Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Vida Capixaba - O Retrato de uma sociedade (Parte VIII)

Capa do Livro: Vida Capichaba: O Retrato de uma Sociedade - 1930

Sociedade e Imprensa: Uma Via de Mão Dupla

 

4.3 Cotidiano: Dependência e Reprodução 

 

Um veículo de comunicação esta destinado a apresentar os caminhos e atitudes de uma sociedade. Esta apresentação nunca estará totalmente desvinculada de influências, sejam elas políticas, econômicas ou sociais, que serão sempre fatores importantes a considerar. Por outro lado não podemos deixar de perceber que, a informação não é uma via de mão única, ela corre em todas as direções.

A imprensa é o reflexo e o resultado do relacionamento que mantém com a sociedade que a cerca, e consequentemente do relacionamento que esta sociedade mantêm com todos os outros elementos que a completam. Utilizando-se de instrumentos sutis de exploração psicológica os meios de comunicação tem o poder de manipular a população, condicionando comportamentos e atitudes dos indivíduos, em particular, e da sociedade, em geral. A comunidade, impregnada de informações tendenciosas, passa a aceitar passivamente o "status quo" social e econômico. A revista "Vida Capichaba", enquanto um veículo inserido na sociedade capixaba representava esta postura da imprensa. Ela, além de ter sido um elemento de definição da sociedade, foi também um instrumento de sua reprodução. As elites reproduziam os conceitos e atitudes propostos pela revista, e ao mesmo tempo eram reproduzidas por ela.

Além disto, a revista sobrevivia por causa da sociedade, que dependia dela para sustentar suas posturas e atitudes. Cria-se uma relação de dependência e reprodução mútuas, onde a defesa e a manutenção das elites dominantes é o objetivo principal. Esta atitude, pode ser percebida a partir das imagens que acompanham a publicação, desde a capa até as caricaturas, passando pelas fotos e os anúncios ilustrados, a preocupação maior era a elite. Mostrar suas atitudes, seus programas, seus interesses e preocupações, assim como direcionar os anúncios e propagandas para atender a sua demanda. A propaganda "O Valor do Annuncio na 'Vida Capichaba'", publicada no número 217, de 06.03.1930 e em outros números, demonstra este contexto:

“O negociante intelligente não desconhece o valor de uma systematica campanha de propaganda. Os annuncios nas revistas do gênero da Vida Capichaba são de notável efficiencia,trazendo fartas compensações. As declarações abaixo, que nos foram espontaneamente offerecidas por duas das mais importantes firmas de Victoria, são attestados magníficos das vantagens, que advém para os que annunciam na Vida Capichaba. [...] Temos o grato prazer de levar ao conhecimento dos prezados amigos que estamos satisfeitos com a campanha de propaganda, que vimos fazendo em sua conceituada revista, pois podemos assegurar-lhe que vários negócios nos foram encaminhados de diversas praças por intermédio de annuncios, que publicamos na 'Vida Capichaba'. [...] [...] Como annunciantes assíduos na Vida Capichaba', onde fazemos constante propaganda de nossos artigos, de real proveito para nossa organização, graças à grande procura de que goza esse magazine capichaba. Esses attestados, que têm o alto valor de serem subscriptos por duas das mais importantes firmas commerciaes desta praça, [...], com vantagens innegáveis, a faina compensadora de annunciar sempre para vender cada vez mais, valem pelo mais efficaz louvor à efficiencia dos nossos largos recursos de publicidade. E — convém salientar como expressão de verdade — poucos centros commerciaes são tão sensíveis à influencia do annuncio, como o nosso. Qualquer producto annunciado habilmente nesta praça tem, logo, grande procura e sahida infallível.”

O relato das festas das elites era uma marca predominante na publicação, contribuindo assim para a reprodução e disseminação dos valores desta classe. Vida Capichaba, número 214, de 13.02.1930:

“Uma linda festa na pittoresca e confortável residência do Sr.Gentil Manoel Tenorio, em Praia Comprida, realizou-se, no último domingo, uma linda festa litero-theatral. [...] Organizada por distintas senhoras e senhoritas da nossa sociedade, foi uma hora de encanto e de graça, que merecem muitos applausos da numerosa e selecta assistência. H Excellente música, o 'jazz' da policia e o grupo 'cucuia' deram àquele recanto bucólico uma nota vibrante de alegria. Felicitamos a commissão promotora pelo sucesso do interessante festival."

A seção "Sociaes" também representava esta relação entre a revista e a sociedade. Figurava em todos os números, relacionando os aniversários, os casamentos e as festas de personagens da elite social capixaba. Todos os anúncios eram seguidos de comentários a respeito dos envolvidos: filiação, titulação, posição profissional e importância social. Mais uma vez fica latente a preocupação em apresentar uma classe específica, vinculada a imagem dominante e ao poder. A revista reproduz e é reproduzida pela sociedade. Entendemos que a imprensa deve ser um veículo de notícias e opinião, nunca abandonando suas principais funções: a de informar e a de formar. Deve buscar sempre a liberdade de expressão, aumentando assim sua capacidade de resistência à influência do anunciante ou às pressões do poder.

Praticando um jornalismo em que a responsabilidade social e moral sejam o vértice condutor, a imprensa gera o seu próprio destino. Conferindo status as questões públicas, pessoas, organizações e movimentos sociais, fora do âmbito da elite dominante. Reconhecendo que sua ética é fator preponderante na definição da moral de uma sociedade, a imprensa assume seu principal papel, o de representar a causa e a consequência de todos os movimentos sociais.

 

 

Fonte: “Vida Capichava”: O Retrato de uma Sociedade – 1930. Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo - 2007
Autor: Jadir Peçanha Rostoldo
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2019

Pesquisa

Facebook