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Viajantes Estrangeiros ao ES – Auguste François Biard

Auguste François Biard (1798-1882)

Na relação dos principais viajantes estrangeiros ilustres que estiveram em nosso país, no segundo meado do século dezenove, sem muito destaque, inclui-se o nome do pintor francês — Auguste François Biard. Se Melo Morais Filho (embora o considerasse "pintor genial, espírito nutrido de observação e grande pintor de tipos, costumes e cenas da natureza"), dele se ocupou, num dos seus livros, foi mais para narrar um episódio cômico do artista, no Paço Imperial, em luta, à noite, com um manequim que solicitara e a Academia de Belas Artes mandara deixar à porta do seu quarto.

A cena foi descrita no livro de Biard, publicado em Paris, no ano de 1862, sob o título: "DEUX ANNÉS AU BRÉSIL". O volume é grosso, em ótimo papel, fartamente ilustrado (gravuras de E. Riou, segundo croquis do autor), o que não sucedeu com a tradução de Mário Sette, apresentada em modesto aspecto, em 1945, pela Editora Nacional.

O credenciado artista da corte francesa (nascido em Lyon, no ano de 1798 e falecido em Fontainebleau, a 1882), se expressou em telas existentes nos museus de Amiens, Lion, Rimes, Versalhes, Berlim, Diepe, Leipzig, Ruão, Sidney e outros. No Brasil, ao que se sabe, existem, da sua palheta, no Museu Nacional de Belas Artes: UM RETRATO DE SENHORA e na Fundação Raimundo Ottoni de Castro Maia: UM ASPÉCTO DO RIO DE JANEIRO.

Nas cenas que descreve, em seu livro, com o sabor de um Daudet ou de um Cervantes, é mais humorista do que cronista do tempo e dos costumes. Um crítico de arte, seu compatrício, chegou a chamá-lo de "O Paulo de Kock da pintura".

Nem sei mesmo porque as suas aventuras não foram, ainda, aproveitadas no cinema. Estou a imaginar um outro seu conterrâneo, Jacques Tati, protagonista do filme: AS FÉRIAS DO SR. HULOT, como um tipo a calhar, na interpretação das suas peripécias. Permanecendo no Rio de Janeiro todo o primeiro semestre de 1858, Biard teve tempo para desenhar a paisagem carioca; exercitou-se no português, e retratou a família imperial. Seu grande interesse, porém, era pintar a floresta e os índios.

Foi apresentado a um imigrante italiano, tirador de jacarandá na vila de Santa Cruz, Espírito Santo. Com a promessa de poder usar, naquela região, os próprios trabalhadores, como modelos, não vacilou: a 2 de novembro de 1858, embarcavam ele e o italiano, no paquete a vapor MUCURI (ele escreveu MERCURY), com destino a Vitória.

O pequeno vapor, de 146 toneladas de calado, cuja rota regular se estendia até ao porto de Caravelas, levava, a reboque, o vaporzinho PERUÍPE, para subir o rio Mucuri, deixando colonos alemães, imigrantes, em suas glebas. Na terceira noite de viagem (4 de novembro), pela altura da barra do rio Itapemirim, explodiu a caldeira do vaporzinho e por um triz ele não se consome num incêndio. Três tripulantes, gravemente feridos, foram levados para a Santa Casa de Misericórdia de Vitória.

Entrando na baía do Espírito Santo, Biard registrou o contraste da grande bandeira que, por ilusão de ótica, lhe parecia maior do que o pequeno forte de S. Francisco Xavier da Barra, onde ela se desfraldava.

No porto de Vitória, foi agradavelmente surpreendido, ao descer, com a presença de dois compatriotas: o Sr. Penaud, proprietário duma próspera padaria, e um colono a quem já conhecera, no Rio.

Havia um péssimo hotel, na cidade. Por isso, o pintor preferiu dormir num colchão, em cima dum bilhar. À noite, foi despertado por uma cantoria de negros que iam até um grande navio, ancorado.

No outro dia, o seu companheiro italiano o acompanhou para entregar as cartas de recomendação que levava, da Duquesa de Barral. Visitaram o chefe de polícia, o presidente da província, Coronel José Francisco de Almeida Monjardim, e outras personalidades de realce. Graças a uma das cartas, conseguiram cavalos para a viagem até Santa Cruz. Um preto os seguiu, a fim de trazer, de volta a montaria. Quanto às bagagens, seriam mandadas buscar de canoa.

