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Vila Velha do impressionista

Atelier - Residência da Prainha.

Conheci Homero Massena há muito tempo, quando os homens usavam vistosos sapatos de duas cores, ternos engomados de linho S 120 e meu pai, um dos poucos médicos de Vila Velha, o acompanhava nas noites de cartas, na casa de um amigo comum, Dr. Wilson Champoudry. Saudosos tempos de uma Vila Velha com poucos carros e muitas praias, um oásis que muitos ainda se lembram.

Pois é, Massena deixou para trás pianos, relógios, o palco, um consultório dentário, cenários de filmes, uma prefeitura em Minas, uma secretaria política, patente de oficial constitucionalista de 1932, redações de jornais como A Tarde, O País, Jornal dos Comércios e A Batalha. Deixou a tranqüila posição de modernista em São Paulo e/ou Rio e veio para cá, Vila Velha, que ainda estava muito semelhante à que deixara na infância. Aqui, Massena amadureceu sua arte, pois se entregou de corpo e alma à natureza. A poucos passos da porta de sua casa fica a velha ladeira da Penha, que por ele foi estudada palmo a palmo numa seqüência de telas que ornamentam salões como os dos Palácio Anchieta e Alvorada e um grande número de salas particulares. A sua obra, portanto, está dispersa e distante do grande público, uma vez que não temos em Vitória um museu de arte. No ano passado, num trabalho preparatório para a Documental de 74 – final da gestão Euzi Moraes na Fundação Cultural – percorri diversas residências, examinando, medindo, datando, etc... e apreciei cerca de 100 trabalhos do mestre. Não existe em qualquer lugar do mundo coleção tão fascinante de um artista impressionista. Fato facilmente explicável se considerarmos que Massena nasceu em 1885, dois anos depois da morte de Manet, considerado por muitos o primeiro impressionista, e durante 89 anos, cultivou esta escola em ambiente propício, fazendo sempre ouvido surdo às sereias modernistas.

Bem, vamos ver o que faziam os mestres do impressionismo neste ano de 1885. Renoir, indeciso com Les Grandes Baigneuses – Nice, Musée Masséna – acaba por pintar, em 1887, Les Grandes Baigneuses, do The Philadelphia Museum of Art. Obras bem diferentes, embora o tema seja idêntico. Van Gogh, deslumbrado com Arles (França), “A região me parece bonita como o Japão, devido à limpidez da atmosfera e aos alegres efeitos de cores”, viaja em 1886 para Paris e, de um só vez, encontra os impressionistas, os neo-impressionistas e a japonaiserie. Seraut pinta Caminho, óleo sobre madeira, pinceladas largas que nada têm a ver com aquele miríade de pontos que usa a partir de então. Monet dá os primeiros passos nos Reflexos. Gauguin, pintando Ângulo de Açude, deixa transparecer o que será sua pintura nas ilhas do Pacífico. Neste mesmo 1885, Massena nasce em Barbacena e aos seis meses de idade vem para Vila Velha, como sempre gostava de contar. Daqui logo saiu, virou mundo: foi cavaleiro no interior de Minas para decorar palacetes de fazendas (era o que mais gostava).

De automóvel, com baixa pressão nos “pneumáticos”, como sempre exigia andou fazendo muitas exposições do Recife ao Rio Grande do Sul. Na hora de parar foi preciso pensar: Vila Velha, já muito conhecida, foi a opção.

O que impressiona nos trabalhos de Massena é a envolvência realmente humana que têm suas paisagens, distantes da idéia de realismo fotográfico. A máquina capta, no mesmo instante e com a mesma intensidade, todos os detalhes de uma paisagem. A visão humana não. Quando fixa alguma coisa, tudo o mais são manchas. Assim são seus quadros, suas manchas e definem assumindo formas precisas, vivas, cheias de movimentos, tudo no mais belo sentido impressionista.

Nas suas obras estão patentes os mais variados recursos da perspectivas aéreas, das pinceladas, dos processos das tintas, das transparências de aquarela, do desenho, enfim de um aprendizado de 89 anos, terminando do leito na parede de um quarto do Hospital dos Funcionários Públicos.

No desenvolvimento, até a apoteose, de uma escola que nasceu ao mesmo tempo que ele, e que, numa atmosfera propícia, desenvolveu imperturbável, apesar dos alardes em torno da pintura moderna, até as últimas conseqüências, houve muito estudo, muito conhecimento, muita compreensão e amor. Amor à natureza, vivência de seus mistérios é, portanto, o testemunho de sua obra, que bem merece ser conservada.

 

Fonte: A Gazeta 30/10/1975
Texto: Kleber Galvêas

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