ao Espírito Santo - Por Levy Rocha

Desenho de Dom Pedro II, quando de sua viagem ao Espírito Santo, 1860

Ajuntarei às explicações do prefácio, alguns comentários de como nasceu a razão do livro.

Em Petrópolis, por freqüentar com assiduidade a Biblioteca Municipal, tornei-me amigo do seu diretor, um enamorado das belezas do nosso Espírito Santo, Sr. José Hoeptke Fróes. Prestando-me grande gentileza, ele induziu um alemão a traduzir, do livro do Barão de Tschudi, “Viagem à América do Sul”, toda a parte referente ao nosso Estado.

Eu pretendia, após adaptar a um Português mais fluente, oferecer a tradução à Revista do Nosso Instituto Histórico, mas constatei que o que havia de mais precioso na narrativa já fora aproveitado e transcrito por Ernesto Wagemann, no seu livro “A Colônia Alemã no Espírito Santo”, traduzido por Reginaldo Santana e publicado pelo I.B.G.E. em 1949.

Por intermédio do mesmo Sr. Fróes descobri, com alegria, que a edição francesa do livro do pintor François Biard, “Dois Anos no Brasil”, traduzido por Mário Sette e integrado na coleção “Brasiliana”, tinha belos desenhos inspirados em temas capixabas.

Ainda em Petrópolis, outro amigo, o Sr. Marques dos Santos, aprazou-me o acesso aos arquivos do Museu Imperial, onde fui encontrar, emocionado, os inéditos apontamentos manuscritos a lápis, em duas cadernetinhas de bolso, com desenhos da autoria de Pedro II.

Mais uma circunstância feliz: esses manuscritos, de difícil decifração, estavam sendo copiados, direi melhor, traduzidos pela Sra. Gastão Moniz Aragão, e devo dizer que foi fundamental tal concurso para que eu conseguisse as cópias dos citados manuscritos.

Eu tinha o propósito de escrever uma ou duas crônicas sobre o achado, mas ao examinar tão rico material louvei a consciência de, no mesmo ano de 1860, visitarem o nosso Estado o diplomata alemão, o pintor francês e o nosso Imperador.

Reconheço que, nessa questão de manusear papéis velhos, sou bem um neófito; na garimpagem, não tenho a estirpe de bandeirante, mas acontece que eu tropeçara, ao acaso, com uma ganga rica; descobrira gemas preciosas; estava rico do assunto e não poderia fugir à idéia de fazer o livro.

Procurei o Príncipe D. Pedro de Orleans e Bragança, tão alto no porte físico, quanto diplomata e afável: ele narrou-me o episódio que ouvira contar da sua avó sobre a garrafa enterrada na Ilha do Almoço, em Juparanã e autorizou o Sr. Guilherme Auler a fornecer-me fotocópias de duas cartas que D. Pedro escrevera daqui, de Vitória, para a Princesa Isabel.

De lápis em punho, procurei algumas pessoas e, como se faz com as cartas enigmáticas dos almanaques, fui anotando as palavras “decifradas”. Corri farmacêuticos, tabeliães, calígrafos, mas as cartas continuavam sem sentido.

Um esforçado cidadão, no desejo espontâneo de auxiliar, assestou o aro dos óculos bem ajustados no nariz, focalizou as lentes e leu: “Niterói, 27 de janeiro…” E note-se, não foi o único a cometer essa confusão, sobre a qual não pairavam dúvidas…

Lembrei-me da Sra. Moniz Aragão, a quem voltei um tanto desesperançado. Ela, logo à primeira vista, sem a menor dificuldade, escorreitamente, ditou para mim o conteúdo das duas missivas.

O Sr. José Fróes sugeriu-me procurar, na Biblioteca da Marinha, no Rio, o Livro de Bordo do vapor APA, o que fora fretado para levar S. Majestade Imperial às províncias do norte. Tive a satisfação de ver na mesa do diretor da citada biblioteca um recorte da revista “Singra”, de uma crônica que escrevi, alusiva ao nosso herói “Caboclo Bernardo”: ganhei flâmulas da Marinha; uma revista; alguns opúsculos; mas do que procurava saí apenas com uma pista: o livro, se ainda existisse, estaria sepultado no Arquivo Nacional. Com efeito, os catálogos desse precioso acervo conferiam com a informação, mas as pilhas enormes de papéis, entulhados numa sala, escondidos por grossa camada de poeira, e a deficiência de funcionários para a pesquisa aconselhavam-me a desistir.

Procurei ganhar coragem, muni-me de uns pacotes dos nossos afamados bombons “Garoto” e voltei ao Arquivo disposto a seduzir os eficientes colaboradores daquela casa. A providência deu certo; após duas horas de reboliço, o livro foi encontrado! Mas, vitória vã; as páginas amarelecidas do documento registravam fatos destituídos de interesse ao caso.

Agora, falarei de uma vitória: informado da presença do Professor Eurípides Queiroz do Valle no Rio, mesmo sem o conhecer pessoalmente, tomei a liberdade de discar o telefone para o seu endereço, provocando um encontro. O Desembargador, amabilíssimo, não só se dispôs a me ouvir, por tempo alongado, como, ainda, fez amplos oferecimentos, comprometendo-se a arranjar, aqui em Vitória, parte importante da bibliografia que eu precisava. E cumpriu a promessa muito depressa, mandou-me até uma cópia datilografada de bela conferência pronunciada nesta capital, em 1949, pelo Prof. Jair Etienne Dessaune.

A essa comovedora ajuda eu deveria fazer referência, reconhecido, no prefácio do livro, como deveria também dizer que os desenhos dos finais de capítulos são da autoria do mestre Raul Pederneiras e que o livro é uma separata do volume 246, da Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

A par dessas omissões de que me penitencio, há algumas propositadas, por exemplo: a trabalheira infernal que encontrei ao alinhavar essa colcha de retalhos de manuscritos inéditos, de excerptos de obras raras, recortes de jornais de manuseio dificultado; o esforço para conseguir micro-filmes, no que encontrei, dignos de louvores, diligentes funcionários da Biblioteca Nacional, do Instituto Histórico Brasileiro, do Real Gabinete Português de Leitura, do Museu Imperial, da Biblioteca Municipal de Petrópolis, do Arquivo Nacional, da Biblioteca do Itamarati e mais bibliotecas de Barra Mansa, Vassouras e Valença.

Ressaltarei a colaboração de dois bons amigos, os Drs. Hélio Ataíde e Aloísio Ataíde, bem como a supervisão do reputado historiador Mário Freire, a cujos conhecimentos históricos devo algumas justas correções do original.

Longe da idéia de haver esgotado o assunto, resolvi oferecer cópia, obtida no Museu Imperial, dos diários de D. Pedro II, a mesma tal qual datilografou a Sra. Gastão Moniz Aragão, sem emendas, acréscimos ou omissões, pretendendo propiciar a outros, direi, aos historiadores conterrâneos, facilidade de acesso ao material de consulta, esperando que se desincumbam melhor em idêntica tarefa à que empreendi.

Se não me faltou fôlego de sete gatos para escarafunchar os papéis velhos, faleceram-me, reconheço, “o engenho e a arte”, como diria o poeta lusitano.

 

Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. N 21, ano 1961
Autor: Levy Rocha
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2013 

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