Biard aproveitou o resto do dia passeando, na cidade de Vitória. Num bairro, teve a satisfação de ver, pela primeira vez, o que tanto desejava: os índios. Viu-os com hábitos de civilizados, em suas modestas casas, onde periquitos e papagaios mansos estavam familiarizados com as mulheres tecedeiras de rendas de bilros.

No dia seguinte, Biard e o italiano seguiram de montaria, acompanhados do negro. O pintor estranhou os pequenos estribos, em que não cabiam os sapatos, bem como as estradas alagadas. A matula, um pão com salame, deu-lhe grande sede, que preferiu curtir, a ter de beber das águas onde se dessedentavam os animais.

Naturalista improvisado, com o auxílio do acompanhante negro, foi catando insetos e mariscos, até a vila de Nova Almeida.

No centro da praça, observou a pedra onde eram presos os índios criminosos. Seria o pelourinho, ali fincado na instalação da vila, que pouco faltava para comemorar o centenário.

Ao apear do cavalo, após tomar fôlego, bebeu e lavou-se numa fonte pública, de água límpida e abundante.

Pernoitaram na casa dum italiano e prosseguiram viagem na manhã seguinte. Em caminho, o pintor viu, pela primeira vez, as orquídeas. Recolheu umas raízes suberosas, incômodas de carregar, que serviam para substituir a cortiça nas bóias de rede e salva-vidas e que outra espécie não seria senão o ariticum do brejo. Ignorava ele que no mercado do Rio de Janeiro podia comprar aquelas raízes com muita facilidade...

Almoçaram carne seca e feijão, mas, desta vez, haviam levado uma vasilha d'água e uma garrafa de vinho.

Sol alto, ainda, avistavam a torre da igreja da vila de Santa Cruz. Biard surpreendeu-se quando perdeu de vista a linda fachada e, ao se aproximar, noutro ângulo, constatou haver só a parede da frente; o copo do templo estava por ser construído. As cerimônias religiosas realizavam-se numa palhoça, ao fundo.

Aquele templo vinha sendo construído pelo vigário Francisco Antunes de Sequeira, filho do lugar, que morava no alto dum monte, à esquerda da estrada. As obras foram começadas 9 de maio de 1857 e, decorridos cinco meses, já se achava pronto o frontispício, no estilo gótico-romano.

O artista esboçou a igreja nos dois ângulos, não se esquecendo de representar o sacristão, um preto velho, trepado em andaimes, a bimbalhar os sinos, que eram dois.

Santa Cruz fazia dez anos que tinha sido elevada a município. Tinha muitas casas de barro a sopapo, cobertas de sapê ou folhas de palmeiras. Umas poucas eram caiadas e entelhadas. O Paço da Câmara se realçava em dimensões e tinha melhor aspeto. Havia um chafariz que mereceu registro do pintor. Mas não era recém-construído, segundo lhe pareceu; a fonte de duas bicas, água pura, quase centenária, sofrera remodelação há um ano e pouco.

O italiano possuía uma pequena casa na vila, que se achava entulhada de mercadorias. Biard se acomodou numa sala próxima, que servia de depósito de cal. Deram-lhe um barril de bacalhau como depósito d'água e um colchão para estender no solo.

Devido ao mau tempo, os índios não podiam levar as canoas a Vitória, e buscar as bagagens.

E o viajante se deteve por três semanas na vila. Nesse ínterim, travou relações com o padre Antunes de Sequeira, jovem sem preconceitos, que tanto topava o vinho do Porto como a cachacinha da terra. Há meses atrás, ele oferecera, ao presidente da província, um compêndio de doutrina cristã, destinado à adoção nas escolas primárias. Por isso, merecera elogios do correspondente do jornal carioca CORREIO MERCANTIL.

O sacerdote emprestou a Biard uma espingarda, com a qual ele se tornou um atirador razoável. Para quebrar o tédio, visitava as cabanas da vila; recolhia mariscos, insetos e pássaros, presenteados pela meninada.

As canções cantadas pelos tripulantes de barcos, carregadores de jacarandá, cujos toros, ali serrados em duas bandas, seriam levados para o Rio de Janeiro, donde eram exportados para a Europa, azucrinavam os ouvidos do pintor. Mais tarde, ao redigir o livro, elas lhe serviriam de inspiração.

