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Vida Capixaba - O Retrato de uma sociedade (Parte IX – Final)

Capa do Livro: Vida Capichaba: O Retrato de uma Sociedade - 1930

Conclusão

Uma sociedade é construída a partir de vários elementos que interagem em um mesmo espaço físico e temporal, representa um contexto multilinear, onde novos objetos são apresentados a todo o momento, muitos incorporados e outros rejeitados. Um destes objetos é a imprensa, que abordando a sociedade como um conjunto, permite que o cotidiano, enquanto dimensão privada da vida social caia no domínio público.

O Estado do Espírito Santo não tinha quase nenhuma representação nacional, adotando uma postura de subordinação e dependência em relação aos acontecimentos do eixo Rio-São Paulo. A sociedade era predominantemente masculina e sua economia basicamente agrária, onde todos dependiam da colheita e do preço do café no mercado internacional. Quase ninguém colocava as mãos na terra, pois a maioria da população urbana era de comerciantes e funcionários públicos. As mulheres exerciam o papel de donas de casa, cuidando dos filhos e da economia doméstica. Pacheco (1998) acrescenta que, na cidade de Vitória havia o predomínio dos indivíduos de cor branca, porém, a miscigenação era evidente. Os poucos pardos e negros que conseguiram se infiltrar na sociedade o fizeram como indivíduos e não como grupo. O modelo dominante era o oligárquico-agrário-tropical-exportador.

A vida política capixaba vivia, em 1930, um momento de instabilidade, devido a crise política nacional provocada pela ação da Aliança Liberal. A Revolução de 1930 provocou alterações no comando político do Estado, que passou a ser governado por um interventor federal. Os políticos locais e as classes conservadoras, dominantes, foram logo cooptadas e as diretrizes getulistas foram implantadas, dando a política do Estado um caráter mais nacional. A imprensa passou a sofrer censura da nova ordem política, culminando com o "empastelamento" do jornal A Gazeta em 14.02.1930. A economia, apesar da crise, continuava tendo como base o setor cafeeiro. A formação de uma sociedade, segundo Vasconcellos (1993), advém de certos elementos que as definem e que lhes dão consistência e identidade. A articulação deste conjunto de elementos estrutura o imaginário da sociedade, ou dos diferentes grupos presentes nela, num certo momento. Este imaginário social acaba por definir aquilo que é importante e aquilo que não é o que dá significado à vida num determinado local e em certo momento do tempo. Assim também se produz a sociedade de Vitória, suas múltiplas identidades são resultados de todos os elementos que contribuem na construção da vida social da cidade. Vasconcellos (1993) descreve a cidade de Vitória, em fins dos anos 20 e início dos 30, como uma cidade bastante tradicional, controlada no âmbito social pelas elites clássicas. Acrescenta que esta postura reprodutora é fruto da pequena dimensão de sua vida cultural e social, dando a ela um ar de provincianismo. Concluímos que a revista "Vida Capichaba" era um destes elementos de construção da sociedade capixaba, reproduzindo os interesses e costumes das elites dominantes. A população em geral era tratada como consumidores, atores coadjuvantes na construção da realidade que interessava a grupos determinados.

A revista refletia a sociedade da época e agia como um instrumento determinante de tendências, um referencial de atitudes, um modelo a ser seguido e não apenas um representação do cotidiano. A publicação se identificava com a perspectiva reprodutora de interesses individuais ou de determinadas classes, funcionando como um elemento de manutenção de um padrão da ordem. Era um elemento inserido no contexto social, um verdadeiro meio de comunicação de massa capixaba, utilizado pelas elites para transmitir seus padrões e interesses, reafirmando seu poder.

 

Referências

Obras impressas:

ABREU, C., MARTINS, J.D.B., VASCONCELLOS, J.G.M. (org.). Vitória: trajetórias de uma cidade. Vitória: Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, 1993.

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NOVAES, Maria Stella de. História do Espírito Santo. Vitória: Fundação Cultural do Espírito Santo, s/d.

OLIVEIRA, José Teixeira de. História do Estado do Espírito Santo. Rio de Janeiro: IBGE, 1951.

PACHECO, Renato. Estudos espírito-santenses. Vitória: Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, 1994. OS dias antigos. Vitória: EDUFES, 1998.

PROST, A. & VINCENT, G. (orgs.). História da vida privada: da primeira guerra a nossos dias. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. 5 vol. P. 15-153.

SANTOS NEVES, Guilherme. Folclore Brasileiro-Espírito Santo. Rio de Janeiro: Funarte/INF, 1982.

SERRA, Antônio A. O desvio nosso de cada dia: a representação do cotidiano num jornal popular. Rio de Janeiro : Achiamé, 1980.

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VASCONCELOS, João Gualberto. A invenção do coronel — ensaio sobre as raízes do imaginário político brasileiro. Vitória: SPDC/UFES, 1995.

2. Fontes Primárias:

JORNAL A GAZETA. Vitória, 1930.
JORNAL DIÁRIO DA MANHÃ. Vitória, 1930.
REVISTA VIDA CAPICHABA. Vitória, 1930

 

Fonte: “Vida Capichava”: O Retrato de uma Sociedade – 1930. Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo - 2007
Autor: Jadir Peçanha Rostoldo
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2019

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