Afinal, o tempo melhorou, veio a bagagem (malas encharcadas, em petição de miséria), e não houve trégua para uma tentativa de reparos, pois viajaram no mesmo dia.

Aproveitando a maré, à força dos remos, subiram a embocadura do rio Santa Cruz. Meia hora após a partida desabou um aguaceiro. Rompeu-se o guarda-chuva do pintor; suas malas se inundaram e a canoa, de tão cheia, ameaçava afundar.

Pequena canoa, tripulada por um casal de jovens, descia o rio. Enquanto o homem se mantinha ao leme, a mulher sustinha, no lugar do mastro, à guisa de vela, um galho de árvore, numa cena que constituiria motivo de um desenho.

Avançavam sob a copa das árvores mais frondosas e o pintor extasiava-se com a natureza: "...Minha tendência de esmerilhar o lado cômico do que até então me fora dado ver, transforma-se numa inclinação para os pensamentos sérios, para um recolhimento meio religioso".

O rio se estreita de tal forma que as árvores das margens se procuram, num abraço. Uma légua acima da foz, é a junção dos dois caudais, formadores do rio Santa Cruz. O autor não conta por qual caminho enveredaram: se para o norte (mais admissível), através do Piraquê-Açu, que admitia, no tempo das chuvas, navegação para as canoas maiores, até seis a oito léguas, onde existia uma fazenda, de Rafael Pereira de Carvalho; ou se em direção do sul, através do Piraquê-Mirim, que, em condições idênticas, era navegável umas duas a três léguas acima da confluência. Não diz, ainda, se transpuseram a junção dos dois rios; apenas, informa que, numa clareira, onde uma praia de areia fina convidava ao banho, viu, num alto, a cabana, ponto terminal da excursão, que alcançavam antes da hora do jantar.

Os índios vieram apanhar a bagagem e o pintor subiu uma ladeira escorregadia e ficou decepcionado com o quarto que lhe destinaram. Caixas, barris, fardos de carne seca atravancavam a porta.

Na cozinha, uma índia velha assava um tatu num braseiro à parte, uma mulata moça preparava o jantar. Carregadores da bagagem cochilavam, nos bancos. Havia, ainda, no rancho, onde Biard teria de permanecer semanas, um sagüi bravo, meia dúzia de cachorros magros, outros tantos gatos, galinhas, bacurinhos e patos.

O hospedeiro procurou transmitir as ordens ao administrador e não se importou com o artista, deixando-o, quanto possível, à vontade. Não era o tratamento esperado. Biard externa seu ressentimento e mágoa, dizendo a má impressão que lhe ficou do italiano, cujos planos colonizadores ele fora expor e recomendar ao Monarca. Sistematicamente, omitiu-lhe o nome, em toda a narrativa, mas esboçou-lhe o retrato: magro, alto, de bigodes torcidos, charuto à boca, segurando um comprido cacete.

Em sua volumosa bagagem, trouxera o pintor uma máquina fotográfica, comprada de segunda mão, às vésperas de embarcar, no Rio de Janeiro. Agora, no quarto dia de permanência no acampamento, com a decisão de se tornar fotógrafo, procurava construir pequena câmara escura. É fácil imaginar o quão desastrosa foi a experiência, que não seria de lamentarmos, pois redundaria em benefício dos desenhos e pinturas.

Voltando para as tintas, Biard conseguiu demover um índio contra a superstição de posar e pintou-o. No intervalo das chuvas, caçava, com uma espingarda belga, de dois canos, emprestada pelo hospedeiro. Aves, mamíferos, cobras serviam aos ensaios de taxidermia. Fascinado pela floresta, fartou-se em pintá-la. Ilustrou diversos episódios cômicos da narrativa, tais como o encontro com um sapo-boi, no qual ele pisou, pensando ser uma pedra, ou outro encontro, com um grande caranguejo, entre as folhas, o qual alvejou com um tiro, supondo perigosa surucucu.

Logo que as chuvas deram trégua, muniu-se dum facão de mato, espingarda, e frascos para recolher os insetos, excursionou mata adentro, chegando a um ribeiro encachoeirado, limite dumas terras que o governo provincial cedera à pequena tribo de puris civilizados. Os caranguejos pregavam algumas peças ao pintor: entravam, à noite, no quarto, subiam as paredes de adobe e comiam-lhe a tinta vermelha das telas. Mas pior luta infligiam -lhe os mosquitos. Fez desenhos representando a maneira adotada de os enfrentar. Cercou-se dum cortinado, em forma de barraca. Falhando o processo, improvisou outro: prendeu o filó embaixo do chapéu de abas largas e com o véu e de óculos, era bem a figura de um fantasma.

As formigas de correição, num verdadeiro exército, surpreenderam-no, na mata, enquanto pintava.

Sentindo-se cercado, Biard arrumou, às pressas, a caixa de tintas e fugiu aos pulos ,deixando a espingarda e a caça que no final de três horas virou esqueleto descarnado. Em casa, distante uma légua, constatou que as formigas da correição que avançavam cobrindo uma faixa aproximada de dez metros de largura, só pouparam as coleções de animais empalhados graças ao sabão arsenical.

Comentando com exagero (segundo seu feitio), afirma ter visto lavouras devastadas numa noite e "móveis maciços e enormes portas de madeira, resistentes como o ferro, se desmancharem em pó". Conclui, em consonância com o aforisma de Saint-Hilaire, que o verdadeiro inimigo do Brasil eram as formigas.

O exagero do pintor também se mostrou no desenho que reproduz o episódio da correição e no qual uma formiga, pelo tamanho, parece mais uma aranha caranguejeira...

Convenhamos que as formigas — chamadas pelos portugueses, de REY DO BRASIL, conforme registrou o naturalista Guilherme Piso, trazido ao Brasil pelo Príncipe Maurício de Nassau — sempre se mostraram agressivas na região. Porque invadissem, em 1610, Santa Cruz (naquele tempo, Aldeia Velha), devastando as roças dos tupiniquins, o padre João Martins Carro conseguiu a sesmaria onde nasceu a aldeia dos Reis Magos.

Chegando o dia da festa de São Benedito, Biard e o italiano foram visitar a aldeia de Destacamento, localizada um pouco acima da junção dos dois rios. Em toda cabana onde entravam, havia farta distribuição de CAUEBA ou CAUIM, que o pintor provou, numa cabaça, com o fito de conquistar a confiança dos índios e assim conseguir pintá-los, fazendo "o amor à arte sobrepujar a repugnância".

Assistiram às danças, ritmadas pelos tambores e casacas, ou récoréco de cabeças, repetidas de cabana em cabana. Numa delas, um índio cantava ao som da viola, música monótona, e improvisou uma quadra, mexendo com o pintor:

"SU BIA AO SERTÃO GUEREA

MATAR PASSARINHOS

SU BIA AO SERTÃO

E TAMBÉM SOUROUCOUCOU".

 

"M. BIARD DANS LA MONTAGNE

DÉSIRE TUER PETITS OISEAUX,

M. BIARD DANS LA MONTAGNE

CHERCHE AUSSI SERPENTS DANGEREUX".

 

O artista empolgou-se com a homenagem e fez questão de desenhar a cena folclórica: um índio alto, paramentado duma túnica branca, segurando um guarda-chuva vermelho, ornado de flores amarelas, tendo, na outra mão, o São Benedito, numa bandeja, entre flores. Esta se apoiava, ainda, no chalé de franjas, amarrado à cintura, como talabarte. Outro personagem, o comandante, usando como emblema uma rodela com três cerejas, envergava farda azul-celeste, enfeitada de chita em xadrez vermelho, com dragonas e canhotilhos e um grande chapéu em duas pontas, sustendo um penacho verde. Num passo de dança, ia, à frente do cortejo, levando uma baliza às mãos. Logo atrás, o Santo, recebendo ofertas na bandeja.

Biard não teria conseguido pintar o quadro conforme desejava, mas, noutra oportunidade, desenhou os principais figurantes, quando tripulavam uma canoa. Por certo, eles desceram o rio, parando no acampamento do italiano madeireiro. E teriam ido até Santa Cruz. Algumas semanas depois, isto é, precisamente a 2 de fevereiro de 1860, o Imperador Pedro II, ao visitar aquela vila, escreveu no caderninho de apontamentos: "... os índios vieram tocar e dançar e depois apareceu o capitão-mor como o pintor Biard, e um S. Beneditozinho dentro duma caixa..."

Devo, aqui, penitenciar-me de equívoco cometido no livro que escrevi, falando da viagem do Imperador ao Espírito Santo, no qual admiti o encontro do Monarca com o Pintor, em Santa Cruz. Quando Biard regressou ao Rio (12 de maio de 1859), antes de viajar ao Amazonas, foi despedir-se dos Imperadores. D. Pedro II, que também aprontava as malas para partir, a 23 de junho, na longa excursão que veio a terminar no Espírito Santo, teria visto o álbum do artista, talvez, mesmo, os quadros mais recentes, daí aquela evocação.

Passados muitos dias na selva, quando o Pintor já se sentia um prisioneiro, à mercê do italiano, recebeu a primeira remessa de dinheiro, providenciada pelo cônsul da França, Theodoro Maria Taunay, e duas outras se sucederam, logo após.

Restava conseguir canoa, remadores, e se despedir do hospedeiro que não lhe conquistara muitas simpatias. Mas ainda assistiu à queimada duma derribada, desenhando a cena empolgante. E se meteu em longa excursão. Caminharam um dia a cavalo, através da mata, dormindo num acampamento, ao pé de estrepitosa cascata. No segundo dia, atingiram uma cabana de índios, derrubadores de madeiras.

Na madrugada subseqüente, prosseguiram, seguidos dos cães, na intenção de explorar matas ainda mais fechadas, abrindo picadas a machadinhas. Meteram-se por dentro dum riacho, seguindo o curso da nascente. "Todos os esforços eram necessários para não molhar a minha bagagem, o que nem sempre era fácil conseguir. Acompanhava, de longe, os companheiros e quando a água não me chegava ao pescoço, erguia os braços e fazia vagarosamente um esboço, lamentando não viesse atrás de mim um colega de pintura para apanhar minha figura, assim metido n’água, com a roupa e a espingarda pendurados às costas, e de braços no ar, a desenhar". O artista repetiria de imaginação, uma vez que esta cena serviu para uma ilustração do livro.

Quase ao fim da jornada, que devia ser uma procura de árvores a derribar, um índio atirou de revólver numa grande surucucu que, mesmo depois de morta, metia medo. Eis as dimensões: "tinha bem uma dúzia de pés de comprimento" e "a cabeça do tamanho de um focinho de porco". O autor da proeza chamava-se Almeida e já servira de modelo ao artista tendo caído enfermo, veio a falecer dois dias depois. Rosa, sua mãe, velava-lhe o corpo, numa cabana, rezando baixinho. De vez em quando, ia à cozinha, onde os companheiros conversavam e riam, enquanto assavam peixes, dos quais ela trazia algum, para mastigar.

O pintor aproveitou a oportunidade e bosquejou o singelo velório, ocasião em que altercou com o hospedeiro e decidiu deixar, definitivamente, o acampamento.

A uma hora de caminhada, foi deparar com um compatrício, por cujo intermédio conseguiu outra morada e um ajudante, o pequeno Manuel, que tomou como cozinheiro. Sem supor, ele levara quase dois dias para voltar às margens do rio, local donde pensava estar longe. Mandou três homens apanhar sua bagagem, numa canoa, e enviou outros dois à vila de Santa Cruz, para se abastecerem de gêneros alimentícios.

Mais bem instalado, com o conforto duma rede armada, presente antigo, dos naturalistas Eduardo e Júlio Verraux, tinha outra espingarda de caçadores de Orleans (emprestada pelo velho Francisco), pois a que usava lhe explodira às mãos, por sorte sem o ferir.

No intervalo das pinturas, era fácil alvejar um sabiá ou um lagarto ENGOLE-VENTO, para reforçar as refeições.

Aos domingos, recebia, em sua nova cabana, a visita dos índios, aos quais distribuía cachaça. E escolhia os tipos que desejava pintar.

A melhor surpresa foi a visita de doze botocudos, procedentes de Vitória, aonde tinham ido pedir auxílio ao presidente da província. Presenteou ao chefe com uma faca e uma lima de unhas, comprados em Paris, recebendo, em retribuição, um arco e flechas. Aproveitou a chance para alguns desenhos.

Daí em diante, não teve mais dificuldades em conseguir modelos. Com uma pataca para cada índio, e farta distribuição de cachaça, inclusive às mulheres, podia escolher o tipo que mais lhe aprouvesse.

Antes de se despedir das matas, desejou pintar um panorama; contudo, os maruins, mais inconvenientes do que os pernilongos, foram um entrave. Durante uns vinte dias Biard suportou-os estoicamente, até compor o panorama em seis partes e considerou-o a sua obra capital. À noite, as formigas cabeçudas pregaram-lhe grande peça: picotaram a obra prima, quase destruindo-a. Necessitou cinco dias mais de trabalho, para restaurar o quadro.

A 6 de abril de 1859, Biard e seu companheiro Manuel desciam o rio Santa Cruz, em canoa contratada, do português Domingos. A mesma canoa levaria o artista a Vitória, mas o mau tempo e o vento desfavorável retardaram a viagem, na vila de Santa Cruz.

Enquanto esperava, Biard passeava pelos arredores. Ele verificou o estrago que as chuvas de dezembro e janeiro haviam causado, fazendo cair um morro que soterrou dezessete cabanas. O volume pluviométrico causou prejuízos e foi mesmo fora do comum. Notícia do CORREIO MERCANTIL informava que a chuva provocou, na vila de Santa Cruz, o desabamento de sete casas, com ferimentos de pessoas; desmoronou barreiras, inundando plantações. Em Vitória, provocou o desmoronamento de duas grandes pedras na montanha das Pedreiras, que vinte homens não seriam capazes de abalar, sendo que uma rolou até a praia e a outra "ficou na estrada, chamando a atenção do público, que aí acorreu como se fora ver a baleia à Copacabana". Detalha a notícia que também se desmoronou parte da estrada, próxima à chácara do Dr. Melo (o futuro pai de Muniz Freire). O povo atribuía essas ocorrências ao aparecimento de um cometa, ou ESTRELA DE RABO.

Decidindo esboçar um quadro, Biard viu-se cercado por um bando de perus, em suas manifestações álacres. Na última excursão venatória, matou a tiros e coronhadas dois gatos do inato, espatifando a espingarda. O consertador era o negro sacristão, sineiro, serralheiro, sapateiro remendão, e criador de patos e perus. Biard pagou-lhe dez francos por um pato que a dona da casa preparou para a viagem.

Foi só melhorar o tempo, aproveitaram a madrugada e partiram: Biard, um negro, dois índios, Domingos, dono da canoa e a bagagem. Só na manhã seguinte chegavam a Vitória.

O pintor hospedou-se na casa do canoeiro, um sobrado à beira do cais, espécie de albergue. Instalou-se num dos quartos, separado por tabiques e de paredes nuas, onde se penduravam as redes de dormir.

A chegada do vapor MUCURI, anunciada para os próximos dias, atrasou-se.

Naquele modesto quarto, onde certa manhã uma galinha botou um ovo dentro do chapéu do artista, ele foi surpreendido pela visita das principais autoridades da terra: o juiz de direito, Dr. Lourenço Caetano Pinto; o capitão do porto, Francisco Luís da Gama Rosa, e o subdelegado de polícia. Foram oferecer-lhe hospedagem condigna, oferecimento tardio, uma vez que ele partiria no outro dia.

A viagem mereceu registro no jornal CORREIO DA VICTÓRIA, cuja notícia foi transcrita no jornal carioca: CORREIO DA TARDE, enviada pelo correspondente: "Vitória, 12 de maio de 1859. Segue neste vapor Mr. Biard, o célebre pintor francês que andou pelos sertões da vila de Santa Cruz copiando as belezas das nossas florestas e pintando os costumes dos nossos índios. Tive a subida honra de conversar com este artista e ainda que entenda pouco do francês, fiquei encantado de sua conversação: disse-me ele que, apesar das dificuldades com que lutou, sempre pôde fazer alguns esboços curiosos e interessantes. Mr. Biard apenas foi aqui visitado por três ou quatro pessoas que sabem apreciar o talento e dar valor ao merecimento artístico de tão afamado pintor. Se fosse algum taverneiro rico, tinha recebido centenares de visitas e até bailes e jantares! Viva o dinheiro e o mercantilismo da época".

 

Fonte: Viajantes Estrangeiros no Espírito Santo, 1971
Autor: Levy Rocha
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2016

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